Namoro no tempo das cartas
Acredito que há, com certeza, "n" possibilidades de
lembranças de entes queridos guardadas pelas pessoas, de acordo com o gosto pessoal de cada um. Há quem não guarda nada, mas muitas, guardam, afinal, apegar-se a algo que foi importante, afetivamente, em nossa vida é natural do ser humano.
Eu herdei esse apego pelas coisas, acredito que da minha avó materna - lembro- me dela nos mostrar a sua primeira paganzinha, e fiquei admirada, na época, por guardar algo por tanto tempo, e, ainda, estar, praticamente, intacta.
Do mesmo modo, acredito que os meus netos ficariam... se eu lhes mostrasse a imensa sacola de cartas que guardo por 47 anos. Tenho certeza que me diriam: "Nossa, vó, a senhora guarda tudo isso...tanto tempo... e estão perfeitinhas?!"
Eu e o Milton namoramos quase três anos por cartas! E guardo, ainda, até hoje, quase meio século depois, todas elas - uma grande coleção de nossas tão românticas e bem elaboradas e dobradas cartas escritas, manualmente ou digitadas, nas antigas máquinas de escrever.
O papel já está bem amarelado pelo tempo, mas pode perfeitamente, remontar a nossa história, se lidas pelos nossos filhos e netos. Os únicos que poderiam ter certa curiosidade de nos conhecer melhor interiormente.
Essa foi uma prática milenar dos enamorados, de familiares e outros, que viviam a distância, por ser o único instrumento de trocar informações entre os mesmos; além de registro de fatos históricos e do cotidiano. İnspirando, inclusive, muitos escritores a escreverem sobre as cartas de amor, que chamavam atenção pela linguagem delicada e muitas vezes poética, com caligrafia impecável. E as nossas não são diferentes.
E lendo algumas de nossas cartas, no amontoado de centenas delas, relembrei do meu eterno namorado, do seu jeito de ser, de seu romantismo, de suas preocupações, e fiquei pensando que, no tempo das cartas, os namorados, embora, distantes, pareciam estar mais conectados, porque poderiam através do papel extravasar seus sentimentos, suas expectativas, seus desejos e suas saudades e, muitas vezes, até o seu perfume. ( Às vezes, a gente jogava perfume, rsrsrsrrsr) Vantagem que o WhatsApp, Facebook e Instagram, ainda, não podem nos oferecer.
O tempo passa, as pessoas queridas partem, mas as lembranças ficam eternizadas em nossa memória... Assim, aconteceu comigo. Hoje, tudo que o Milton fez e foi ficará registrado, através dos seus textos, de suas cartas, fotos, livros e objetos que ele gostava, instalados, na fazenda, como: seu engenho, seu carro de boi, tudo que ele valorizava, sua lembrança está.
Para mim vale a pena guardar e conservar objetos que os entes queridos gostavam, desde que não geram desconforto pela falta de espaço e pelo dano do tempo. Ou espaço psicológico, segundo leituras, "uma vez que, para cada objeto que guardamos existe uma representação mental dele ocupando espaço na nossa mente".
Não, não é este o meu caso de transtorno desse ou daquele, não é nada em excesso.
Primeira serenata
A serenata, hoje, caiu em desuso, mas no final da década de setenta, quando eu e o Milton começamos a namorar, ele com 22 anos e eu com 18 anos, os jovens tinham o hábito de fazer serestas surpresas para as suas namoradas ou pretendentes, aos sábados, domingos e feriados, próximos a janela do quarto da homenageada depois que todos estivessem dormindo.
Como as casas, geralmente, tinham alpendres, uma espécie de varanda do lado de fora, então, facilitava ficar ali na porta da casa por alguns minutos com alguns amigos. Livrando da chuva, do sereno da noite ou de algum pai ciumento. (Meu pai era muito sistemático, e saiu a porta, com seu jeito severo e inabilidoso, nos causando grande tristeza e vergonha.)
Quem não sabia cantar ou tocar um instrumento, escolhia duas ou três músicas, geralmente, mais românticas de Roberto Carlos, principalmente, e gravavam em alguma fita cassete, e punham para"rodar a fita". Agora, quando sabiam tocar e cantar, encantavam mil vezes mais. O Milton tocava, cantava e me encantava.
