sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

8-Período de adaptação nesta cidade

Em dezembro de 1978, formei em Direito, e em julho de 1979, eu, minha esposa e meu filho mudamos para Caiapônia para eu ser exercer a minha profissão.

Caiapônia 7/10/1979

Acostumei, sempre, escrever as minhas reflexões, ou os meus sentimentos nas folhas em branco, que ficam, nas últimas páginas dos livros, que ao longo de minha vida, venho adquirindo.

Hoje é sábado, e quase ninguém está trabalhando. Estou no meu escritório, estudando, pensando e esperando. Acho melhor estudar aqui do que em casa. 

Ainda, não consegui deixar de viver como vivia em Goiânia - quieto. Aqui não há nada para fazer. A rotina e a monotonia parecem tomar conta de todos. 
Quase todos conseguem refugiar em determinada coisa.  Alguns vão ao bar - na bebida e na conversa com os amigos, esquecem o cotidiano,  intoxicam de bebidas alcoólicas, e conversam futilidades. Uns ficam no jogo de cartas e no futebol, praticando ou assistindo. Outros vão às festas tão vulgares e tão ridículas. 

Somente, eu não consigo, a não ser, no trabalho e na leitura, fugir do enigma do cotidiano. Estou precisando comprar um pedaço de terra para passarmos os finais de semana. Convivermos com a natureza, correr, andar a cavalo, lidar com gado e poder divertir, trabalhando.

Queria ser um sertanejo para trabalhar de sol a sol, sem deixar o corpo descansar. Ser um camponês que tivesse como diversão apenas assistir o nascer e o pôr do sol, e a lua cheia, porque esta surge muito cedo, quase na hora que ele vai dormir.

(Colocar uma das fotos do pôr do sol)

Ser um camponês e cuidar de suas vacas, seus porcos, galinhas e de sua roça. Viver em harmonia com a natureza. Viver dela e para ela. Por enquanto é um sonho, mas logo será realidade.  

Não sei se sou um visionário ou se um sonhador. Sei que preciso mudar a rotina que está matando e atrofiando o meu viver. 

O sino da igreja tocou novamente, avisando que a missa vai começar. Alguns fiéis tão infiéis estão chegando para ouvir falar de coisas que ouvem todos os domingos, mas não praticam.
Há quase seis meses nesta cidade
Está iniciando mais uma semana do mês de janeiro de 1980. Estou, no escritório, pensando e estudando. Somente agora, depois de quase seis meses residindo, nesta cidade, estou conseguindo harmonizar a minha vida, que teve um grande transtorno emocional com a minha mudança da Capital para cá. 

Estou fazendo um plano de estudos, iniciando pelos temas que tem mais utilidade na prática. Assim que estudar Direito Cívil e Penal, passarei para um plano mais aprofundado, fazendo pesquisas.

Preciso estudar bastante, estou novo, e quero aproveitar estes anos para arquitetar o meu conhecimento no ramo do Direito. 

Ser um bom advogado, mesmo a longo prazo, ou, então, estar preparado, se preciso for, para prestar um Concurso e passar.
Está aproximando o mês de fevereiro. Este mês de janeiro foi muito parado. Espero que no próximo entre serviço no escritório. É preciso trabalhar.

Mas mesmo sem serviço, tenho esperanças que conseguirei e vencerei.
Cpa, 28/01/1980).

Um ano residindo em Caiapônia

O mesmo sino que anuncia as horas do dia, também anuncia a morte

Hoje, o sino da igreja bateu novamente. O único veículo de comunicação desta cidade é o alto- falante da igreja. Toca as horas e anuncia a morte. 

Desta vez, a morte levou um ancião - Sr Chico, pai do atual Prefeito Municipal, Bertoldo Francisco de Abreu. Teve visitas de políticos importantes: Deputado Federal e Secretários de Estado. 
O velório é o mesmo de tantos outros, e o mistério da morte continua intacto, e eu continuo vivendo, pensando e escrevendo. Cpa, 27/11/1979).

Em Caiapônia, fui, também, professor

Hoje, foi o último dia do mês de novembro de 1979. Ontem, foi a minha última aula. Foi um bate papo. 

No final, falei alguma coisa como despedida. É emocionante falar para uma classe de alunos, quase todos da minha idade ou pouco mais jovens.

É interessante o fato de que alguns entenderam a minha posição durante as minhas aulas. 

O dia hoje está diferente de ontem, parece que vai chover.

Só vence aquele que persiste 
e aguenta esperar...

Estamos vivendo o início dos anos 80. Estou esperançoso que este ano seja muito importante para mim. Preciso definir a minha situação como advogado.

 Às vezes, fico descontente com a falta de serviço, mas a expectativa é boa, e somente, vence aquele que aguenta esperar. 

Ainda, não sei se estou preparado para essa espera. Preciso ser forte, ser estudioso. É preciso ser realista e positivo. Vencerei!

Ainda, é cedo da noite, e a energia acabou. Tudo está muito escuro. Em noites escuras, o silêncio é maior. A Nilva e o Virgílio dormem no sofá. A monotonia aumenta, ainda, mais, não tendo com quem conversar.

O silêncio é cortado pelo barulho de um carro. Como é triste ficar só, sentir só em uma cidade, envolvido em seus movimentos tão lentos, tão devagar.
Continuo a refletir...
                   Caiapônia, 18/01/80

Final de janeiro de 1981
Estamos vivendo o final do mês de janeiro de 1981, e para este ano, as esperanças são muito boas, bem maiores que o ano que passou. 

Estou sentindo mais à vontade nesta cidade e na minha profissão. Somente, o cotidiano que quase nada mudou. 

