quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

7-Sua Biblioteca...



Milton tinha um grande acervo de livros jurídicos e literários, que foi comprando um a um, todo mês um livro, que foi testado por ele, como bens a partilhar. 

Realmente, para ele, os seus livros eram considerados bens de grande valor; principalmente, por terem sido adquiridos com muita dificuldade, em uma época que tinha menor poder aquisitivo, e começou a exercer a sua profissão.

Alguns jurídicos já estão desatualizados. Foram comprados, quando mais precisava preparar para tornar de fato o advogado que foi, "lá pelos idos de 1978/1979". Quando a busca pelo conhecimento restringia-se às fontes disponibilizadas pelas bibliotecas, pois se constituía em uma única fonte de informação. 

Na atualidade, a biblioteca tem valor pelo que representou e não pelo que lhe é útil. Ninguém está a procura da obra, mas do resumo fragmentado, curto, objetivo, sucinto. "A informação deixou de estar estritamente ligada ao livro para ser uma entidade presente em vários suportes. “A informação não é avaliada pelo suporte físico, mas sim pela sua utilidade, e ela agora pode ser reprocessada ao gosto do freguês.”(SILVA; ABREU, 1999, p. 102).

"No passado a imagem da biblioteca estava associada com a idéia de um espaço que se assemelhava a um depósito de livros, onde o bibliotecário desempenhava o papel de guardião. A inserção das tecnologias na vida da biblioteca e seus profissionais estão transformando substancialmente as concepções dos bibliotecários e dos usuários acerca da biblioteca e o seu papel". 

No entanto, no presente coexistem resquícios da visão tradicional de biblioteca com as novas formas que elas estão assumindo. Nesse novo contexto, a biblioteca está sendo identificada como um local “moderno” onde se disponibiliza informação e o bibliotecário como seu disseminador".

Milton, sempre, foi um leitor assíduo, um profissional estudioso!  A meu ver, um dos melhores advogados da região. Falo, sem medo de errar. Ainda, era aquele advogado que escrevia as suas ações jurídicas, sempre, "a punho", como dizia. Não copiava nada da internet, mesmo nos últimos tempos, quando encontramos tudo pronto. "Tinha tudo na cabeça". Era uma enciclopédia ambulante. Atuou em várias causas jurídicas, como ele dizia :nos Fóruns e tribunais do Júri.

Milton era daqueles advogados que tinham em seu escritório duas prateleiras cheinhas de livros. Mais de 500 exemplares, a meu ver. Mas não de livros que, apenas, enfeitavam a sua biblioteca. Era de livros que foram lidos. 

Sua biblioteca não era a das mais organizadas, mas tinha certa ordem. Primeiro, as coleções. Tinha várias. Não sei se por ordem dos autores mais consagrados, se por assuntos, se por tamanho, cores ou por frequência de uso ou aleatóriamente. Nunca tive curiosidade de perguntar. Mas pelo que eu conhecia dele, acredito que por assuntos.

Milton era daqueles bons leitores, que não deixavam passar nada. Sempre, gostou de estar muito bem informado, sobre vários assuntos. Era difícil um assunto sobre História Geral que ele não soubesse. Até da Bíblia, mesmo não sendo um religioso. Primeiro, porque tinha uma memória incrível, não esquecia nada. Segundo, porque lia muito, leu quase todos os clássicos sugeridos nas aulas de Português e dos Vestibulares. Ele me dizia que chegou a ler trezentos livros, quando fazia cursinho para o Vestibular. 

De vez em quando, às vezes, já tarde da noite, pegava algum livro, que levava para casa, folheava...pegava outro, lia um pouco, às vezes, lia um trecho para mim, e guardava o livro. 
Gostava muito desse trecho do livro de Rui Barbosa. "De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto".(Rui Barbosa).

Era daqueles que tinham, na ponta da língua, os nomes e sobrenomes de personagens principais e  secundários dos livros literários. Quem o conheceu sabe que tinha uma memória e grande interesse pela cultura. 

İnteressante que, às vezes, eu lia algum texto, alguma poesia pra ele, que dizia ser de um autor - ele me dizia: "essa poesia não é de Fernando Pessoa ou Cora Coralina - eles não tinham esse estilo ou não escreviam assim", e logo íamos pesquisar, e sempre ele estava certo. Era apaixonado pela Literatura.

Era também um estudioso do Direito, de Política, de História, etc. Todos os dias, tinha como hábito ler o jornal. Ultimamente, não lia mais o escrito, e, sim, pela TV. Tinha preferência pelos jornais: Os Pingos Nos Is na Jovem Pan.
(Foto dele lendo o jornal)

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