quarta-feira, 24 de novembro de 2021

21-Cozinhar - um ato de amor

Cozinhar é um ato rotineiro. Que demanda tempo, boas escolhas, uma boa receita e, às vezes, certa prática, bem maior do que se possa imaginar.

E, ainda, não basta só pegar os ingredientes e começar.  É preciso um pouco de disposição, prazer, afeto... além de muito amor, um dos temperos fundamentais...que não podem faltar.

E se é para conquistar alguém, a resposta será recíproca, tanto para quem se alimenta quanto para quem faz.

Ah....um elogio, um agradecimento
Ou então...Comi demais! Que delícia!
Faz compensar todo aquele trabalho 
dedicado, principalmente...quando a gente sabe que vai agradar.

Dentre os pratos que o Milton mais gostava, estava o arroz carreteiro.
Se eu perguntasse o que desejaria comer ? Ele respondia: "o que é mais fácil!" 

Às vezes, me respondia brincando,
"pode ser um Caviar". "Que nunca viu, nunca comeu, só ouviu falar"... dessas ovas gosmentas, que só pela descrição, tenho certeza, que não iria agradar seu paladar.

Gostava também dos assados. Das massas e dos pescados. Carne teria que ser no ponto. Para ele bem macia e bem passada.

Preferia os pratos mais simples. Ovos fritos.... amava. Frango tinha que ser  frito e macio. Peixes? poderiam ser ao molho, fritos e assados. Carne bovina? gostava das carnes de panela bem cozidas, lombos cheios, picanha e cupim assados. Carne suína: preferia as de ossos: costelinha, suã, cozidas e fritas, além de lombo assado ao forno, linguiça frita e leitoa assada.

Gostava dos temperos...mas o tal cominho e ervas finas não apreciava. 

Folhas não comia, e dizia que o ser humano não foi feito para comê- Las, assim como os ruminantes. Que comem... comem...depois vão se ruminar. 

Gostava de sair fora para jantar, 
mas, no dia a dia, era dos meus
pratos que ele, modéstia a parte, gostava mais. E para quem não via como serviço, era um jeito tbém de amá- lo.

Gostava de todos os produtos lácteos, principalmente, das suas vacas gir porque por terem menos lactose, não lhe fazia mal; era doido por queijos e requeijões, e muitas vezes, me ajudou a fazer. 

Gostava de fartura - era uma festa para ele o dia que matava porco, vaca, frangos e fazia pamonha. E, sempre, me dizia que gostava das menores, preferia a de sal, com queijo e linguiça. No outro dia, gostava delas fritas. 

Não era muito de comer doces caseiros, os preferidos eram de abóbora com coco e os docinhos de festa, principalmente, aquele de leite ninho), bolos, rosquinhas, pães de queijo e biscoitos, comia um ou dois pedaços...mas gostava de ver prontos na mesa. Gostava de pão feito na chapa.

Sempre, procurei fazer os seus gostos. Porque sentia e via, nos seus olhos, o gosto por tudo que eu fazia. 

Um amante das frutas
Milton gostava muito de frutas.
Dizia: "Fui um menino criado no mato, que passava a frutas do cerrado - cajuzinho do campo, pitanga, croadinha, gabiroba e maminha cadela". Gostava também das frutas dos velhos quintais, principalmente, da manga coquinha, do abacaxi, da banana maçã, da laranja, de lima e de jabuticaba. 

Ele gostava, também, muito de melancia. E, por falar dessa fruta, lembrei- me de uma passagem, por incrível que pareça, até engraçada:  Certo dia, sabendo que os netos iam chegar, e que eles gostavam muito também de melancia, chegou em casa com uma bem grande. (Era muito raro trazer alguma coisa para casa. Dizia: "não sou um homem doméstico, não sei comprar nada". E tinha mesmo dificuldades para fazer compras).  

E, na escolha apressada, não percebeu que a melancia estava com um talo meio podre, e eu lhe disse: "Milton, essa melancia, parece, que está bem passada. Melhor seria, trocá- lá!" Ele olhou meio desconfiado... não gostava de fazer esse tipo de coisa, mas como era na esquina, quase em frente a nossa casa, pegou a melancia e saiu. 

Chegando lá para trocar, certamente, disse à senhora, que não me  conhecia e nem a ele, que eu havia lhe dito, que achava que aquela melancia não estava boa; e ela, com certeza, deve ter argumentado "que estava, e que todas estavam iguais...". 

Posso até imaginar a sua cara de nervoso; segundo a minha diarista, que passou por ele, no momento; ele respondeu para a mulher em um bom tom, já nervoso: "Dona, uma mulher enjoada eu aguento, agora, duas , não". Pegou outra melancia, e chegou pisando duro em casa. Rsrsrsrrsr. 

Mas, depois, passou a comprar a metade de uma melancia. Ficou amigo da família que vendia. Sempre, chegava em casa com uma, colocava na geladeira, depois que gelava, assentava na sua poltrona e ia ver TV, Pingos nos Is, Jovem Pan ou TV Senado, comendo melancia ou outra fruta. Gostava das frutas geladas. Abacaxi, jabuticaba, laranja, sempre, geladas. E, realmente, ficam mais saborosas. 

Gostava das uvas, e, sempre, quando pegava um cacho delas me dizia: "não consigo pegar um cacho de uvas para comer... e me oferecia algumas do cacho... ah, fui tão pobre, e era tão raro. Raríssimo. Hoje, posso comer, e não consigo..."
 






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