Milton morava em Goiânia, mas sempre, quando vinha a Jataí me ver, fazia serenata para mim. E eu escutando, ficava maravilhada, fazendo inclusive análises das músicas. Eu não entendia nada de análise do discurso, mas já fazia muito bem análise das letras que ele cantava para mim.
E a primeira serenata, a gente nunca esquece, e essa tinha, como seleção, estas duas lindas canções cantadas e tocadas por ele. Lembro- me bem. Milton tinha uma linda voz. Estávamos muito apaixonados - amor a primeira vista!
Boa noite...
Diga ao menos boa noite
Abra ao menos a janela
Pois eu cantei foi pra você
He...he...heê...he..he... heê
Boa Noite..
Durma, durma bem com os anjinhos
Para acordar amanhã cedinho
Eu cantei só prá vc!!
He...he...heê...he..he... heê
Boa noite..
Diga ao menos boa noite...
Composição: Desconhecido e revisão: Bernardo Bicca
A segunda música foi esta, intitulada:
Será que eu pus um grilo na sua cebeça de Guilherme Lamounier.
Galo canta é de manhã
Nuvens espalhadas feitas algodão
e a terra cheira como bala de hortelã
Abro meu coração
Solto meus cabelos livres no ar
e não quero mais saber
Quero é dividir o meu amor com você
Olhe dentro dessa manhã
Olhe a natureza solta no chão
Veja aquele esquilo entre nozes e avelãs.
Namoramos três anos por cartas, ele morava em Goiânia, porque já fazia faculdade lá, e nos finais de semana e feriados, ele vinha me visitar em Jataí.
(Foto do envelope e de uma carta)
Logo depois, pediu-me em casamento pessoalmente. Casamos, e mudamos para Goiânia.
( Fotos do nosso casamento)
Casamos dia 22 de julho de 1977, em Jataí, na igreja São Sebastião; numa cerimônia religiosa com efeito civil, celebrada pelo bispo... Thomás, apenas com a participação dos nossos familiares e amigos.
Antigamente, não era permitida a decoração da igreja, só o tapete e uns dois arranjos no altar. Mas...lembro- me que arrumamos um fotógrafo e um casal de músicos para abrilhantar aquele inesquecível momento, com canções especiais, transmitindo toda a nossa emoção e todo o nosso amor ao som do piano.
Terminei o segundo grau em Goiânia. Depois de quatro meses, engravidei do nosso primogênito. Virgílio nasceu. E o Milton resolveu trabalhar por conta própria. Aí começávamos a viver a realidade, propriamente, dita.
( Uma foto do Virgilio comigo )
Conflito entre o real e o ideal
Existe um conflito de pensamentos em minha cabeça. O real e o irreal disputam lugares em minha mente. Penso nas verdades dos outros e nas minhas verdades. Mas o que é a minha verdade?
Deixo o pensamento vagar até o infinito de minha imaginação, sinto distante do meu corpo, desta pequena forma humana que são: ossos, músculos, veias, cérebro, coração e sangue...
Mantido por H/2/O, O e uma alimentação envenenada. Fico pensando naquilo que me cerca, revolto com as coisas tão cotidianas e tão ridículas que me obrigam a fazer.
Por isto, para conciliar as duas coisas, deixo o meu corpo assentado, trabalhando sobre à mesa do escritório, e o meu pensamento caminha por outros mundos, até chegar o momento de reuni-los e ir embora para casa.
.................................................................
Para algumas pessoas há sempre um conflito entre o real e o ideal. Isto é, vivem o conflito entre a sua expectativa e a sua realidade.
Mas o que é mesmo o real e o que é mesmo o ideal? Será que o real e o ideal podem caminhar juntos? Sabemos que o ideal existe no plano das ideias, enquanto conceito, aprovado por aqueles que já viveram mais tempo ou já experimentaram tal coisa, ou não por aqueles que, ainda, sonham com as realizações, mas, ainda, vivem no terreno da emoção.
Por exemplo, quando estamos lutando para passar em um concurso, em um Enem ou namorando, preparando para se casar ou na fase da geração de um filho, da formação de uma família, costumamos enxergar mais só o que vai nos trazer prazer, não enxergamos os plantões do trabalho, não enxergamos as barreiras que há entre conviver com uma pessoa do seu lado que não foi criada como você, além das possibilidades de não se adaptar e de não dar certo. E, como disse Guimarães Rosa, o real não está na saída e nem na chegada, ele se dispõe prá gente é no meio da travessia.
