sexta-feira, 26 de novembro de 2021

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

21-Cozinhar - um ato de amor

Cozinhar é um ato rotineiro. Que demanda tempo, boas escolhas, uma boa receita e, às vezes, certa prática, bem maior do que se possa imaginar.

E, ainda, não basta só pegar os ingredientes e começar.  É preciso um pouco de disposição, prazer, afeto... além de muito amor, um dos temperos fundamentais...que não podem faltar.

E se é para conquistar alguém, a resposta será recíproca, tanto para quem se alimenta quanto para quem faz.

Ah....um elogio, um agradecimento
Ou então...Comi demais! Que delícia!
Faz compensar todo aquele trabalho 
dedicado, principalmente...quando a gente sabe que vai agradar.

Dentre os pratos que o Milton mais gostava, estava o arroz carreteiro.
Se eu perguntasse o que desejaria comer ? Ele respondia: "o que é mais fácil!" 

Às vezes, me respondia brincando,
"pode ser um Caviar". "Que nunca viu, nunca comeu, só ouviu falar"... dessas ovas gosmentas, que só pela descrição, tenho certeza, que não iria agradar seu paladar.

Gostava também dos assados. Das massas e dos pescados. Carne teria que ser no ponto. Para ele bem macia e bem passada.

Preferia os pratos mais simples. Ovos fritos.... amava. Frango tinha que ser  frito e macio. Peixes? poderiam ser ao molho, fritos e assados. Carne bovina? gostava das carnes de panela bem cozidas, lombos cheios, picanha e cupim assados. Carne suína: preferia as de ossos: costelinha, suã, cozidas e fritas, além de lombo assado ao forno, linguiça frita e leitoa assada.

Gostava dos temperos...mas o tal cominho e ervas finas não apreciava. 

Folhas não comia, e dizia que o ser humano não foi feito para comê- Las, assim como os ruminantes. Que comem... comem...depois vão se ruminar. 

Gostava de sair fora para jantar, 
mas, no dia a dia, era dos meus
pratos que ele, modéstia a parte, gostava mais. E para quem não via como serviço, era um jeito tbém de amá- lo.

Gostava de todos os produtos lácteos, principalmente, das suas vacas gir porque por terem menos lactose, não lhe fazia mal; era doido por queijos e requeijões, e muitas vezes, me ajudou a fazer. 

Gostava de fartura - era uma festa para ele o dia que matava porco, vaca, frangos e fazia pamonha. E, sempre, me dizia que gostava das menores, preferia a de sal, com queijo e linguiça. No outro dia, gostava delas fritas. 

Não era muito de comer doces caseiros, os preferidos eram de abóbora com coco e os docinhos de festa, principalmente, aquele de leite ninho), bolos, rosquinhas, pães de queijo e biscoitos, comia um ou dois pedaços...mas gostava de ver prontos na mesa. Gostava de pão feito na chapa.

Sempre, procurei fazer os seus gostos. Porque sentia e via, nos seus olhos, o gosto por tudo que eu fazia. 

Um amante das frutas
Milton gostava muito de frutas.
Dizia: "Fui um menino criado no mato, que passava a frutas do cerrado - cajuzinho do campo, pitanga, croadinha, gabiroba e maminha cadela". Gostava também das frutas dos velhos quintais, principalmente, da manga coquinha, do abacaxi, da banana maçã, da laranja, de lima e de jabuticaba. 

Ele gostava, também, muito de melancia. E, por falar dessa fruta, lembrei- me de uma passagem, por incrível que pareça, até engraçada:  Certo dia, sabendo que os netos iam chegar, e que eles gostavam muito também de melancia, chegou em casa com uma bem grande. (Era muito raro trazer alguma coisa para casa. Dizia: "não sou um homem doméstico, não sei comprar nada". E tinha mesmo dificuldades para fazer compras).  

E, na escolha apressada, não percebeu que a melancia estava com um talo meio podre, e eu lhe disse: "Milton, essa melancia, parece, que está bem passada. Melhor seria, trocá- lá!" Ele olhou meio desconfiado... não gostava de fazer esse tipo de coisa, mas como era na esquina, quase em frente a nossa casa, pegou a melancia e saiu. 

