Percorrer os guardados de um ente querido falecido é um pouco estranho, invasivo e surpreendente, ao mesmo tempo; principalmente, quando a nossa intenção era procurar por diários que o mesmo deixou escritos. A gente nunca sabe o que vai encontrar, e se vai nos agradar ou não.
Eu senti como se estivesse vasculhando a sua intimidade, algo que aprendemos, durante toda a nossa vida, que seria invasão da privacidade. Interessante, que mesmo sabendo que não estava mais ali, tinha um grande sentimento de respeito impregnado em mim.
E a escrita, então, pode nos revelar muito quem somos. E, embora, não seja fácil controlá- la, mesmo estando vivos, imagine depois de mortos; não podemos controlar nada, nem quem vê o quê, nem em que ordem ou contexto será interpretado.
Milton não está mais aqui para nos explicar o porquê de suas divagações existências - de tanta ansiedade, medo e desencantos, que renovavam, sempre, como mecanismos de defesa, talvez, entremeados de muita esperança e de um constante entusiasmo pela vida.
E... como eu sabia do seu costume, e tendo a intenção de registrar seus textos para editar um livro em sua homenagem; precisava buscar seus devaneios. Encontramos vários. E descobrimos que a maior viagem que lhe empreendia era para dentro de si mesmo.
"E o modo mais emocionante de realizá-la é lendo um livro, pois um livro revela que a vida é o maior de todos os livros. Mas é pouco útil para quem não souber ler nas entrelinhas. E descobrir o que as palavras não disseram"
( Augusto Cury).
E foi no primeiro Domingo de Páscoa, sem ele, que escolhemos para folhear livro por livro de sua biblioteca. Foi um dia inteirinho... de reflexões e de tristeza para mim e para os nossos filhos, pois tínhamos nada mais, nada menos, à nossa frente... do que seis caixas de livros, dessas grandes de supermercados, entre coleções de livros jurídicos, literários e outros; para ver se encontrávamos alguns dos seus escritos.
Foi um momento de profunda reflexão para nós, sobre a transitoriedade da vida. Sobre o que fazemos aqui ou deixamos de fazer. Sobre aproveitar a vida ou não aproveitar. Sobre viver a vida do jeito que quer e não viver.
Hoje estamos aqui.. Amanhã tem alguém vasculhando as nossas coisas. É a vida! Por um descuido de nossa parte ou do outro, estamos viajando.
E viver já foi a melhor coisa que Deus nos deixou. E hoje nem isso podemos fazer mais.
E... não fomos preparados para entender o tempo de Deus e nem os seus mistérios, porém, sabemos que não cabem a nós entender, mas aceitar que quem amamos será eternarizado, não morto, mas vivo dentro de nós.
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