sábado, 10 de abril de 2021

9- Enfim, em Caiapônia, vivi e sobrevivi...


Em Caiapônia, estou residindo há quase 23 anos. Aqui nasceu a minha filha Nalygia, que está cursando o terceiro ano de Direito, e se Deus quiser, seguirá a carreira do pai. 

Nesta cidade, criei a minha família, me fiz advogado e político militante, apesar de nunca ter disputado qualquer cargo político.

Na luta como advogado e político, venci, perdi, me surpreendi e me decepcionei. Fiz amigos e inimigos. Fui ator e expectador. Enfim, vivi, sobrevivi, e hoje, posso contar histórias.


(Foto do quadro que tem todos os irmãos na festa de 50 anos)

Estou completando, neste ano, cinquenta anos de idade, "com o corpo de trinta e com a alma de vinte". Chego a essa idade com vigor físico e mental revigorado, e com a capacidade intelectual mais aguçada.

Depois de tantas lutas vividas, não sei se sou vencedor ou vencido. O que sou, o que tenho, devo muito aos meus pais, principalmente, à minha mãe, aos meus irmãos, à minha esposa, aos meus sogros, aos meus filhos e aos meus amigos.
Mas, principalmente, devo o que sou e o que tenho: a Deus e ao meu esforço, ao meu entusiasmo, à minha dedicação ao trabalho e aos estudos, que desde criança, tenho praticado diuturnamente.

Sempre, vivi acima dos meus limites: físicos, intelectuais e financeiros.  Sempre, me preocupei com o presente, mas com os olhos para o futuro. Preocupado com o bem estar da minha família e com o futuro dos meus filhos.

Sou um Caipira, metido a advogado, a político e a intelectual. Como advogado, milito, diariamente, no fórum desta região e nos tribunais do meu estado, defendendo os interesses dos meus clientes, tanto na advocacia cível, quanto na criminal. 

Como político, tenho participado de todos os acontecimentos deste município. Atuando como assessor de várias administrações, como membro ativo do PMDB, nos palanques e nos palácios, tentando resolver os problemas do meu partido e da nossa comunidade

( Foto com os políticos)

Como intelectual, tenho participado de vários acontecimentos culturais da nossa região, escrevendo artigos para jornais e participando de palestras ou organizando eventos.

Ao mesmo tempo, sou advogado, político e intelectual metido a fazendeiro. E como tal, estou sempre aos finais de semana e nos feriados, brincando de ser fazendeiro, lidando com gado e com tropas. 

Sinto-me confortado quando, ainda, de manhã, pego meu cavalo e saio pelos pastos campeando os meus pensamentos, observando, atentamente, as árvores, os animais, o gado, e admirando o que chamam de minha fazenda.

( Foto à cavalo com outros cavaleiros)

Gosto de estar perto dos meus vizinhos de fazenda. Fico horas conversando com eles e com os vaqueiros e roceiros de minha região; e nestes momentos, sinto-me um deles, no jeito de falar, de pensar, e até mesmo na organização da minha atividade rural. 

Cheguei a conclusão que sou metido a tudo que sou; e neste sentido fiz esta definição e a coloquei na parede do meu escritório.
Sou advogado,
Nas horas vagas sou político
Nas horas mais vagas sou fazendeiro
E nas horas ainda mais vagas sou boêmio
Mas no fundo sou, apenas, um sertanejo.

( Foto da placa de advogado)

Desejo de ser fazendeiro

Não pretendo ser advogado e político a vida toda. Após a formatura dos meus filhos, desejo ser fazendeiro. Não quero ser fazendeiro moderno, informatizado e tecnificado. Ser fazendeiro é trabalhar de sol a sol, é morar numa casa simples, se possível antiga, com grandes portas e janelas, no estilo das velhas fazendas, e poder ouvir o barulho das botas e o tilintar das esporas provocadas pelo pisar das pessoas pisando pela casa.