Espero o quanto antes poder refugiar as minhas emoções, no campo, onde pretendo montar um sítio. Afinal tudo está bem.( Cpa, 26/01/1981).

Milton era um ser inquieto e angustiado, e sofria muito por antecipação. E segundo Augusto Cury, entrevistado pela Revista Época, citado por Camila Guimarães ( 2014), "temos de impugnar cada ideia, cada sofrimento por antecipação, para não registrar a experiência ruim e não empulhar nossa memória com dados inúteis. 
Devemos pensar no futuro apenas para traçar metas. Não devemos sofrer por antecipação. Não podemos dispensar o presente, único momento que temos para ser estáveis e felizes".

Mas, dificilmente, a pessoa consegue mudar sozinho, principalmente, quando é jovem. Quando faz compromisso, e tem receio de não poder cumpri- lo. 

O Milton ficou bem mais tranquilo depois que envelheceu. Com certeza,  as condições incômodas ou desfavoráveis foram mudando, e ele foi se adaptando, controlando mais, adquirindo mais experiência, e pode tranquilizar mais.

As preocupações e os causos de Tião Franco às margens do Rio Araguaia

Estamos quase no final do ano. A vida anda difícil, pois o país atravessa um situação muito crítica. A economia não anda bem, deixando as pessoas preocupadas com a atual conjuntura socioeconômica do Brasil.

Na minha profissão, os serviços estão escassos; com a crise econômica, todos,  que precisam de fazer qualquer serviço, estão deixando para depois.

Até agora, tenho conseguido manter tudo sob controle. Não sei até quando aguentarei. A minha esposa, impaciente, me cobra solução, que infelizmente, no momento, não posso solucionar. 
Às vezes, fico triste e desiludido diante de tanta monotonia. É preciso ser forte, já vivi situações piores e sobrevivi. 
Amanhã será setembro. As auguras de agosto estão no fim. Estou com boas esperanças para este mês.

No campo da cultura, estou sentindo que a deixei, um pouco de lado; por necessidade ou por conveniência. İsto no campo teórico, pois no Campo prático, tenho aprendido bastante.

Estou, sempre, em contato com gente humilde, que me dão oportunidade de conhecer as minhas próprias raízes.
Conheci pescadores, velhos caçadores, vaqueiros, vagabundos - autênticos filósofos e artistas natos, que fazem da vida, a sua mais simples e pura maneira de vivê- la.
Por tudo isso, acho que, hoje, estou mais equilibrado, mais experiente, e em condições de conhecer melhor as pessoas e também a mim. 
Quando estou deitado sob o relento, sobre a rede armada sobre galhos no cerrado agreste, às margens do Rio Araguaia, ouvindo as estórias bem contadas pelo "Tião Franco", fico imaginando as peripécias passadas por cada um de nós. Junto àqueles companheiros rudes, simples e leais, sinto- me envolto por dois mundos: um civilizado e outro primitivo, que faz de mim, também  duas pessoas com tantos conflitos internos.

No balanço final, não tenho  dúvidas que saí ganhando neste dois anos que estou residindo nesta cidade.
   A vida continua....
Caiapônia 31/08/ 1981.

 15 anos em Caiapônia

Após 15 anos, que cheguei nesta cidade, volto novamente a estudar, para dedicar- me quase que exclusivamente à advocacia, e às minhas atividades como fazendeiro.
Posso dizer que hoje tenho uma experiência muito boa no ramo da advocacia, mas falta- me agora mais conteúdo jurídico e também mais atualização do direito, tendo em vista que a minha atuação na política fez com que eu deixasse o estudo de lado.
                          Cpa, 13/07/94.

Um misto de advogado, político e fazendeiro 

Após tantas lutas, tantos sonhos, alegrias e decepções, sinto- me rejuvenescido, espiritualmente, apesar do meu rosto denunciar claramente que estou envelhecendo fisicamente.

Intelectualmente, sinto mais maduro e com mais facilidade para compreender aquilo que estudo ou leio.

Profissionalmente, percebo que estou vivendo uma boa fase. Estou com o escritório bom, e as pessoas me julgam acima das minhas possibilidades, tanto política quanto profissional e financeira.

Financeiramente, estou como sempre estive; sempre sem dinheiro, apesar de  possuir fazendas, casa própria, veículos, gado bovino - tudo adquirido com muito esforço. 

E, embora,  tenha consciência que já consegui muito mais do que muitas pessoas da minha idade e do meu nível social conseguiram; mesmo assim, continuo mais do que nunca, um misto de advogado, político, fazendeiro e sertanejo sonhador, em busca do tesouro perdido na imensidão dos sonhos e ilusões, neste país de tantas oportunidades e de tantas desigualdades. ( 20/11/1996)

Milton, sempre, dizia que vivia no limite. Para conseguir as coisas foi com muita dificuldade. E, embora, fosse uma pessoa extremamente, positiva; o fato de fazer grandes compromissos, como compra de terras, por exemplo, o medo de não conseguir cumprir no tempo certo, rondava a sua mente. 

06/06/2001)
Ontem, completei 49 anos de idade. É o meu primeiro aniversário deste século.

Lembro- me como se fosse hje das minhas projeções de criança, comentando com amigos, que no ano de 2000, estaria velho, ou seja, com 47 anos.

O tempo passou rápido. Dentro de mim, ainda vive aquele menino sonhador, cheio de planos e esperança no futuro.

Biológica e psicologicamente, sinto- me como se tivesse 35 anos. Fisicamente posso até parecer um quarentão, mas minha alma é jovem, e ainda pulsa pungente a minha juventude. 


    


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