quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Pesca da cuia ....



Há uns três anos, nas férias de julho, nossos dois netos, o mais velho com dez anos, o outro com quatro e um amigo deles com nove anos vieram com os seus pais, do interior de São Paulo, passar uns dias conosco na fazenda. 

 Logo que chegaram, Daniel e Lucas levaram o amigo para conhecer um lindo córrego, denominado por eles de riacho, todo ladrilhado de pedras, que fica bem no fundo da casa. Depois de andar um pouco descalço, molhar os pés, na água branquinha e morna, que  lavava toda a sua margem  por onde a  corredeira passava, tiveram a ideia de pescar lambaris. 

E o lugar é bem característico das veredas, onde a água corre por um rego fundo e largo, e vem serpenteando, lá de cima, entre galhos e folhas secas dos  buritis e outras plantas típicas do lugar úmido e sombrio, formando um lindo aquário a céu aberto. 

Mas antes de começar, com a pesca denominada "pesca da cuia", não esqueceram da recomendação do vovô, de dar uma olhada pelos arredores do riacho, observando se não havia algum animal peçoento, como: serpentes, aranhas, escorpiões, lacraias, abelhas, vespas, marimbondos,  arraias, cobras e outros, que sempre escolhem esse tipo de habitat para fazer morada.

Olharam aqui, olharam ali, atentamente, mas não viram nada que os temesse, e resolveram fixar em um lugar mais limpo, literalmente, de cabeça para baixo e de bumbum pra cima, rsrsrs, para conseguirem pegar os espertos peixinhos do lugar. 

Quem via os dois amigos pescando, naquela posição, ajoelhados nas pedras, poderia reconhecer "que quando alguém quer algo, não vê dificuldade alguma". Levando- os também a crerem  "que nada terá exito sem esforço e sem sacrifício". 

Seus joelhos ficaram esfolados e doloridos, no entanto, pouco reclamaram, pois estavam pegando bastante lambaris, e estavam animados. Principalmente, porque entre colegas, sempre, há uma certa competição interna, mesmo sem dizer quem era o vencedor, falavam! "Nossa o Gabriel já pegou dois." O outro, " eu peguei o maior!".

Era a primeira vez que pescavam, e de cuia, então, foi uma invenção deles. 
Encheram uma bacia de alumínio dos peixinhos de todos os tamanhos; uns menores, outros maiores, e levaram para casa para apreciá- los, por mais algum tempo - não tiveram a intenção de comê- los. 

Passaram o período da tarde todo namorando os tais peixinhos. Dando algum alimento e se divertindo com eles. Mas depois de algum tempo, notaram que alguns peixes estavam boiando na água,  então, olharam bem e viram que alguns haviam morrido.  Só restaram uns oito. Então, o vovô olhou e disse: "que se eles não quisessem vê-los todos mortos, precisariam de levá-los de volta ao seu hábitat".

Então, Daniel, o mais velho, depois de pensar um pouco, resolveu seguir o conselho do vovô, e disse: "Então vamos soltá- Los. Melhor... antes que morram todos". Saíram  com o avô para devolvê-los ao córrego. Chegando ao córrego, escolheram o primeiro poço, que encontraram, e Daniel, bem lentamente, foi deixando cada um ir embora.
 
E o vovô Milton presenciando aquela cena, ficou encantado, e com uma expressão de alegria no rosto por perceber  a determinação, a obediência e a consciência ecológica deles. Lucas, o menor deles, ficou muito triste, até chorou, porque, além de ter sentido a morte dos peixinhos, sabia que o seu irmão, embora, reconhecesse a importância de dar vida aqueles peixinhos, estava descontente porque queria ficar olhando-os por mais algum tempo.

De volta para casa, vovô os convidou   para andarem a cavalo, para esquecerem o que tinha ocorrido com os peixes. E logo todos estavam alegres e não falaram mais sobre o assunto. Ficando a lição e o conselho do vovô - "a vida não é sobre o que a gente conquista, mas sobre o que a gente supera"!

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