Quintal grande com pomar, rego d'água, bicona cheia, o terreiro repleto de galinhas. Porcos gruindo no mangueirão, brigando por uma espiga de milho ou por uma fruta caída de uma mangueira ou de uma goiabeira.

Minhas noites serão de luar, carne assada, viola e violão, cantorias, sonhos e mais sonhos, e ao deitar, poder dormir ouvindo o som do monjolo preguiçoso, pilando milho para canjica. Acordar de madrugada despertado pelo cantar insistente dos galos músicos, e minhas manhãs serão frescas, abrirei a janela do meu quarto para ver o sol nascer e ouvir o canto dos pássaros na moita de bambu.

(Foto na janela)

No pasto da porta, umas poucas vacas leiteiras, e no piquete, éguas com os seus filhotes desfrutando o sol da manhã.

Nas invernadas, haverá o gado nelore, baio por excelência, de onde pretendo retirar o sustento da minha família.
( Gostava do gado nelore e gir. O nelore todo baio, e as girolandas de pelagem vermelha com manchas brancas.)

(Colocar fotos do gado nelore e gir)

Nas tardes quentes de verão, irei pescar lambari e piaus no Córrego Joaquinzinho e banhar no poção, logo abaixo da ponte dos buritis. 

(Foto pescando)

E ao chegar em casa, poder encontrar minha querida esposa varrendo o terreiro ou fazendo doces, assando biscoitos em forno de barro construído na casinha da bica, e apesar de tanto tempo juntos, ainda, poder observá- la com carinho.

Nos finais de semana, visitar os vizinhos ou recebê-los em minha casa. Uma vez por mês, ir à cidade para arrumar os negócios, rever os amigos e ir à igreja Matriz participar da missa. ( Milton não tinha religião. Mas gostava da simbologia da igreja católica. Gostava de conversar com os padres).

Nas férias ou nos feriados, receber os filhos, os netos, meus irmãos, sobrinhos e amigos. Fazer pamonhas, contar causos, jogar truco, e poder sentir, ainda, mais forte o sentimento familiar. 

É, assim, que pretendo viver daqui a alguns anos, e espero que estes sonhos se concretizem. 
      (Caiapônia, 30 de maio de 2002)
              ..........sfm......

Milton dizia que não queria advogar e nem ser político a vida toda, mas não conseguiu.  Era advogado e um político nato. Era um ser atuante e muito trabalhador.

 Tinha um sonho de morar, na fazenda, logo que os nossos filhos formassem, também não se concretizou. Mas nos últimos quatro anos, antes de sua morte, íamos bastante para fazenda, e ele, embora, não tivesse tempo e nem sossego de ficar parado, aproveitou bastante.

Milton gostava muito de fazenda, mas se não tivesse o que fazer de uma fazenda para outra, com a lida do gado, preferia voltar para a cidade. 

Se a energia acabasse, ficava incomodado, gostava de ouvir suas músicas, seus filmes, seus programas na TV, quando não estava fazendo nada. 

Caso a energia não chegasse, logo, me chamava para irmos embora. Dizia, "sem TV, vou perder o sono". E como dormia cedo, na fazenda, acordava às 4/5h da manhã.(Certa vez, ele me disse que, quando era solteiro, pensava... "Vou casar, e, quando perder o sono, vou ter com quem conversar... Mas, não, quando perco o sono, a Nilva está dormindo", e, como, também, tenho muita insônia, às vezes, para não me acordar, ele ia deitar, no sofá, para ver TV ou ouvir rádio). Amava um rádio!!

Sempre, me contava seus sonhos quando acordava. Tinha constante sonhos com fazendas e casas antigas. Amava assistir aqueles documentários de fazendas antigas. Era uma pessoa saudosista, muito caseira. Não gostava de ficar só em casa, mas não gostava de visitas com muita gente. Dizia que preferia a companhia de poucas pessoas para conseguir dar atenção para todos. 




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