Chegando lá para trocar, certamente, disse à senhora, que não me  conhecia e nem a ele, que eu havia lhe dito, que achava que aquela melancia não estava boa; e ela, com certeza, deve ter argumentado "que estava, e que todas estavam iguais...". 

Posso até imaginar a sua cara de nervoso; segundo a minha diarista, que passou por ele, no momento; ele respondeu para a mulher em um bom tom, já nervoso: "Dona, uma mulher enjoada eu aguento, agora, duas , não". Pegou outra melancia, e chegou pisando duro em casa. Rsrsrsrrsr. 

Mas, depois, passou a comprar a metade de uma melancia. Ficou amigo da família que vendia. Sempre, chegava em casa com uma, colocava na geladeira, depois que gelava, assentava na sua poltrona e ia ver TV, Pingos nos Is, Jovem Pan ou TV Senado, comendo melancia ou outra fruta. Gostava das frutas geladas. Abacaxi, jabuticaba, laranja, sempre, geladas. E, realmente, ficam mais saborosas. 

Gostava das uvas, e, sempre, quando pegava um cacho delas me dizia: "não consigo pegar um cacho de uvas para comer... e me oferecia algumas do cacho... ah, fui tão pobre, e era tão raro. Raríssimo. Hoje, posso comer, e não consigo..."
 






sexta-feira, 19 de novembro de 2021

6 - Casamento

Namoro no tempo das cartas

Acredito que há, com certeza, "n" possibilidades de lembranças de entes queridos guardadas pelas pessoas, de acordo com o gosto pessoal de cada um. Há quem não guarda nada, mas muitas, guardam, afinal, apegar-se a algo que foi importante, afetivamente, em nossa vida é natural do ser humano.

Eu herdei esse apego pelas coisas, acredito que da minha avó materna - lembro- me dela nos mostrar a sua primeira paganzinha, e fiquei admirada, na época, por guardar algo por tanto tempo, e, ainda, estar, praticamente, intacta. 

Do mesmo modo, acredito que os meus netos ficariam... se eu lhes mostrasse a imensa sacola de cartas que guardo por 47 anos. Tenho certeza que me diriam: "Nossa, vó, a senhora guarda tudo isso...tanto tempo... e estão perfeitinhas?!"

Eu e o Milton namoramos quase três anos por cartas! E guardo, ainda, até hoje, quase meio século depois, todas elas -  uma grande coleção de nossas tão românticas e bem elaboradas e dobradas cartas escritas, manualmente ou digitadas, nas antigas máquinas de escrever.
 
O papel já está bem amarelado pelo tempo, mas pode perfeitamente, remontar a nossa história, se lidas pelos nossos filhos e netos. Os únicos que poderiam ter certa curiosidade de nos conhecer melhor interiormente. 

Essa foi uma prática milenar dos enamorados, de  familiares e outros, que viviam a distância, por ser o único instrumento de trocar informações entre os mesmos; além de registro de fatos históricos e do cotidiano. İnspirando, inclusive, muitos escritores a escreverem sobre as cartas de amor, que chamavam atenção pela linguagem delicada e muitas vezes poética, com caligrafia impecável. E as nossas não são diferentes. 

E lendo algumas de nossas cartas, no amontoado de centenas delas, relembrei do meu eterno namorado, do seu jeito de ser, de seu romantismo, de suas preocupações, e fiquei pensando que, no tempo das cartas, os namorados, embora, distantes, pareciam estar mais conectados, porque poderiam através do papel extravasar seus sentimentos, suas expectativas, seus desejos e suas saudades e, muitas vezes, até o seu perfume. ( Às vezes, a gente jogava perfume, rsrsrsrrsr) Vantagem que o WhatsApp, Facebook e Instagram, ainda, não podem nos oferecer.

O tempo passa, as pessoas queridas  partem, mas as lembranças ficam eternizadas em nossa memória... Assim, aconteceu comigo. Hoje, tudo que o Milton fez e foi ficará registrado, através dos seus textos, de suas cartas, fotos, livros e objetos que ele gostava, instalados, na fazenda, como: seu engenho, seu carro de boi, tudo que ele valorizava, sua lembrança está. 

