As ruas da cidade, assim, como a nossa casa, falam por si e pelos seus habitantes, transportando toda a sua pequenês ou toda a sua vitalidade aos olhos de quem chegam.
Causando uma boa impressão ou não - de alegria ou de tristeza, de (anti) - progressista. De bem ou mal cuidada. É fácil fazer essa avaliação, logo que adentramos em um lugar.
Quando chegamos em Caiapônia, precisamente, em 1979, tudo era muito simples e harmonioso, como a maioria dos lugares, e com seus moradores e também com os chegantes.
Um povo muito hospitaleiro, logo foi nos dando "o ar de sua graça", sabendo muito bem receber seus visitantes ou seus ficantes, nos dando as boas vindas, oferecendo ajuda e nos desejando boa sorte.
E nós, jovens casados, o Milton recém - formado, com o nosso primogênito, nos braços, de dez meses, carregados, apenas, de muitas esperanças e de positividade, abraçávamos a causa que o destino para nós começava a planejar.
E foi aceitando aquela fase, tal como ela mesma nos apresentava, procurando ver esperança em, praticamente, tudo, mesmo quando sentíamos que algo não estivesse indo tão bem. Mas tínhamos duas grandes aliadas, que não nos deixavam sozinhos e nem nos abalar pelas dificuldades - a coragem e a persistência.
A persistência e a coragem nos ajudaram resistir a tudo. E foi não cedendo às dificuldades que tornei professora e o Milton advogado, político e fazendeiro. Foi aqui que aprendemos a viver e a conviver com as pessoas, e, também, nos conhecermos melhor e tbém o outro, como ser humano. Foi aqui que nossos dois filhos cresceram, foram alfabetizados e fizeram o Ensino Fundamental.
Foi aqui que construímos vários amigos e conhecidos. E enquanto uns iam colorindo a nossa vida, outros iam descolorindo, assim, como a confecção das antigas colchas de retalhos - nem sempre de tecidos bonitos, nem sempre alegres, nem sempre resistentes, nem sempre duráveis e confiáveis.
Embora, alguns fossem bem floridos, outros eram cinzas, outros bem desbotados foram dando o tom típico daquele lugar. Entre esses existiam e existem as sedas, retalhos mais nobres, que estarão para sempre em nossas lembranças.
Assim: Cada um, que foi passando por nossa vida, foi costurando algo em nossa existência. Nenhum foi igual. Mas em cada contato, fomos ficando cada vez maior, no sentido de conhecermos mais pessoas, e ficando mais resilientes. Cada pessoa chegou com seu jeito... com a sua grandeza ou com a sua pequenês.
Cada uma deixava o seu exemplo de vida... sua experiência... sua empatia... sua história. Quase todos deixaram algo importante em nossa memória, e que não queremos
esquecer jamais.. Mas existiu quem entrou e que não fazemos nenhuma questão, se a nossa memória, um dia, por completo deletar.
Só temos a agradecer as pessoas que entraram em nossas vidas para nos fazer o bem. Nosso ❤️, sempre, estará aberto para elas.
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Mas...como todas as cidades interioranas, tudo aqui era muito rotineiro... tudo andava bem devagar, assim, como disse Carlos Drummond de Andrade em: CIDADEZINHA QUALQUER
Casas entre bananeiras / mulheres entre laranjeiras / pomar amor cantar.
Um homem vai devagar / Um cachorro vai devagar / Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta.... meu Deus.
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E lembrei- me do comércio de outrora - das lojas de tecidos do Sr Geraldo, do Sr Adalberto Bonfim, do Nazir e do Kalide Azank e de outros libaneses. Também da frutaria do Sr Orestes - onde vendia bananas da Terra, mandioca e tomates.
Ainda, me lembro dos armazéns que vendiam o básico - arroz, feijão, açúcar, café, macarrão e extrato de tomate elefante, bolachas, suspiros e rapaduras, ao céu aberto; não esqueço, que além de alimentarem as crianças, as formiguinhas doceiras também. Faziam estradas entre uma prateleira e outra... Mas não incomodava ninguém...era assim que usava...
