Este Carro de Boi pertenceu ao senhor Joaquim Zacarias, carreiro e fazendeiro Caiaponiense, que o adquiriu em 1945. reformado em 1965, mas, há vários anos estava esquecido no fundo do mangueirão da fazenda Torres, à sombra do Morro Gigante.
Assim que fui informado da intenção do Sr Joaquim Zacarias em vendê- lo, fui até a sua fazenda, e depois de examiná-lo, ouvir suas estórias, ver as marcas dos pescoços dos bois, nas cangas, já corroídas pelo tempo, resolvi pagar o preço que o proprietário pediu pelo mesmo.
Após os ajustes necessários e a substituição de algumas peças, a troca do assoalho e o lixamento da madeira, mandei impregná- lo de sebo para protegê-lo das traças, conservar a sua estrutura, e o coloquei neste galpão, onde ficará exposto.
A presença deste Velho Carro de Boi, aqui na fazenda Cachoeira do Morro de Mesa, é uma homenagem aos meus antepassados, que ajudaram a desbravar os sertões de Minas e Goiás, aos bisavós avós da minha esposa, que nos idos de 1920 a 1940, aventuraram- se em longas viagens de Jataí até a cidade de Coxim, no Mato Grosso do Sul, para buscar sal grosso e abastecer as fazendas daquela região.
É também uma homenagem aos meus amigos e vizinhos carreiros, e, também, aos primeiros proprietários destas terras, que deixaram as marcas do Carro de Boi, na laje das passagens dos córregos Joaquinzinho, Chiqueiro, Cachoeirinha, Poção e, principalmente, do córrego do Pasto, aqui no fundo de casa.
Certamente, este carro nunca mais será puxado por bois e nem cantará pelas estradas, carregado de milho, cana- de- açúcar ou de mandioca. Ficará eternamente carregado de lembranças e de estórias de carreiros, de trabalho, suor e encantamento.
Sentado na varanda da minha casa, olhando para o velho Carro de Boi, recordo-me dos tempos de criança; meus pais moravam em Serranópolis, e naquela época era ele o principal meio de transporte do povo daquele lugar.
Lembro-me dos carreiros que vinham à cidade com seus carros quase sempre cheios de mantimentos, puxados por quatro ou cinco juntas de bois tucuras; e, na volta, eu e outros meninos sentados em sua traseira, acompanhávamos o carreiro até a saída da cidade, e voltávamos correndo.
Naquela época, já pensava em um dia ser fazendeiro, possuir um Carro de Boi, e viajar pelo mundo com a minha boiada.
Viajei pelo mundo, venci estradas, mas aquelas lembranças nunca me abandonaram; só, depois de tanto tempo, de tantas lutas, de idas e vindas, aqui estou, na minha fazenda, e com o meu Carro de Boi, tão reais, mas ao mesmo tempo, recheados de lembranças e de sonhos. (Cpa, 15/11/2003).
Milton gostava muito de um carro de boi... não se satisfez com, apenas um, tinha dois carros. O último foi feito em uma cidade do interior de Minas Gerais. Pagou uma nota por esse carro, mas queria que o carro cantasse, e esse carro não cantou como ele queria. Trocou até uma peça, depois cantou melhor. Teve o seu carro de boi, com quatro juntas, amansadas pelo seu amigo carreiro Nena. Que, sempre, ia à nossa fazenda com a sua esposa dar uma carreada, e a noite, assávamos uma carne, bebiam ali umas 4 cervejas, cantavam e tocavam uma viola, conversavam, um pouco, e iam dormir. Às vezes, caso a conversa ia diminuindo, o Milton dormia ali mesmo. Muitas vezes, ele dizia, vão conversando, para eu dormir.
Sempre, que tinha festa dos carreiros, em Caiapônia e nas cidades vizinhas, ele fazia questão de participar. Adorava as histórias dos carreiros. Gostava de conviver com eles. Mas bem antes de sua partida, resolveu vender os bois. Os carros continuam na porta da fazenda.
Nenhum comentário:
Postar um comentário