Para mim vale a pena guardar e conservar objetos que os entes queridos gostavam, desde que não geram desconforto pela falta de espaço e pelo dano do tempo. Ou espaço psicológico, segundo leituras, "uma vez que, para cada objeto que guardamos existe uma representação mental dele ocupando espaço na nossa mente". 
Não, não é este o meu caso de transtorno desse ou daquele, não é nada em excesso.  
 
Primeira serenata

A serenata, hoje, caiu em desuso, mas no final da década de setenta, quando eu e o Milton começamos a namorar, ele com 22 anos e eu com 18 anos, os jovens tinham o hábito de fazer serestas surpresas para as suas namoradas ou pretendentes, aos sábados, domingos e feriados, próximos a janela do quarto da homenageada depois que todos estivessem dormindo. 

Como as casas, geralmente, tinham alpendres, uma espécie de varanda do lado de fora, então, facilitava ficar ali na porta da casa por alguns minutos com alguns amigos. Livrando da chuva, do sereno da noite ou de algum pai ciumento. (Meu pai era muito sistemático, e saiu a porta, com seu jeito severo e inabilidoso, nos causando grande tristeza e vergonha.)

Quem não sabia cantar ou tocar um instrumento, escolhia duas ou três músicas, geralmente, mais românticas de Roberto Carlos, principalmente, e gravavam em alguma fita cassete, e punham para"rodar a fita". Agora, quando sabiam tocar e cantar,  encantavam mil vezes mais. O Milton tocava, cantava e me encantava.

 Milton morava em Goiânia, mas sempre, quando vinha a Jataí me ver, fazia serenata para mim. E eu escutando, ficava maravilhada, fazendo inclusive análises das músicas. Eu não entendia  nada de análise do discurso, mas já fazia muito bem análise das letras que ele cantava para mim.

E a primeira serenata, a gente nunca esquece, e essa tinha, como seleção, estas duas  lindas canções cantadas e tocadas por ele. Lembro- me bem. Milton tinha uma linda voz. Estávamos muito apaixonados  - amor a primeira vista!

Boa noite...

Diga ao menos boa noite
Abra ao menos a janela
Pois eu cantei foi pra você

He...he...heê...he..he... heê

Boa Noite..

Durma, durma bem com os anjinhos
Para acordar amanhã cedinho
Eu cantei só prá vc!! 

He...he...heê...he..he... heê

Boa noite..

Diga ao menos boa noite...

Composição: Desconhecido e revisão: Bernardo Bicca

A segunda música foi esta, intitulada:

Será que eu pus um grilo na sua cebeça de Guilherme Lamounier.

Galo canta é de manhã
Nuvens espalhadas feitas algodão
e a terra cheira como bala de hortelã

Abro meu coração
Solto meus cabelos livres no ar
e não quero mais saber

Quero é dividir o meu amor com você

Olhe dentro dessa manhã
Olhe a natureza solta no chão
Veja aquele esquilo entre nozes e avelãs.

Namoramos três anos por cartas, ele morava em Goiânia, porque já fazia faculdade lá, e nos finais de semana e feriados, ele vinha me visitar em Jataí.

(Foto do envelope e de uma carta) 

Logo depois, pediu-me em casamento pessoalmente. Casamos, e mudamos para Goiânia. 

( Fotos do nosso casamento) 
Casamos dia 22 de julho de 1977, em Jataí, na igreja São Sebastião; numa cerimônia religiosa com efeito civil, celebrada pelo bispo... Thomás, apenas com a participação dos nossos familiares e amigos.

Antigamente, não era permitida a decoração da igreja, só o tapete e uns dois arranjos no altar. Mas...lembro- me que arrumamos um fotógrafo e um casal de músicos para abrilhantar aquele inesquecível momento, com canções especiais, transmitindo toda a nossa emoção e todo o nosso amor ao som do piano.

Terminei o segundo grau em Goiânia.  Depois de quatro meses, engravidei do nosso primogênito. Virgílio nasceu. E o Milton resolveu trabalhar por conta própria. Aí começávamos a viver a realidade, propriamente, dita. 

( Uma foto do Virgilio comigo )

Conflito entre o real e o ideal
 
Existe um conflito de pensamentos em minha cabeça. O real e o irreal disputam lugares em minha mente. Penso nas verdades dos outros e nas minhas verdades. Mas o que é a minha verdade?