Lembro- me da Dona Maria do Mel, uma fazendeira, que logo me cativou, tornando minha amiga e fonte de inspiração... por estar sempre disposta mesmo com a idade que tem. Dona Maria saía vendendo, quase de tudo, de casa em casa, que trazia da sua fazenda - frutas ( laranja, bananas, jabuticabas e outras que a minha memória não relembra mais). Folhas e cheiro verde, abobrinha, e tudo de hortaliças, além de queijo, doces requeijões e ovos Caipira. Tudo fresquinho, além do mel das abelhas Europa. Tudo orgânico.
Lembro- me da panificadora do Sr Edinho e de dona Derly, primeiros donos da Panificadora Universo, que até hoje mantém o nome, pelos outros proprietários. Sr Edinho e dona Derly já não estão mais aqui, já viajaram para o lado de lá; sempre, nos convidavam para passar o Natal com eles e os seus funcionários, tendo como prato principal, além de um agradabilíssimo papo, leitoa assada, mandioca, arroz branco e uma gostosa maionese. E, sempre, íamos com o maior prazer. Eram pessoas muito simpáticas e queridas por todos nós.
Ah, lembro também da galinhada da Dona Percília! Fomos algumas vezes jantar lá com alguns políticos! Ah, como tinha vontade de aprender fazer aquela galinhada! Por mais que eu tentasse, e que encontrasse alguém que a fizesse muito bem, o sabor da dela era inigualável, com aquele molho incrível!! Às vezes, fico me perguntando... será que não deixou a sua receita para as filhas e netas?
E por falar em aprender... Caiapônia foi um dos meus maiores celeiros de aprendizagem. Como cheguei aqui muito nova, sabia muito pouco tanto da culinária quanto da vida. E muito do que eu sei, aprendi aqui.
Quando chegamos aqui, o transporte do lixo da cidade, ainda, era feito de carroça, e a entrega do leite também. "Oh, o leite", o leiteiro gritava..., e a gente ia correndo pegar o litro do dia. E o cavalo saia galopando pelas ruas de pedras, puchando a carroça e o seu carroceiro, deixando em nossa memória o barulho dos seus cascos, correndo pela rua. Lembro até hoje!
Ah, o município dos melhores cerrados para o pequi. Não esquecerei, jamais, das crianças que vendiam pequi. "Olhe o pequi"...e lá ia eu comprar, um dos melhores pratos de Goiás. Que fui conhecer mesmo em Caiapônia. Em Jataí, não sei se pela falta de hábito da época por aqui, na casa da minha mãe e do meu pai, o pequi não fazia parte do cardápio.
Mas é um prato mesmo especial. E quando tem frango,
vou te falar...primeiro, se come com o olfato, depois com o paladar. E lembrei- me de que o Milton sempre dizia: "pequi não tem gosto, só cheiro". E para quem saboreia um bom pequi e sabe o gosto que tem, não discutia.
Inesquecível.... Inconfundível
Se você comer, não esquecerá jamais.
Ficará sempre, na sua memória, este poderoso energético e afrodisíaco dos cerrados de Caiapônia - Goiás.
Mas, hoje, quanta coisa mudou, é muito raro ver crianças vendendo pequi. Temos, hoje, a Rua do Comércio. A casa do pequeno e do (a) grande empresário (a), do (a) produtor (a) do campo e também da cidade. Lugar que tem de tudo, não é a toa que chama rua do Comércio. Onde vende desde as roupas e calçados importadas da China... às grandes marcas da Colcci, da Cantão e outras.
É lá também que fica o Boticário, a pequena farmácia de outrora, que, hoje, dá lugar à maior rede de Perfumaria e Cosmética do Mundo. E Caiapônia tbém não ficou para trás. A Loja dos presentes dos amigos, dos colegas, dos pais, das mães, do Natal e, principalmente, do amigo secreto.
Lá onde as palmeiras imperiais têm o destaque que, realmente merecem, fazendo jus ao nome - altaneiras...e belas...quase encostam no céu, plantadas na administração do ex-prefeito Lary, entre as luminárias de um lado e de outro colocadas pelo ex-prefeito Edinho. E vale lembrar que foi "a primeira palmeira plantada, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, pelo príncipe regente Don João Vl em 1809".
