Minha filha, outro dia, escrevi uma carta ao Virgílio, tecendo a ele algumas considerações sobre a vida, que poderia lhe ser útil, e achei que deveria fazer o mesmo, escrevendo para você.
Tenho consciência das dificuldades que, certamente, está enfrentando e tem enfrentado. Sei das dificuldades de preparar para um concurso, embora, não tenha prestado, fiz o mesmo curso que você, um curso, eminentemente, teórico.
Mais do que ninguém, posso avaliar o que é ficar quase sozinho (a), numa cidade grande e estranha, sem seus pais, sem seus amigos, porque como você, vivi esta experiência de capital do Estado, onde tudo para mim era difícil, estranho e grande. As coisas mais simples, do dia a dia, no início, eram de muito sofrimento: aprender falar ao telefone, pegar elevador, subir nas escadas rolantes, pegar ônibus lotado e andar pelas ruas com medo de não saber voltar para casa. Medo de assentar no restaurante e não saber comportar- se à mesa e nem mesmo saber o que pedir para o garçom.
No entanto, o que mais me dava medo era não ter dinheiro, no final do mês, para pagar o restaurante e o quarto de república onde morava.
As dificuldades de sobrevivência eram muitas. Quantas noites, fiquei sozinho, sem rádio, sem televisão, sem alguma coisa até para me alimentar e sem ninguém para conversar e desabafar.
Na sua idade, eu estava cursando o primeiro semestre de Direito. Para você ter uma ideia, eu ganhava um salário mínimo da época, hoje, R$ 180,00. Com este dinheiro, eu tinha que pagar o restaurante, a república, comprar livros, roupas, calçados e pagar ônibus. Namorar, nem pensar, pois não tinha dinheiro nem mesmo para comprar pipoca ou ir ao cinema.
Todas as vezes, que ia a Jataí, mesmo com desejo de continuar estudando e de me formar, ficava pensando... durante a viagem... em até parar de estudar e dedicar somente ao trabalho. A necessidade de dinheiro para as necessidades básicas falava mais alto. E quando chegava, na casa da minha mãe, e via o barracão pobre que ela morava. Via as dificuldades que minha família vivia. Meus irmãos mais novos, um com apenas 9 e a outra com 6 anos de idade, mal vestidos, descalços, e que muitas das vezes iam chorando para a escola, porque não tinha dinheiro em casa para comprar o pão da manhã, e eles não sabiam que era preciso ter dinheiro para comprar pão.
Quando via aquele ambiente de dificuldades vividas pela minha família, sentia, ainda, mais vontade e necessidade em ser alguém na vida para tentar tirar a minha mãe e meus irmãos daquela vida severina.
Entre parar de estudar e ir trabalhar de empregado, optei- me pelo estudo e o trabalho. Trabalhava durante o dia e estudava a noite e nos finais de semana tinha que lavar e passar minhas poucas roupas e ainda estudar toda matéria da semana.
Formei em 78, e em julho de 79, mudei para Caiapônia, cidade onde conhecia somente o meu primo Adenilson, o Wilson e o Benjamin, os dois últimos, colegas da República em Goiânia. Cheguei com apenas 26 anos, com esposa e um filho de 10 meses de idade. O único bem material que eu tinha era os móveis para montar o escritório, móveis da casa, meus livros, um veículo e dinheiro para nos sustentar durante seis meses.
Não estou falando do meu passado para impressioná- la, estou apenas tentando mostrar a você as dificuldades que tive para chegar onde estou e, principalmente, para conseguir dar uma vida melhor para a nossa família, sobretudo para vocês.
Estou lhe escrevendo para demonstrar a você, que somente vence na vida, quem projeta para o futuro suas realizações. Nunca vi ninguém que pensa somente no prazer imediato e não sacrifica, realizar seus sonhos, vencer na vida.
E... ninguém é muito mais inteligente do que a gente. O que faz a diferença entre as pessoas é o esforço e o preparo intelectual de cada um.
Somente através da prática e do trabalho diário é que faz uma pessoa talentosa e de sucesso, e isto somente após anos de luta e trabalho, conseguimos galgar este posto.
Sendo, assim, não precisa ficar com medo, com dúvidas a respeito de seu futuro, porque todos que formam, e neste caso não interessa o curso, indubitavelmente, passarão por dificuldades, mas, com um pouco de fé e de confiança, conseguirá transpor estes obstáculos.
Portanto, minha filha, gostaria muito de saber tudo como é ser pai, pois até agora, eu praticamente, sei apenas ser filho. E por isto, é que sou tão preocupado com o bem estar e com o futuro de vocês. Sei que, diariamente, transformo- me num chato, querendo decifrar a vida para você e para o Virgílio. Tudo isto, é porque os vejo passando ou tentando passarem pelos caminhos que passei quando jovem e, desesperadamente, tento avisá-los do perigo, dos enganos que a vida nos apresenta e oferece, e fico tentando mostrar um caminho mais fácil, e menos perigoso. Sei que isto é impossível, mesmo porque todos nós insistimos em quebrar a cara, pois, só assim, conseguimos aprender com a vida.
Se eu puder lhe dar um conselho, diria a você que caminhe sempre pelo caminho do bem; seja sempre honesta com você mesma, e principalmente, com os outros; não faça, jamais, dívidas sem saber onde está o dinheiro para efetuar o pagamento; não avalize ninguém; não entre na política sem antes fazer uma análise de tudo que envolva o seu nome e sua profissão; não confie, demasiadamente, em ninguém, desconfie, primeiro, antes de de confiar em qualquer pessoa; nunca ponha os seus dois pés em um laço, deixe pelo menos um pé de fora; não pratique jogo do azar ou jogo com aposta; cuidado com as más companhias, e procure, sempre, caminhar com pessoas melhores que você.
Sei o quanto você é parecida comigo - na insegurança, na dúvida e até nas reclamações. Vejo a sua preocupação com a estética, com as acnes, e fico triste quando você se define como uma pessoa feia. Ao contrário, você é uma pessoa linda, inteligente, com um futuro todo pela frente. Ainda, é tão jovem! Ah, como é bom ser jovem!
Feliz, é quem, neste país, tem casa para morar, tem saúde, tem escola, tem trabalho ou família para sustentá- lo (a). É quem pode passar as férias em uma pequena cidade do interior, na casa dos pais, na certeza, que no início do ano, poderá voltar para Faculdade ou para um lugar digno. Por isto, minha filha, mesmo que você ache que tem muito pouco, na vida, agradeça a Deus por tudo que tem, pois, mesmo com todos os problemas que você acha que tem, você, ainda, faz parte de uma minoria neste país, porque grande maioria tem muito pouco.
Finalmente, peço a você, que tenha muita fé em Deus, muita fé em você mesma. Seja otimista e tenha sempre entusiasmo pela vida. Estude. Prepare com entusiasmo, com organização e com competência o trabalho ou a profissão que abraçou.
Pense...que o sacrifício que você está fazendo não será em vão, e isto lhe fará mais forte e lhe ajudará vencer todas as dificuldades. E eu, sua mãe e seu irmão a admiramos muito.
Que Deus lhe ajude. Um abraço de seu pai, já quase velho!
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