Deixo o pensamento vagar até o infinito de minha imaginação, sinto distante do meu corpo, desta pequena forma humana que são: ossos, músculos, veias, cérebro, coração e sangue...

Mantido por H/2/O, O e uma alimentação envenenada. Fico pensando naquilo que me cerca, revolto com as coisas tão cotidianas e tão ridículas que me obrigam a fazer. 

Por isto, para conciliar as duas coisas, deixo o meu corpo assentado, trabalhando sobre à mesa do escritório, e o meu pensamento caminha por outros mundos, até chegar o momento de reuni-los e ir embora para casa. 
.................................................................
Para algumas pessoas há sempre um conflito entre o real e o ideal. Isto é, vivem o conflito entre a sua expectativa e a  sua realidade. 

Mas o que é mesmo o real e o que é mesmo o ideal? Será que o real e o ideal podem caminhar juntos? Sabemos que o ideal existe no plano das ideias, enquanto conceito, aprovado por aqueles que já viveram mais tempo ou já experimentaram tal coisa, ou não por aqueles que, ainda, sonham com as realizações, mas, ainda, vivem no terreno da emoção. 

Por exemplo, quando estamos lutando para passar em um concurso, em um Enem ou namorando, preparando para se casar ou na fase da geração de um filho, da formação de uma família, costumamos enxergar mais só o que vai nos trazer prazer, não enxergamos os plantões do trabalho, não enxergamos as barreiras que há entre conviver com uma pessoa do seu lado que não foi criada como você, além das possibilidades de não se adaptar e de não dar certo. E, como disse Guimarães Rosa, o real não está na saída e nem na chegada, ele se dispõe prá gente é no meio da travessia. 

Então, se o ideal, enquanto ideia, enquanto conceito, é algo descolado da matéria, fica mais a flutuar, no plano das emoções, como o Milton disse: "ele deixava o seu corpo assentado, trabalhando e ia vagar por outros mundos; talvez, o mundo ideal, da imaginação...  


De ser, no futuro, um profissional respeitado, independente, que pudesse viver com mais dignidade, mais qualidade de vida, ter a sua casa própria, ter o que sonhava desde bem jovem, etc. Assim, como disse Rubem Alves, esperamos “pela alegria que não mora no futuro, mas no agora”. 

E quando essa alegria tem que ser conquistada com os seus próprios ideais e trabalho, como o Milton sonhava, a ansiedade é maior.

E todos os dias vivemos esses dois mundos - o real e o ideal. E a matéria é o mundo real, ou seja a vida como ela é, sem maquiagem, sem rodeios, sem fantasias. Diferente do ideal.
Mas, segundo Domenico De Masi, sociólogo italiano, "a racionalidade não deve prevalecer sobre o emocional e o emocional não deve prevalecer sobre a razão.”  Devem ter um certo equilíbrio e a importância da percepção de ambos sentimentos.

Inconstância

Para onde foi a minha vida?
Deixei- a guardada numa mala,
e corri atrás da sobrevivência.

Procurei dinheiro, paz, prazer, amor, em fim procurei a máquina de fazer felicidade.

Quando em fim já cansado
Lembrei da minha vida...
Corri para apanhá- lá...
Não mais a encontrei.

Agora, não sei mais o que procurar
Talvez parando de procurar
Encontro o que não consegui
encontrar durante todo esse tempo.
                             

Nessa data, eu e o Milton começávamos a viver o plano, propriamente, dito da realidade. Um ano e pouco de casados, o nosso primeiro filho com dois meses de idade; ainda, fazia Faculdade, tinha deixado de trabalhar de empregado e foi trabalhar por conta própria - abriu o seu próprio escritório de Contabilidade... Nossas despesas não eram pequenas, tinha gastos com funcionários domésticos, do escritório, e outros, e não tinhamos uma renda fixa.  Então, ele, principalmente, viveu momentos de profunda ansiedade e insegurança. Reconheço que não foi fácil. 

É difícil entender o ser humano ( Nilva)

Se vivo desse jeito ou daquele
Estou desapropriado  ou errado
Se choro - para que chorar
Se corro, para que correr
Se não corro, assim não dá.

