sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

3-Reminiscências

Minha infância cheira frutos do cerrado ( gabiroba, cajuzinho do campo, maninha- cadela, araticum e croadinha). 
Minha adolescência cheira futebol
Minha juventude cheira mulher bonita
E o presente cheira saudade... mfs.

Desde criança, fui um leitor assíduo, lendo tudo que via pela frente, principalmente, História e Literatura, e sempre, me interessei por assuntos que falam da origem do Universo, do Homem, sobretudo da minha região e do seu povo.

Meus pais viveram como nômades, mudando, sempre, de um lugar para outro; e foi assim que, nos idos de 1955, vieram para o Sudoeste Goiano, precisamente, para Serranópolis, tentar a vida longe de sua cidade natal - Morrinhos.
Na Serra do Café, meus pais e meus irmãos mais velhos foram trabalhar na roça, especialmente, na colheita do café ou capinando e roçando pastos para os fazendeiros daquela região.

Meu pai, apesar de analfabeto, não era nada bobo, e logo concluiu que não daria conta de manter e educar sua manada de filhos no "cabo da enxada", então, resolveu fixar residência, na cidade, montando um açougue de porco, e a única coisa que conseguiu ganhar neste ramo comercial foi o apelido de " Mané Capado".

Com o insucesso do açougue, meu pai resolveu abrir um boteco, que logo foi alcunhado de Boteco do Mané Capado". Neste boteco, além de bebidas, também eram vendidos alimentos e armarinhos.

Foi através desse pequeno comércio do meu pai que eu e meus irmãos aprendemos a conversar com desenvoltura, a "fazer conta de cabeça", e através do contato com os viajantes que iam de Jataí para Mato Grosso, e de lá para Jataí, ficávamos sabendo das novidades da região; além das informações que chegavam até nós, através das ondas sonoras das rádios Nacional, Tupi e Record, no velho rádio "Semp", que ficava em cima da geladeira a querosene.

        Mudança para Jataí

No início do ano de 1965, meu irmão mais velho, Vicente, num ato de ousadia, de intuição e inteligência convenceu meus pais a mudarem para Jataí, que, naquela época, já era uma grande cidade, onde todos nós teríamos oportunidade de continuar os nossos estudos.

Em Janeiro, daquele ano, chegamos a Jataí, onde meus irmãos Vicente e Zico foram trabalhar como serventes de pedreiro, na construção do Banco do Brasil, e eu fui trabalhar de engraxate, na Avenida Goiás, na Praça Tenente Diomar Menezes, e depois na Engraxataria  da Onça, que ficava onde hoje é a agência do Bradesco.

O menino franzino e o seu engraxate

Naquela época, com apenas 12 anos de idade, estudava de manhã, cursando a antiga 4 ª série primária, no Grupo Escolar Serafim de Carvalho, e às 12:30h começava a trabalhar na Engraxataria, e saia, somente, a partir das 21h; aos sábados e aos domingos, trabalhava até meia noite.

Eu, menino franzino, de calças curtas, sujo de graxa, olhava admirado para as pessoas que passeavam pela Avenida, todas muito bem arrumadas, indo ao cinema, às compras. Naquela época, economizava tudo que ganhava, e não comprava se quer sorvete ou picolé, que era coisa que menino gostava.

Naquele tempo, não podia imaginar que eu e minha família pudéssemos vencer tantos obstáculos - o analfabetismo, a pobreza - e chegar aonde chegamos.
Não demorou muito, meu pai, novamente, abriu um pequeno comércio, que logo transformou em um armazém, sendo conhecido como "Armazém do Capado". E para quem não tinha quase nada, de repente, ter casa própria, carro, televisão, geladeira, era como se tivéssemos alcançado o eldorado. Éramos tidos, na cidade, como novos ricos. A fase rica de minha família durou pouco tempo, meu pai resolveu mudar mais uma vez, e desta vez foi sozinho, deixando minha mãe com os oito filhos - o mais velho com 26 anos e a mais nova com apenas quatro anos de idade. Atravessamos um período difícil, os quatro irmãos mais velhos (Vicente, Zico, Maria das Graças e Divina) assumiram a manutenção e a educação dos quatro irmãos mais jovens. 

Apesar das adversidades, conseguimos manter a família unida, trilhando sempre no caminho do bem; trabalhando com afinco, com responsabilidade e sem abandonar os estudos. Mas tudo isso, devemos à inteligência do mano Vicente, e também à sabedoria e à bondade da minha mãe. Graças a estes esforços, hoje, assistimos filhos e netos da dona Luiza brilhando em várias atividades.

Meus pais, mesmo analfabetos, pobres, sem origem e ciganos, na vida, tiveram muita sorte com os filhos, dos oito: dois são advogados, um médico, uma odontóloga, todos formados pela Universidade Federal de Goiás, aprovados em um único Vestibular, e ainda, uma professora e uma contabilista. 

Os netos do casal Manuel e Luiza, também, demonstraram interesse pelos estudos, haja visto que dos quinze netos, temos um engenheiro agrônomo, três médicos, quatro advogados, três farmacêuticos, dois formados em Ciência da Computação, uma psicóloga, uma odontóloga e um músico, 

Meu pai, certa vez, conversando com um primo fazendeiro, lá em Serranópolis, o primo rico falou que meu pai tinha que ensinar seus filhos trabalharem na roça. Meu pai lhe respondeu, dizendo, " para trabalhar na roça não era necessário ensiná- Los, eles aprenderiam sozinhos, eles precisavam estudar". Talvez, está frase seja a única herança deixada por meu pai.

 

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