Diante das mudanças e da perda tão abrupta do meu marido pelo COVID 19, no período mais letal da pandemia, e do desejo de poder fazer algo para acalentar o meu sofrimento, manter meu cérebro concentrado, equilibrar o meu estado emocional e evitar mais adoecimento físico e mental, pensei em escrever este livro, e poder com ele inspirar outras pessoas enlutadas e angustiadas a se autocurarem, também, através da escrita.
Durante toda a minha vida, usei a escrita como escuta. Do meu jeito, no meu tempo e na minha hora. Ou seja, no momento que o coração, que a ansiedade, a angústia, a tristeza e a saudade me visitavam.
E colocando os problemas em palavras e analisando - os por escrito, pude perceber os insights e as perspectivas, que não seriam possíveis de outras formas. Uma vez que, somente, através desse tipo de escuta, de exposição pessoal, podemos nos desabafar e depois de lida fazer a nossa interpretação, a nossa reflexão.
E pouco a pouco, pude sentir mais aliviada da dor que sentia, do problema que me angustiava, e pude me sentir melhor, encontrar uma resposta e uma saída. Como disse Rubem Alves:"O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse você..." A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito."
E a escrita, pode acreditar, leitor
( a), desempenha muito bem essa função de cura e libertação de sentimentos e aflições, uma vez que, muitas pessoas não conseguem verbalizar o que sentem, mas conseguem escrever, desenhar ou ilustrar com as palavras. E mesmo que não tenha um destinatário, você pode escrever para o seu ente querido que já partiu, como no meu caso; ou para a pessoa que a/ o deixou preocupada ou nervosa (o)por algo, por exemplo.
Somente, o exercício de expor o que você está sentindo pode ajudá-lo (a) a organizar seus pensamentos e, entender como está pensando e poder elaborar melhor as situações. Mesmo que a dor do luto seja eterna, pode ser amenizada. E como disse Fernando Pessoa : " Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir".
E, segundo Lella Malta (2023), cientista social, "as possibilidades das palavras se tornarem ponte para a (re) organização de sentimentos nesta fase dolorosa são infinitas. A escrita ressignifica experiências, alcança memórias, é canal de escuta atenta das dores que carregamos no peito. Ainda que essas dores sejam eternas".
Na verdade, senti que a escrita foi como um combustível, uma vez que, a minha mente permaneceu centrada nele, relembrando tudo que vivemos, suas principais ações e experiências, das mais remotas às mais recentes, bem como seus legados. E se me distraia , me causava também muita dor. Mas pude me reinventar...ocupar o tempo com algo que gosto e que foi significativo para nós.
E, como meu marido havia deixado alguns escritos, resolvi digitar todos os seus textos e começar a escrever a sua biografia em sua homenagem, com o objetivo de deixar registrada a sua e a nossa história de vida para nossos netos, familiares e a todos aqueles que quiserem ler uma história verídica de um ser humano único, trabalhador e esperançoso.
Um ser humano, que acreditava, sempre, que "ninguém, além dele mesmo, poderia tornar o seu sonho realidade", fazendo jus com o ato de se escutar. Podemos até ter ajuda de um terapeuta, neste momento, mas ninguém pode nos escutar melhor do que nós mesmos (as). Tente! Você também será capaz!!