Se ganho dinheiro, tenho sorte 
Se não ganho, tenho azar
Se só penso em riqueza, 
"Prá que? Vai morrer
Nada vai levar".

Se esbanjo, não pensa
No dia de amanhã. 
Eu ou você vai ter que decidir?
Se gasto  dinheiro ou se vou guardar?

Se não tenho casa, precisa comprar. "Se compro prá que?
Gasta um dinheirão!" 
Melhor  alugar. 

Se alimento fora, melhor não.  Se não- nossa, muito melhor! Fazer comida só dá trabalho!

Se ando de coletivo, melhor de carro. Se saio de carro, melhor de ônibus. Se saio, ah, não pode sair
Se não saio. Só fica em casa!

Se tenho o cabelo comprido, por que
você não corta? Se eu corto, por que você cortou!? Sempre, vai ter alguém para nos julgar.

Rsrsrsrrsr... Vixe 😞!
Só sabem complicar
Faço bem é não escutar...


Bodas de Carbonato

(Foto de nosso casamento)

Eh!! O tempo passou... e passamos juntos com ele. Já estávamos prestes a comemorar as Bodas de Carbonato,   "elemento composto por pequenos cristais, que nos remete a vida a dois... que precisa lidar com os obstáculos e com a solidez que o tempo ao casamento traz".  (Pesquisa Google)

Casamos tão jovens... eu com 21 anos e o Milton com 25. Tão apaixonados... tão ciumentos um do outro... tão esperançosos... tão aventureiros e tão inseguros...  ao mesmo tempo; e como dizia o Milton: " aínda, sem eira e nem beira"... precisou de ir a luta, incansavelmente, e com muita economia, para "dar conta do recado", dos compromissos e objetivos que jurou para si mesmo que seria capaz de cumprir e conquistar. 

Mas...não imaginaríamos nunca os desafios que teríamos que enfrentar...e nem o quê o futuro nos reservava de bom e nem de ruim. Ninguém pode mesmo prever... e nessa idade, então, só tínhamos sonhos e belas expectativas. Éramos marinheiros da primeira viagem... que não tinhamos a bússola e nem o roteiro... só muita
vontade de prosseguir. "Encarando o mar  com a cara e a coragem."

E, apesar das adversidades e contratempos, que a imaturidade nos prega, conseguimos resistir e sobreviver muito bem quarenta e quatro anos juntos, graças a Deus!!  Uma vez que,  a vida não é 100% perfeita para ninguém. Como disse Rodrigo de Abreu: "casal perfeito não é aquele que nunca tem problemas, mas sim aquele que, apesar dos obstáculos, sempre permaneceram juntos".

E foi uma vida juntos! E só o amor, a  admiração, a compreensão e o gostar da companhia do outro - de ambas as partes - tem esse poder de nos unir por tanto tempo. O Milton dizia: "Quase meio século juntos"! Fase que estávamos compartilhando de um sentimento bem menos apaixonado do que no namoro e início de vida a dois. Mas bem mais sincero, mais fortalecido, mais companheiro e mais verdadeiro.

Milton, sempre, foi um marido e um pai cuidadoso e zeloso. Nunca nos deixou faltar nada. Era muito trabalhador e dedicado,  buscava, sempre, melhorias para a nossa vida financeira, para nos dar uma vida mais confortável, mais digna e segura, na velhice, para nós e para o futuro dos nossos filhos. Nunca me escravizou no trabalho - sempre, tive uma pessoa que me ajudasse em casa.

Nunca foi egoísta, nunca tolheu a minha liberdade; sempre me deu o direito de trabalhar, de especializar na minha carreira, de conquistar o meu próprio espaço também, como profissional e como mulher, e ter a minha independência.

Fui, de certa forma, protagonista da minha própria vida, embora, ele tenha sido o meu maior suporte. Sem ele em minha vida, meu caminho, com certeza, teria sido outro, totalmente, diferente. 

Minha vida não teria sentido sem ele.
Um pouco de tudo que sou, de tudo que sei, de tudo que conquistei, de tudo que aprendi - de literatura, de música, de poesia, de cultura e de política , aprendi com ele. Foi sempre muito compreensivo, no sentido de me incentivar e de nunca problematizar as minhas faltas em casa, devido o meu trabalho ou os meus estudos.  