Mas, não, que as outras ruas da cidade não possuam a sua beleza com as suas belas sibipirunas, plantadas na administração do ex- prefeito Joaquim Moraes dos Santos. E lembrei- me da rua da İgreja Católica, onde fica a primeira casa que aqui moramos. Onde o Milton recorda, citando o sino que tocava de hora em hora.
Logo, bem próximo, tem a praça, onde todos lembram, com saudade, do jardim, com suas árvores decoradas - topiaria - a arte que começou na Europa, que molda as plantas através de podas, criando formas geométricas ou artísticas. Não tive o prazer de conhecer esse jardim de outrora, só conheci por fotos.
E por último, da rua da minha casa, que morei, por tanto tempo, com o meu saudoso esposo, e hoje não moro mais; que fica perto das duas escolas que trabalhei, Escola Estadual Elias Nasser e Colégio Estadual Nossa Senhora do Montesserrate, e da última morada de muitos mortos.
Milton não foi sepultado em Caiapônia. Preferi que a sua última morada fosse Jataí, para onde mudei, logo que ele partiu. İnteressante, para mim, naquele momento inesquecível e triste, tomei a decisão de enterrá- lo aqui, na minha cidade Natal, assim, ele ficaria mais próximo de nós!
Nordestinos em Caiapônia
Em Caiapônia há muitos nordestinos, uns cearenses, outros pernambucanos, mas mais, predominantemente, baianos de Correntina, Barreiras e Cocos. Que chegaram aqui por volta da década de quarenta/ cinquenta em busca de melhores dias para si mesmos e para a família. Vinham de "paus de araras", transporte feito em caminhões com bancos de madeira na carroceria, descobertos ou cobertos de lona preta.
Tive o prazer de conhecer vários deles, e todos que conheço são muito trabalhadores e honestos, dentre eles uma baiana, dona Norma e um baiano, Sr Rochinho, de Cocos. D. Norma era uma morena trabalhadeira, de sotaque bem característico, do lugar de onde veio, muito séria, mas de um sorriso largo, quando tinha motivo, e de uma sensibilidade a flor da pele, devido as durezas da vida.
Foi minha lavadeira e passadeira por muitos anos. Nunca encontrei alguém para passar uma roupa com tamanha maestria as calças de linho com vinco do meu marido. Sr Rochinho foi trabalhador rural, lá em nossa fazenda. Muito trabalhador também. Caçador de onça. Gostava de uma pinga com raiz prá curar de uma tal dor na coluna que o deixava quase entrevado "que só"!
Dona Norma veio de lá para cá com o marido e seus seis filhos. Logo seu marido deu saudade da sua terra Natal, e em um dia sem avisar à família - "estava aqui muito avexado e foi se 'imbora', donde foi ninguém sabe... ninguém viu", deixando dona Norma chorosa; sempre que falava nele, chorava... reclamava... filharada pequena, labutava com a vida, trabalhando em várias casas de famílias para "dar conta de pôr o que comer dentro de casa". Saía cedo e só voltava a noite. Os filhos maiores cuidavam dos pequenos.
Depois de muitos anos sem saber por onde andava seu marido, ficara sabendo que o seu esposo, que tanto o amava, havia falecido. Chegou...me contando...chorosa... disse que ninguém ia despedir dele pela última vez, porque ninguém 'tinha dinheiro' (linguagem entre os dentes 'thinha dhinheiro'). Mas nunca quis arrumar outro casamento. "Casá prá que, só prá dá trabalho e bolir com meus filhos".
Depois de certo tempo, arrumou um emprego de merendeira, numa escola do município, trabalhou alguns anos, e aposentou- se, tinha problema sério cardíaco, mas não foi prá menos, com todos os sofrimentos, do dia a dia, dois filhos morreram de acidente de moto, deixando - a "partida em vários pedaços", como mesma dizia.
Há muito tempo não os vejo, a última notícia que tive notícias deles, Sr Rochinho esteve "perrengue", mas que estava melhor! "Véio", como ele diz, cada dia está com uma "macacoa". Agora, a dona Norma, infelizmente, Deus a levou.
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