quarta-feira, 8 de setembro de 2021

A Florada das gabirobeiras e dos ipês - roxos

Repentinamente, de um dia para outro, e sem nenhuma técnica e nenhum recurso sofisticado, comecei a fotografar... e a registrar tudo que achava interessante pela frente, e, quando estava viajando ou indo para fazenda com o meu saudoso marido, as árvores - as derradeiras sobreviventes, deste meu país verde e amarelo... faziam parte do meu hobby,  sem distinção das mais esbeltas, raras ou não, para mim todas são belas - tanto as tortas quanto as secas, as baixas ou as que vão crescendo,  desordenamente... não sou muito exigente. 

Acho que por isso sou mais feliz do que muitas pessoas. Pelo menos era... hoje, nem tanto.  Perdi o encanto...ando meio, aliás... bem desencantada. Sempre, via  beleza em quase tudo, até nos liquens das madeiras antigas que cercavam o quintal da nossa casa, na fazenda; ou aquelas simples plantinhas que  sobreviviam entre pedras ou nos lugares mais impossíveis, sem se queimarem.

Meu marido, sempre, valorizava o que eu fazia, isso era algo que me encantava; mesmo com a sua impaciência, que todos percebiam no seu ímpeto, parava na estrada da fazenda para eu fotografar ou filmar. Depois de mais velho, ficou bem mais tranquilo, mais sereno e menos ansioso.

E se fosse as floradas das gabirobas, não passavam desapercebidas, jamais; eram as suas preferidas. Sempre, na primavera, quando suas copas se enchem de pequenas flores brancas, lindas, delicadas, dando uma agradável e relaxante sensação de bem estar,  limpeza e claridade ao ambiente.
Mas me avisava, cuidado com as cobras, elas gostam desses lugares. Quando estava no tempo das frutas maduras, de sabor inconfundível, a gente parava para pegá- las. Sempre, enchia as minhas mãos delas, e dizia "tem marido bom". Rsrsrsrrsr. Gostava de justificar!

(Além das frutas, o picolé da gabiroba dos Frutos de Cerrado era o seu preferido. E eu sempre gostei muito do picolé de Cupuaçu, e ele me dizia: "Mas Nilva, em vez de gostar de uma fruta típica do nosso cerrado, vai gostar de uma fruta lá do Norte, não entendo". Queria mandar no meu próprio gosto!! Rsrsrsrrsr)

Um dia, me levou para ver um lugar lindo, no campo, onde tinha muitos pés de buritis e  babaçus, e tinha feito uma represa linda para os animais. Sempre, me encantei por lugares, assim, meio úmidos, sombrios, de solo arenoso, no qual nasce uma fileira de buritis, com seus cachos de flores e de frutos avermelhados, revestidos por escamas brilhantes, e o solo forrado de folhas secas, promovendo, literalmente, sombra, água fresca e alimentos para os animais daquele lugar. 

Se tivesse que descrever o paraíso, eu o descreveria assim: cercado de palmeiras, babaçus, buritis carregados de samambaias e orquídeas bem floridas, de todas as cores e tamanhos, em campos verdinhos, todas juntas, embora, sejam mais difíceis de encontrar...

Nesse lugar que fomos, fica nas nossas terras, bem próximo da Serra do Morro de Mesa, onde produz muitas mangabas. Ah, como eram deliciosas! Não tinha sabor igual. Mas tinha que subir o morro, se quisesse se deliciar.

Um dia, prometeu me levar num lugar que tinha muitos ipês roxos. Fomos!
Chegando lá...  as flores no chão...  tinham caído todas... Ué.... ele disse: " ontem estava todo florido...e hoje já não está", nos mostrando a brevidade das coisas. Às flores do ipê duram de  quatro a cinco dias, no máximo!

Era o mês de setembro, e logo deu uma chuvinha, com os primeiros trovões. Ah, que coisa boa, aquele ar fresquinho, aqueles pingos secos nas costas, depois de um sol de rachar, vendo o gado, umas novilhas bonitas a pastar... e nós voltávamos animados prá casa, sempre, com muita esperança, que cada dia mais, as coisas poderiam melhorar.

E, sempre, a tarde, quando não ia deitar no sofá de casa, para ver os noticiários da política brasileira, ia pescar, para eu preparar o seu melhor tira - gosto, caranha frita, e depois, ouvirmos suas músicas preferidas com o caseiro da fazenda ou algum vizinho, tomando uma, duas, três ou até quatro cervejas, e depois dormir, com a expectativa de, no outro dia, acordar.

Bons tempos!! E hoje estou aqui, com os pensamentos voltados para aquele tempo. Para o passado que não volta mais. Tempo que tudo fazia sentido. Agora, só tenho histórias para recordar e para vocês contar. 

Passagens, talvez,  insignificantes para você que me lê; mas, não, para alguém que perdeu um ente querido, para nunca mais voltar. Pense nisso! 

Nenhum comentário:

Postar um comentário