E por isso, esse tempo representa para nós uma verdadeira e grande conquista. E precisaríamos de agradecer muito a Deus, e comemorar, se aqui o Milton, ainda, estivesse. Como diz a escritora Ana Sparz: "Aniversário é época de agradecer e comemorar, pois a experiência de viver é o maior presente que Deus podia nos dar." 

Se houve uma regra, para termos vivido todo esse tempo juntos - uma das principais foi: evitar as discussões e caso houver, não devem, necessariamente, terminar tendo um vencedor. A gente perde quando pensa que venceu uma discussão. Melhor será evitar discutir, e seguir a velha regra dos mais velhos: "de que quando um não quer, dois não brigam". Não esquecendo, também, o que disse, certa vez, o escritor Ferreira Gullar, " eu prefiro ser feliz a ter razão".

E... foi agindo, assim... ajudando e fortalecendo um ao outro, nos dias mais difíceis, cada um respeitando a individualidade do outro também... com muita paciência...muita sabedoria, um pouco de bom humor, muita educação e muita resiliência, principalmente, quando os obstáculos apareceram... "pensando que podiam mais do que um compromisso sério e uma preparação idealizada para o casamento", "até que a morte nos separasse"; exigindo de nós que deixássemos que a razão falasse mais alto do que a emoção. 

Enfim, dois filhos criados, dois netos...e um amor sincero, fortalecido e verdadeiro foi vencedor, até o dia que Deus o levou. 


Capítulo Filhos e netos

(Fotos dos filhos e netos)

 Depois, irei encaixar um texto referente o Virgílio, mas que está em Caiapônia

Nascimento de minha filha

Recebi, hoje, a notícia do nascimento da minha filha. Fiquei emocionado e feliz. Viajarei para Jataí, com o único objetivo de conhecê- la pela primeira vez.
Correu tudo bem, minha esposa teve um parto tranquilo, e está passando bem.
A minha filha é morena e de cabelos negros, o oposto de meu filho que é loiro. É bonita e será uma linda mulher, assim, como a mãe. 
Agora, mais do que nunca, é preciso educá- Los e ensiná-los a viver.
(Cpa, 22/06/1980).

Foto da Nalygia



sábado, 6 de novembro de 2021

26 -A vida é um sopro

Sempre, quando morre um ente querido, ouvimos de alguém ou lemos nos  stories de muitas pessoas a frase que “a vida é um sopro”, seguida desta preciosa lição, considerada por todos, principalmente de imediato, como o ideal sentido da vida - "Viver e amar no presente”.

E, embora, seja urgente, sempre, é deixado para depois, devido ao apego ao celular, rotina cansativa, do dia a dia, tanto no trabalho quanto nos estudos, que nos amarra muito, nos deixando presos, sem podermos fazer bem até o essencial, que é cada um poder viver melhor para si mesmo, com os nossos familiares, com os nossos amigos e companheiros de jornada de trabalho. As vezes, o estresse é tanto que nos consome, enraivecendo por pouca coisa. 

Na verdade, muitos de nós, não fomos preparados para viver, apenas, momentos felizes. Nos fizeram acreditar que para sermos felizes, a felicidade deveria ser constante, ou seja, a vida toda; e não é, a vida nos permite ter, apenas, momentos felizes. 

E esses momentos são "Instantes",  que a escritora americana, Nadine Stair, com 85 anos, vem nos falar, inclusive, com sentimentos de arrependimento, por não ter aproveitado a vida como gostaria, e vem nos dar uma grande lição, enquanto é tempo;  segundo padre Manzotti, no seu programa "Poetizar".Uma vez que, "Vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes.” João Guimarães Rosa (1908-1967)

Vejamos que beleza de poema.

INSTANTES

Se eu pudesse viver novamente minha vida, na próxima,
trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão
perfeito, relaxaria mais, Seria mais tolo ainda do que
tenho sido, Na

Verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico, correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas,
nadaria mais rios. Iria a lugares onde nunca fui, tomaria
mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e
menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e
produtivamente cada minuto da vida: claro que tive momentos
de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter
somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feita
a vida, só de momentos; não perca o agora. Eu era um desses
que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de
água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse
a viver viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no
começo da primavera e continuaria assim até o fim do
outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais
amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra
vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que
estou morrendo.