Então, se o ideal, enquanto ideia, enquanto conceito, é algo descolado da matéria, fica mais a flutuar, no plano das emoções, como o Milton disse: "ele deixava o seu corpo assentado, trabalhando e ia vagar por outros mundos; talvez, o mundo ideal, da imaginação...
De ser, no futuro, um profissional respeitado, independente, que pudesse viver com mais dignidade, mais qualidade de vida, ter a sua casa própria, ter o que sonhava desde bem jovem, etc. Assim, como disse Rubem Alves, esperamos “pela alegria que não mora no futuro, mas no agora”.
E quando essa alegria tem que ser conquistada com os seus próprios ideais e trabalho, como o Milton sonhava, a ansiedade é maior.
E todos os dias vivemos esses dois mundos - o real e o ideal. E a matéria é o mundo real, ou seja a vida como ela é, sem maquiagem, sem rodeios, sem fantasias. Diferente do ideal.
Mas, segundo Domenico De Masi, sociólogo italiano, "a racionalidade não deve prevalecer sobre o emocional e o emocional não deve prevalecer sobre a razão.” Devem ter um certo equilíbrio e a importância da percepção de ambos sentimentos.
Inconstância
Para onde foi a minha vida?
Deixei- a guardada numa mala,
e corri atrás da sobrevivência.
Procurei dinheiro, paz, prazer, amor, em fim procurei a máquina de fazer felicidade.
Quando em fim já cansado
Lembrei da minha vida...
Corri para apanhá- lá...
Não mais a encontrei.
Agora, não sei mais o que procurar
Talvez parando de procurar
Encontro o que não consegui
encontrar durante todo esse tempo.
Nessa data, eu e o Milton começávamos a viver o plano, propriamente, dito da realidade. Um ano e pouco de casados, o nosso primeiro filho com dois meses de idade; ainda, fazia Faculdade, tinha deixado de trabalhar de empregado e foi trabalhar por conta própria - abriu o seu próprio escritório de Contabilidade... Nossas despesas não eram pequenas, tinha gastos com funcionários domésticos, do escritório, e outros, e não tinhamos uma renda fixa. Então, ele, principalmente, viveu momentos de profunda ansiedade e insegurança. Reconheço que não foi fácil.
É difícil entender o ser humano ( Nilva)
Se vivo desse jeito ou daquele
Estou desapropriado ou errado
Se choro - para que chorar
Se corro, para que correr
Se não corro, assim não dá.
Se ganho dinheiro, tenho sorte
Se não ganho, tenho azar
Se só penso em riqueza,
"Prá que? Vai morrer
Nada vai levar".
Se esbanjo, não pensa
No dia de amanhã.
Eu ou você vai ter que decidir?
Se gasto dinheiro ou se vou guardar?
Se não tenho casa, precisa comprar. "Se compro prá que?
Gasta um dinheirão!"
Melhor alugar.
Se alimento fora, melhor não. Se não- nossa, muito melhor! Fazer comida só dá trabalho!
Se ando de coletivo, melhor de carro. Se saio de carro, melhor de ônibus. Se saio, ah, não pode sair
Se não saio. Só fica em casa!
Se tenho o cabelo comprido, por que
você não corta? Se eu corto, por que você cortou!? Sempre, vai ter alguém para nos julgar.
Rsrsrsrrsr... Vixe 😞!
Só sabem complicar
Faço bem é não escutar...
Bodas de Carbonato
(Foto de nosso casamento)
Eh!! O tempo passou... e passamos juntos com ele. Já estávamos prestes a comemorar as Bodas de Carbonato, "elemento composto por pequenos cristais, que nos remete a vida a dois... que precisa lidar com os obstáculos e com a solidez que o tempo ao casamento traz". (Pesquisa Google)
Casamos tão jovens... eu com 21 anos e o Milton com 25. Tão apaixonados... tão ciumentos um do outro... tão esperançosos... tão aventureiros e tão inseguros... ao mesmo tempo; e como dizia o Milton: " aínda, sem eira e nem beira"... precisou de ir a luta, incansavelmente, e com muita economia, para "dar conta do recado", dos compromissos e objetivos que jurou para si mesmo que seria capaz de cumprir e conquistar.
Mas...não imaginaríamos nunca os desafios que teríamos que enfrentar...e nem o quê o futuro nos reservava de bom e nem de ruim. Ninguém pode mesmo prever... e nessa idade, então, só tínhamos sonhos e belas expectativas. Éramos marinheiros da primeira viagem... que não tinhamos a bússola e nem o roteiro... só muita
vontade de prosseguir. "Encarando o mar com a cara e a coragem."
