Não dá para entender
Dizer que "ser criança é tudo de bom"é uma ideia que vem, culturalmente, desde a antiguidade, sendo empregada pelas pessoas, mas, a meu ver, de forma bem mascarada... enganosa até... ao real contexto de muitas crianças.
E mesmo que muitas vivam em estado da infância, que tudo lhes fascina, como se estivesse olhando pela primeira vez, segundo Mia Couto. Mesmo que intuímos a dizer " que esta criança é mais tranquila do que aquela; que esta é mais feliz do que aquela; segundo Larrosa ( 1998a, p. 67), citado por.... crianças são seres indecifráveis, enigmáticos, das quais nada se sabe muita coisa. E mesmo que a criança nos revele, através do jeito de ser, de comportar, etc, mesmo, assim, podemos decifrar muito pouco!
Muitos adultos acreditam que as crianças vivam num ciclo fantasioso... assim, como nos contos de fadas... num verdadeiro "faz de conta". E "fazer de conta" é uma enganação um tanto sutil, não achas? Mesmo que muitos afirmem ter sido a infância uma das melhores fases vividas por eles, ainda, que nem lembrem de quase nada mais - olhando para uma criança, muitos dizem: "Mas... é uma fase boa! Não tem nada para se preocupar, vive só brincando! Não faz nada...", etc. E quem os ouvem, sem refletirem... concordam também...
No entanto, embora, já tenha concordado... pensando naquele exato momento que a pessoa está externando aquela opinião, não vejo "tão boa, assim". Nem para as crianças de antigamente, e nem para as de hoje. Talvez, por ter tido uma infância com regras muito rígidas... rédeas muito curtas... Antigamente, os pais exerciam ao máximo sua autoridade na educação dos seus filhos. Alguns até com certa violência. Por pequenos atos, que os desagradavam, pegavam o que estava ao seu alcance, e jogavam em direção aos filhos com toda força. Eh... no meu tempo não tinha muito hehehe... nem mimo, nem muito colo, nem muito abraço... por qualquer coisa, a gente ouvia era um... "espere aí que eu te passo ou corto no laço, "minino ou minina"!
E... isso me deixou um tanto defensora das crianças, no sentido dessa ideia de que "ser criança seja tudo de bom"; e embora, tenha me superado bastante... graças a Deus, as lembranças não foram apagadas. Hoje, sou uma pessoa bem resolvida. No entanto, infelizmente ou felizmente, acostumada aos maus tratos, desde pequena, me tornei uma pessoa forte, resistente... quase insensível... Mas não sou a favor de violência contra crianças, para criar pessoas fortes e resistentes ...Tenho pavor de ver pais corrigindo ou batendo em filhos, se ouço grito de crianças, sinto na pele a dor das correadas.
Mas... penso, eu, que as pessoas precisam ter uma nova relação com esse conceito de imaginar que "ser criança seja tudo de bom". Se você fizer uma avaliação melhor, poderá entender o porquê dessa minha preocupação. Apesar de todas as conquistas psicológicas e tecnológicas de informação e comunicação, que já ajudaram e, ainda, ajudam muito, as famílias poderiam ser melhores preparadas e ajudadas pelas instituições sociais. Se é que seja possível... uma vez que, a violência e a brutalidade doméstica a cada dia vem aumentando mais. Quantos pais e mães, padrastos e madrastas estão matando seus próprios filhos e enteados! E, ainda, Imagine... o quanto sofrem as crianças e jovens de pais desempregados, que passam até fome; de famílias desajustadas, que as crianças um dia tem um padrasto, amanhã tem outro; que se drogam; que não houve preparação e nem planejamento familiar.
E, ainda, aqueles filhos, cujos pais têm de tudo, mas exigem que os mesmos estejam com o tempo, sempre, ocupado. Tirando deles o tempo criança! Principalmente, hoje, que o "sentimento de produtividade nos pressiona e nos faz acreditar que tudo o que fazemos deve ser útil e gerador de resultados imediatos... E, ainda, grande parte do que fazemos não mais vale por si só, mas como meio dirigido a conseguir algo. Este modo de viver, pensando exclusivamente nos resultados das atividades, é um modo de existir que só faz sentido para o adulto e que acaba desviando a atenção para longe do presente. "
"As crianças não brincam pensando nos efeitos positivos ou negativos do seu brincar, não chutam uma bola ou pulam amarelinha pensando nos ganhos motores e cognitivos desta atividade; elas simplesmente brincam, porque esta é a sua maneira espontânea e natural de existir.
Kunz (2004) nos alerta que perdemos nossa sensibilidade emocional e amorosa com nossos filhos ou crianças se a nossa preocupação com eles se orienta apenas na comparação ao padrão social e culturalmente preestabelecido, não se deixando ver ou perceber os reais desejos e vontades manifestos pelos pequenos. A perda da sensibilidade emocional é consequência de uma excessiva concentração na razão guiada pelo cálculo e pela comparação, valores que são construídos e fortalecidos em nossa sociedade pela aceleração do tempo e por um desejo de progresso a qualquer custo. Ao perdermos a sensibilidade para viver o presente, as nossas ações também se tornam mais instrumentalizadas.(Ms. Gilmar StaviskiI; Ms. Aguinaldo SurdiII; Dr. Elenor KunzIII)
E... por isso... vão perdendo os seus sonhos, a sua espontaneidade e até a sua própria liberdade tão cedo, pelos estímulos e expectativas dos pais de fazê-los vencer a qualquer custo, e de tal maneira, que muitos são vencidos pelo cansaço ou pelo desinteresse por tudo, por tornarem o que os adultos querem, para, no final, serem subjugados pelo convívio social.
Transformando, segundo Michel, citando Nieezetj "no homem civilizado, que sabe diferenciar entre o útil e o prejudicial, o bem e o mal, o certo e errado, internalizando as normas e regras de conduta, os modos de ser, de pensar, de agir, de sentir e de valorizar por um longo processo de “domesticação” no interior das práticas sociais."
E com o passar dos anos, essa domesticação vai nos deixando sérios demais, cheios de regras, de compromissos e de cobranças. "Precisa estudar para ser alguém na vida...ser gente grande... importante...e ganhar muito dinheiro está, sempre, entre os melhores planos... primeiro do que ser feliz... primeiro do que valorizar a saúde... primeiro do que a família... primeiro do que viver...
É, ainda, com a expectativa de que, sempre será tempo de aprender..."Sou assim... mas o certo é ser desse jeito ou daquele."
Se eu não mudo... posso ficar parado no tempo. Tentam me comparar com todos.
Sou ainda uma criança! Mas para mim têm muitos planos! O maior desejo de todo mundo é que os filhos sejam felizes. Esse é o sonho deles também...De todos nós.Mas... cada um segue o seu caminho, e a maioria não gosta de ser controlado demais!!