Certo dia... ouvindo um monólogo do ator e humorista Nelson Freitas, através de um áudio, que o mesmo indagava sobre o grande número de pessoas que compõe uma família; atentamente, enquanto o ouvia, lembrei- me do Milton, com as suas indagações também, quando me dizia que tinha conseguido, através das suas leituras e pesquisas, retroagir 100 anos atrás à árvore genealógica da minha família - "Família Moraes de Jataí", e ficava, muitas vezes, impressionado... com a coragem, com a luta de todos para conseguir desbravar terras sem maquinários, sem estradas asfaltadas, sem nada... só com muita força de vontade, coragem e trabalho.
E Nelson Freitas começa já de imediato nos perguntando:
“Quem você pensa que é?
Poucas pessoas têm oportunidades ou até mesmo interesse em saber quem veio antes.
Imagina quanta gente que está misturada... no seu DNA. Então, agora pense…Para nascer nós precisamos de 2 pais, 4 avós, 8 bisavós, 16 trisavós, 34 tetra avós, 64 penta avós, 128 hexa avós, 246 hepta avós, 512 octa avós, 1024 enea avós, 2048 deca avós .
Só nas últimas gerações são 4094 pessoas. É gente para caramba!! İmagina, juntar todo mundo... ia precisar do que? De um ginásio, né?
Isso tudo, só nos últimos 300 anos, antes de eu e você nascermos .
Quem foram essas pessoas? De onde elas vieram? Quantas lutas, quanta pauleira, pauleira braba já viveram... guerras, fome, epidemias, catástrofes.
E mesmo elas não tendo a menor ideia que você ou eu estaríamos aqui hoje... quanto amor, quanta alegria, quanta vitória, quanta prosperidade, quantas características pessoais, não é? Qualidades, defeitos, medos, virtudes, coragem e esperança…
E quer você queira ou não, tudo isso está em algum lugar dentro de você, dentro das suas células. Está tudo aí ! E quando você for olhar o espelho da próxima vez… pare e pense nesse mundaréu de gente que te habita.
E nós só existimos, graças a tudo que cada um deles passou. Faz sentido né? Porque viver não é fácil. Sobreviver é um exercício diário.Hoje em dia, a gente aperta o o interruptor e a luz acende. A gente abre uma torneira e sai água.
Lá atrás não tinha nada disso. Não tinha penicilina, não tinha raio x, não tinha anestesia...Passados 60 anos era um feito. E outra, a maioria dos nossos ancestrais nem nasceram aqui. Eles vieram de outros países.
Como é que eles vieram parar aqui?
De onde eles vieram?
Quem juntou com quem?
A reverência à memória dos nossos antepassados é parte do auto conhecimento, porque, sem entender essa origem, sem entender o seu passado, você não consegue criar referências para o seu futuro.
(Outro dia, eu ouvi o Mário Sérgio Cortella, que eu adoro, uma das mentes mais brilhantes que eu conheço. Ele falando uma frase de um filme que, apesar do contexto ser diferente, cabe muito bem aqui no nosso papo de hoje. E ele dissertava sobre “ O Resgate do Soldado Ryan”, um filme extraordinário de Spielberg, onde um pelotão é designado para repatriar um soldado, que estava no front durante a invasão da Normandia na Segunda Guerra, é a primeira cena do filme e dura quase 15 minutos; talvez, mais, uma daquelas cenas antológicas desse gênero do cinema, o desembarque na praia na posição Omaha, que foi a mais difícil.
E aquela saraivada de balas, aquelas câmeras subaquáticas, lembra? O sufoco dos soldados desprotegidos. É uma cena muito realista, muito impressionante, difícil de ver. E por que resgatar um soldado, enquanto outros milhares estavam perdendo suas vidas? Por que aquele soldado específico?
Eu não vou explicar porque vai tomar muito tempo, só vendo o filme mesmo. Já tem 20 anos. Todo mundo já deve ter visto, mas, achar um pára-quedista perdido no meio de um inferno como aquele é uma missão que só o Spielberg pode cumprir. Não é verdade?
E quando encontram , finalmente, o tal soldado, interpretado pelo Matt damon, apesar de ele ficar devastado com a notícia da perda dos irmãos, ele não quer parar de lutar. Voltar para casa, ele não aceita. Ele acha que é dever dele continuar pela memória dos irmãos, mas acontece que vários outros morreram para que ele pudesse ser salvo.
Esse é o dilema do filme. E quem não viu..... é melhor parar esse vídeo agora porque é apólise. Numa das cenas finais o Comandante da operação, o personagem de um dos monstros do cinema contemporâneo, Tom Hanks, é baleado e fica encostado numa mureta. E o Ryan vai até ele, e o capitão antes de morrer segura o jovem pelos colarinhos e diz pra ele “… faça por merecer…”)
“Faça por merecer”. Será que depois que tudo que passaram nossos ancestrais, toda a dificuldade , toda a resiliência, todo o sacrifício para criar os filhos, para que eles pudessem também criar os seus próprios filhos, e, assim, por diante, até chegarem em você e eu, aqui hoje.
A pergunta é: nós fazemos por merecer? Por merecer a nossa existência, merecer a nossa vida; esse mistério magnífico que, mesmo não conhecendo toda a razão, nós participamos dessa vida, e que nós partilhamos com outras e outras pessoas que vieram antes de nós, e que no mínimo deveríamos honrar o que fizeram pela gente.
O que uma mãe, um pai, uma avô, uma bosavó fez para ter comida na mesa, para te manter vivo, suplícios, às vezes, inimagináveis e andar quilômetros a pé, pegar três conduções para trabalhar, noites sem dormir, privações, sofrimentos. Atravessar o oceano num porão de um navio. Ser maltratado, humilhado, mas não desistir nunca dos seus. (Chorando)
Faça por merecer!! Não precisa ser nada demais! Se conseguir fazer com que os seus descendentes tenham o mesmo sentimento por você, quando não estiver mais por aqui... "então diga que valeu, valeu demais".
Valeu demais!!
Estou aqui pensando... O que nossos netos vão pensar do avô Milton? O menino pobre, que, como ele mesmo dizia, teve que desbravar a pobreza, a falta de cultura; tudo para ser o que tornou.
Com certeza, os de fora, se por acaso, lerem, podem pensar que foi fácil. Mas não foi. Estou aqui para testemunhar.