E, apesar das adversidades e contratempos, que a imaturidade nos prega, conseguimos resistir e sobreviver muito bem quarenta e quatro anos juntos, graças a Deus!! Uma vez que, a vida não é 100% perfeita para ninguém. Como disse Rodrigo de Abreu: "casal perfeito não é aquele que nunca tem problemas, mas sim aquele que, apesar dos obstáculos, sempre permaneceram juntos".
E foi uma vida juntos! E só o amor, a admiração, a compreensão e o gostar da companhia do outro - de ambas as partes - tem esse poder de nos unir por tanto tempo. O Milton dizia: "Quase meio século juntos"! Fase que estávamos compartilhando de um sentimento bem menos apaixonado do que no namoro e início de vida a dois. Mas bem mais sincero, mais fortalecido, mais companheiro e mais verdadeiro.
Milton, sempre, foi um marido e um pai cuidadoso e zeloso. Nunca nos deixou faltar nada. Era muito trabalhador e dedicado, buscava, sempre, melhorias para a nossa vida financeira, para nos dar uma vida mais confortável, mais digna e segura, na velhice, para nós e para o futuro dos nossos filhos. Nunca me escravizou no trabalho - sempre, tive uma pessoa que me ajudasse em casa.
Nunca foi egoísta, nunca tolheu a minha liberdade; sempre me deu o direito de trabalhar, de especializar na minha carreira, de conquistar o meu próprio espaço também, como profissional e como mulher, e ter a minha independência.
Fui, de certa forma, protagonista da minha própria vida, embora, ele tenha sido o meu maior suporte. Sem ele em minha vida, meu caminho, com certeza, teria sido outro, totalmente, diferente.
Minha vida não teria sentido sem ele.
Um pouco de tudo que sou, de tudo que sei, de tudo que conquistei, de tudo que aprendi - de literatura, de música, de poesia, de cultura e de política , aprendi com ele. Foi sempre muito compreensivo, no sentido de me incentivar e de nunca problematizar as minhas faltas em casa, devido o meu trabalho ou os meus estudos.
E por isso, esse tempo representa para nós uma verdadeira e grande conquista. E precisaríamos de agradecer muito a Deus, e comemorar, se aqui o Milton, ainda, estivesse. Como diz a escritora Ana Sparz: "Aniversário é época de agradecer e comemorar, pois a experiência de viver é o maior presente que Deus podia nos dar."
Se houve uma regra, para termos vivido todo esse tempo juntos - uma das principais foi: evitar as discussões e caso houver, não devem, necessariamente, terminar tendo um vencedor. A gente perde quando pensa que venceu uma discussão. Melhor será evitar discutir, e seguir a velha regra dos mais velhos: "de que quando um não quer, dois não brigam". Não esquecendo, também, o que disse, certa vez, o escritor Ferreira Gullar, " eu prefiro ser feliz a ter razão".
E... foi agindo, assim... ajudando e fortalecendo um ao outro, nos dias mais difíceis, cada um respeitando a individualidade do outro também... com muita paciência...muita sabedoria, um pouco de bom humor, muita educação e muita resiliência, principalmente, quando os obstáculos apareceram... "pensando que podiam mais do que um compromisso sério e uma preparação idealizada para o casamento", "até que a morte nos separasse"; exigindo de nós que deixássemos que a razão falasse mais alto do que a emoção.
Enfim, dois filhos criados, dois netos...e um amor sincero, fortalecido e verdadeiro foi vencedor, até o dia que Deus o levou.
Capítulo Filhos e netos
(Fotos dos filhos e netos)
Depois, irei encaixar um texto referente o Virgílio, mas que está em Caiapônia
Nascimento de minha filha
Recebi, hoje, a notícia do nascimento da minha filha. Fiquei emocionado e feliz. Viajarei para Jataí, com o único objetivo de conhecê- la pela primeira vez.
Correu tudo bem, minha esposa teve um parto tranquilo, e está passando bem.
A minha filha é morena e de cabelos negros, o oposto de meu filho que é loiro. É bonita e será uma linda mulher, assim, como a mãe.
Agora, mais do que nunca, é preciso educá- Los e ensiná-los a viver.
(Cpa, 22/06/1980).
Foto da Nalygia