domingo, 25 de novembro de 2018

Ser criança

    Não dá para entender

"Ser criança é tudo de bom", essa é uma frase, que contextualiza uma idéia, um  conceito, culturalmente, mascarados, a meu ver; uma vez que, há anos e anos, vêm sendo declarada por muitas pessoas, como uma fase boa, fantasiosa...  como nos contos de fadas... um verdadeiro "faz de conta". 

E "fazer de conta" é uma enganação um tanto sutil! Mesmo que muitas pessoas afirmem ser o tempo de criança uma das melhores  fases - "por não ter nada para se preocupar, viver só brincando... não fazer nada...", Etc. Não vejo dessa forma. Talvez, tenha tido uma infância até depressiva... sou do tempo que não tinha muito hehehe... qualquer coisa, a gente ouvia era um ..."espere aí que eu  te passo o laço, menino ou menina" e, depois de apanhar, tínhamos que orar o "Pai Nosso" e , por incrível que pareça, cantar "Criança Feliz". 

Com certeza, se um psicólogo me ouvisse, iria entender que há razão para eu pensar assim. Pode até ser... mas, hoje, acredito que 'minha criança interior ferida' esteja bem resolvida quanto a essa questão; acostumada aos mal tratos, desde pequena, me tornei forte, resistente... quase insensível... Mas não sou a favor de violência contra crianças, para criarem pessoas fortes e resistentes ...Tenho pavor de ver pais danando ou batendo em filhos, se ouço grito de crianças, sinto na pele a dor das correadas. Mas, graças a Deus, me superei...

Mas... penso, eu, que precisamos ter  uma nova relação com esse conceito de que "ser criança seja tudo de bom". Se você fizer uma avaliação melhor, poderá entender o porquê dessa minha indignação. Apesar de todas as conquistas tecnológicas de informação e comunicação, que podem ajudar muito as mães e toda a família nesta causa tão nobre... que é a preparação maior dos filhos, se é que é possível... uma vez que, ainda, não nos afastamos da violência e da brutalidade doméstica. Quando pais, padrastos, madrastas e até mães matam ou jogam seus  filhos ou filhas no lixo!! 

E, desse modo, imagine, quem sofre mais com o desemprego, com o desajuste familiar, com famílias que se drogam, que não preparam e não fazem um planejamento familiar, não são as crianças, "que não pensam, não preocupam e não fazem nada''? Não acredito nessa ideia de que ser criança seja tudo de bom!  "Ser criança é tudo de bom" para quem tem uma vida bem estruturada e feliz. E mesmo assim, o padrão social de produtividade em todos os sentidos não a deixa em paz.

 Não foi a toa que Carlos Drummond escreveu

"Que vai ser quando crescer?

Vivem perguntando em redor. Que é ser?É ter um corpo, um jeito, um nome?

Tenho os três. E sou?

Tenho de mudar quando crescer?

 Usar outro nome, corpo e jeito?

Ou a gente só principia a ser quando cresce?

É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?

Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?

Repito: Ser. Ser. Er. R.

Que vou ser quando crescer?

Sou obrigado a? Posso escolher?

Não dá para entender. Não vou ser.

Vou crescer assim mesmo.

Sem ser Esquecer."

Principalmente, hoje, que o "sentimento de produtividade nos pressiona e nos faz acreditar que tudo o que fazemos deve ser útil1 e gerador de resultados imediatos. Somos pressionados a acreditar que em todos os momentos as nossas ações devem ser produtivas e que constantemente devemos estar aprendendo e de maneira consciente. Os nossos desejos estão orientados de tal forma para as consequências das nossas ações, que grande parte do que fazemos não mais vale por si só, mas como meio dirigido a conseguir algo.

Este modo de viver, pensando exclusivamente nos resultados das atividades, é um modo de existir que só faz sentido para o adulto e que acaba desviando a atenção para longe do presente. As crianças não brincam pensando nos efeitos positivos ou negativos do seu brincar, não chutam uma bola ou pulam amarelinha pensando nos ganhos motores e cognitivos desta atividade; elas simplesmente brincam, porque esta é a sua maneira espontânea e natural de existir.

Kunz (2004) nos alerta que perdemos nossa sensibilidade emocional e amorosa com nossos filhos ou crianças se a nossa preocupação com eles se orienta apenas na comparação ao padrão social e culturalmente preestabelecido, não se deixando ver ou perceber os reais desejos e vontades manifestos pelos pequenos. A perda da sensibilidade emocional é consequência de uma excessiva concentração na razão guiada pelo cálculo e pela comparação, valores que são construídos e fortalecidos em nossa sociedade pela aceleração do tempo e por um desejo de progresso a qualquer custo. Ao perdermos a sensibilidade para viver o presente, as nossas ações também se tornam mais instrumentalizadas.(Ms. Gilmar StaviskiI; Ms. Aguinaldo SurdiII; Dr. Elenor KunzIII)

Mas... com o passar dos anos, a vida vai ficando cada vez mais séria, cheia de regras,  de  compromissos e de cobranças. "Precisa estudar para ser alguém na vida...ser gente grande importante... ganhar muito dinheiro está sempre entre os melhores planos...primeiro do que ser feliz... primeiro do que valorizar a saúde...primeiro do que a família... primeiro do que viver...

Logo que vai tornando adulto... vai abandonando seu lado infantil, vai perdendo a sua inocência, a sua espontaneidade, a sua liberdade original e até a sua própria autonomia. Tudo...o desejo, a afetividade vai sendo reprimido... deixando de exercer a sua ousadia, a sua imaginação, a sua essência  e tornando o que os adultos querem. Sendo subjugadas pelo convívio social.   Transformando, segundo Michel, citando Nieezetj "O homem civilizado, que sabe diferenciar entre o útil e o prejudicial, o bem e o mal, o certo e errado,  internalizando as normas e regras de conduta, os modos de ser, de pensar, de agir, de sentir e de valorizar por um longo processo de “domesticação” no interior das práticas sociais."  

É o tempo de aprender... "Sou assim... mas o certo é ser desse jeito ou daquele."

Se eu não mudo... posso ficar parado no tempo. Esse conceito é o que a maioria das pessoas dizem...

Eh, tempo que não sai do seu pensamento. Tentam me comparar com todos. Gente do bem, pricipalmente.

Sou ainda uma criança!  Mas para mim têm muitos planos! O maior desejo de todo mundo é que os filhos sejam felizes. Mas a cobrança é tão grande que os alejam. Já pensaram nisso?

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