(Poema de Nadine Stair atribuído a Jorge Luís Borges)


Sempre, questionei sobre o sentido e o fim da vida. Por que isso aconteceu com essa pessoa e não com outra? Por que agora? Foi uma fatalidade? Ou chegou a sua hora? De repente, sem nenhuma explicação, sem nenhum sentido, a pessoa passa dessa vida para outra.  Era o seu destino?

Muitas pessoas acreditam que o 
destino já venha traçado, pronto, ou seja, demarcado. Muito triste pensar dessa forma, não é? Acredito que há uma força sobrenatural que atua sobre nós seres humanos, e a que podemos contar é com a força de vontade, que Deus nos dá todos os dias para começar e recomeçar. Destino, não! 

É claro que contar com um pouco de "sorte" é muito interessante, para podermos viver melhor, fazer as escolhas acertadas e mais saudáveis, atrair mais oportunidades de momentos mais felizes, de acordo com os sonhos ou jeito de cada um. 

Uma vez que, somos nós que vamos construindo o nosso mundo; entre erros e acertos, a nossa trajetória vai sendo registrada, vamos assim dizer; mas que, muitas vezes, vamos vivendo, involuntariamente, típico do significado que o dicionário nos traz, "sem saber o porque... um pouco inconsciente, sem muita reflexão... tipo - deixa a vida me levar". Mas que Joseph Campbell vem reforçar esse pensamento, dizendo que, "a vida é desprovida de sentido, nós que lhe damos ou atribuímos o sentido. E que estar vivo é o sentido.”

E, embora, muitas pessoas, ainda, não consigam enxergar o sentido da vida vivendo...depois que perdi o meu saudoso marido, essa questão ficou muito clara para mim, não importa quantos projetos realizamos e qual era o meu, o seu, o nosso propósito, não temos muito controle de nada; e tudo na vida pode mudar, como as nuvens no céu; já percebeu o quanto as nuvens mudam num piscar de olhos, e apesar de sermos conscientes disso... não podemos parar... quase ninguém pode...

A vida continua...  com trabalho, com tanta coisa que as convenções humanas, com suas crenças limitantes vão exigindo de nós, e vão nos agregando, de certa forma, como se fosse lei,  e vamos agindo mecanicamente, como se fôssemos viver para sempre... e a vida vai passando... e nós vamos acomodando...e esquecendo de dar um melhor sentido às nossas vidas.

E aí... por falta de tempo, de repente, não importamos de deixar mensagens de bom dia no grupo da família. A família também não preocupa...

Por falta de tempo não cumprimos o ritual de beleza, não passamos um creme e nem o filtro solar, não tomamos o café da manhã direito, não cumprimentamos o vizinho de porta ou o que passava pelo portão, ou saia do elevador. 

Por falta de tempo não ligamos mais para os pais, para os irmãos e para os amigos. Eles também, não! 

Por falta de tempo não cumprimentamos o colega de trabalho pelo aniversário, não o elogiamos, não o parabenizamos pela sua conquista.

Por falta de tempo, não temos olhos para os ipês, para as sibipirunas e os flamboyants floridos da rua que passamos por ela todos os dias.

Por falta de tempo não consertamos aquela roupa que compramos para ir naquele evento com a família!  

Por falta de tempo não regamos nossas plantas e não batemos na porta daquela vizinha nova. Ela também não teve tempo. Ninguém tem mais tempo. Tempo ou interesse?  

Por falta de tempo não vamos mais à igreja. Não temos tempo para Deus! Não temos tempo para a família. Não temos tempo para contemplar a natureza. Não temos tempo para o outro e, principalmente, para nós mesmos (as).
Por falta de tempo esquecemos de 'viver'. De fazer o que vale mais a pena "viver para si".
Tudo por falta de tempo? 
Ainda dá tempo! ? Só o futuro dirá.
Não esqueça que só temos uma vida para viver .

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Meus oito anos – Poema de Casimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
…………………………..
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

Poetizando a rotina