O Milton amava os pássaros, mas o seu preferido era o sabiá, o Sabiá-laranjeira, que é facilmente reconhecido pela cor laranja ou ferrugínea de sua barriga ou, pelo seu canto melodioso.
Uma das espécies mais populares do país, que com seu belo canto inspirou poetas consagrados como Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Tom Jobim, Luiz Gonzaga e Chico Buarque.
Mas entre todas as homenagens, uma se destaca na memória popular, o poema Canção do Exílio onde o poeta Gonçalves Dias imortalizou a ave em seus famosos versos: Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá.
Logo que passamos a frequentar mais a nossa fazenda, onde temos a sede, denominada "Morro de Mesa", o Milton dizia que um pássaro que, ainda, não tinha visto por lá, meio a tantos, era o sabiá; e ficava encantado com o canto de um que cantava no quintal da casa de minha mãe em Jataí. Realmente era encantador! Sempre estava cantando, quando íamos na cidade visitá-la.
E, depois de algum tempo, minha mãe veio a falecer, então, nós herdeiros vendemos a casa dela, e nunca mais voltamos naquele lugar. De repente, um sabiá cantando na fazenda. Milton dizia em tom de brincadeira - "sua mãe mandou o sabiazinho dela para cá", e complementava: "aqui não tinha, você lembra!"
E, há oito meses de sua partida, fui prá fazenda, e lá estava o seu sabiá cantando o dia inteiro, bonito e triste, e por incrível que pareça, do lado esquerdo do meu peito, não sei se anunciando a chegada das chuvas ou para atrair alguma fêmea.
E segundo pesquisas, "o sabiá pode cantar até dois minutos, e ainda podendo incorporar a sua melodia o canto de outros pássaros do ambiente, fazendo com que seu canto seja ainda mais impressionante". Mas comovente fica, quando as lembranças e a saudade misturam com aquela melodia, invadindo a nossa alma de um jeito que nada pode confortar.
Quando alguém parte desta vida, tudo serve para relembrá-lo. Ah, que saudade que me dá das "manhãs fazendeiras", como ele dizia, a gente saía bem cedo da cidade e íamos para a fazenda, com todo ânimo de sempre!
Sempre, lembro dele animado. Mas se algo o chateasse, ah... "acabava o homem", era uma expressão que gostava de usar. Dizia também "não sou homem de ficar triste! ". "Não me deixe ficar triste".
Ah, minha terra tem palmeiras
Babaçu, guariroba, buritis
Onde ainda canta o sabiá
Mas de tão bonito e triste
Faz a gente se arrepiar.
Oh, que saudade eu tenho
Das felizes noites fazendeiras
Vendo com ele a lua cheia
Escorados na porteira do curral!
Que de tão bela nos convidava
Ao romance a luz do luar
Ou ouvindo suas melodias
Ao som do seu violão ou de sua viola
A rir e a conversar
Ah, se eu tivesse o poder
De fazer o tempo voltar
Eu queria ele de volta
Para podermos ver a lua
E ouvirmos juntos
O canto do sabiá.