sábado, 1 de janeiro de 2022

4- Mudança para Jataí

No início do ano de 1965, meu irmão mais velho, Vicente, num ato de ousadia, de intuição e inteligência convenceu meus pais a mudarem para Jataí, que, naquela época, já era uma grande cidade, onde todos nós teríamos oportunidade de continuar os nossos estudos.

Em Janeiro, daquele ano, chegamos a Jataí, onde meus irmãos Vicente e Zico foram trabalhar como serventes de pedreiro, na construção do Banco do Brasil, e eu fui trabalhar de engraxate, na Avenida Goiás, na Praça Tenente Diomar Menezes, e depois na Engraxataria  da Onça, que ficava onde, hoje, é a agência do Bradesco.

Sempre trabalhei muito... desde pequeno, e economizava tudo que ganhava

Fui engraxate, limpei quintal para ganhar dinheiro, pesquei, andei pelos campos e cerrados, ainda estudava e trabalhava no pequeno armazém do meu pai, pelo menos em um período do dia. 

Naquela época, com apenas 12 anos de idade, estudava de manhã, cursando a antiga 4 ª série primária, no Grupo Escolar Serafim de Carvalho, e às 12:30h começava a trabalhar na Engraxataria, e saia, somente, a partir das 21h; aos sábados e aos domingos, trabalhava até meia noite.

Eu, menino franzino, de calças curtas, sujo de graxa, olhava admirado para as pessoas que passeavam pela Avenida, todas muito bem arrumadas, indo ao cinema e às compras. Naquela época, economizava tudo que ganhava, e não comprava se quer sorvete ou picolé, que era coisa que menino gostava.

Naquele tempo, não podia imaginar que eu e minha família pudéssemos vencer tantos obstáculos - o analfabetismo, a pobreza - e chegar aonde chegamos.
Não demorou muito, meu pai, novamente, abriu um pequeno comércio, que logo transformou em um armazém, sendo conhecido como "Armazém do Capado". 

E para quem não tinha quase nada, de repente, ter casa própria, carro, televisão, geladeira, era como se tivéssemos alcançado o eldorado. Éramos tidos, na cidade, como novos ricos. A fase rica de minha família durou pouco tempo, meu pai resolveu mudar mais uma vez, e desta vez foi sozinho, deixando minha mãe com os oito filhos - o mais velho com 26 anos e a mais nova com apenas quatro anos de idade. 
Atravessamos um período difícil, os quatro irmãos mais velhos (Vicente, Zico, Maria das Graças e Divina) assumiram a manutenção e a educação dos quatro irmãos mais jovens. 
Apesar das adversidades, conseguimos manter a família unida, trilhando sempre no caminho do bem; trabalhando com afinco, com responsabilidade e sem abandonar os estudos. Mas tudo isso, devemos à inteligência do mano Vicente, e também à sabedoria e à bondade da minha mãe. Graças a estes esforços, hoje, assistimos filhos e netos da dona Luiza brilhando em várias atividades.

Sorte com os filhos, apesar de analfabetos, pobres e ciganos na vida

Meus pais, mesmo analfabetos, pobres, sem origem e ciganos, na vida, tiveram muita sorte com os filhos, dos oito: dois são advogados, um médico, uma odontóloga, todos formados pela Universidade Federal de Goiás,aprovados em um único Vestibular, e ainda, uma professora e uma contabilista. 

Os netos do casal Manuel e Luiza, também, demonstraram interesse pelos estudos, haja visto que dos quinze netos, temos um engenheiro agrônomo, três médicos, quatro advogados, três farmacêuticos, dois formados em Ciência da Computação, uma psicóloga, uma odontóloga e um músico. 

Meu pai, certa vez, conversando com um primo fazendeiro, lá em Serranópolis, o primo rico falou que meu pai tinha que ensinar seus filhos trabalharem na roça. Meu pai lhe respondeu, dizendo, " para trabalhar na roça não era necessário ensiná- Los, eles aprenderiam sozinhos, eles precisavam estudar". Talvez, está frase seja a única herança deixada por meu pai.

 Em Jataí, fui estudar no grupo Serafim de Carvalho, cursando a quarta série do antigo primário; e em 1966, depois de ser aprovado no exame de seleção do Colégio Estadual Nestório Ribeiro, matriculei- me na 5ª série, ou seja, primeira série ginasial. 

Nesta cidade, além de trabalhar de engraxate, fui feirante, butequeiro, joguei muita bola, ouvi roque e namorei.

Depois de ter concluído o segundo ano do curso de Contabilidade, no ano de 1972, fui estudar em Goiânia, onde cursei o terceiro ano técnico. 

Preparação para o Vestibular em Goiânia e minha aprovação para o curso de Direito em 1973

No segundo semestre desse mesmo ano (1972), fiz um cursinho para o Vestibular, e em janeiro de 1973, fui aprovado no único Vestibular que prestei, para o curso de Direito da UFG.

Na Capital do Estado, trabalhei como vendedor de assinatura do Jornal "O Popular", depois fui trabalhar em um escritório de contabilidade, onde trabalhei, de 1974 até junho de 1979, como contabilista.

 
A invasão e o impulso para dominar e superar os obstáculos...

Estão construindo uma casa de luxo perto da casa simples de minha mãe. 
Primeiro, fizeram grandes muralhas, impedindo a admiração dos moradores humildes daquele bairro. 

Os ricos vão espremendo a pobreza e depois a expulsa. Só não compreendo porque as muralhas. Por certo para impedirem que a pobreza daquela gente não invada a rica mansão.

Meu bairro agora ficou mais triste, com aquela construção. Antes, eu via árvores e capins... agora, vejo paredes e muros 

Segundo Alexander Mueller, aluno e colega de trabalho de Alfred Adler (psicólogo austríaco fundador da psicologia do desenvolvimento individual), "Dificilmente há uma criança ou adulto que passe pela vida sem o sentimento de inferioridade.  O que é significativo são as conclusões que são tiradas da autoavaliação de alguém. Se a pessoa se sente insatisfeita, conhecer suas falhas e características negativas podem se tornar o impulso para dominar e superar os obstáculos e deficiências externas e internas. Este resultado favorece decisivamente o desenvolvimento. 

Se o sentimento de inferioridade, por outro lado, levar à crença de que os poderes e as capacidades de alguém são insuficientes — que é um inútil, um fracasso — então pode dominar significativamente o humor predominante da pessoa. 

Agora, se esses sentimentos reforçados de inferioridade impedem o desenvolvimento da criança e interferem no estilo de vida do adulto.” Para o Milton serviu de "impulso para dominar e superar os obstáculos e deficiências externas e internas", e lutar por aquilo que desejava. Tanto pelas deficiências internas quanto externas. Ele me dizia: "Eu tive que vencer tudo! Tanto a pobreza econômica quanto a intelectual". 

Ele foi a luta "com a cara e a coragem". Estudou, dia e noite, para passar no primeiro Vestibular que fez, em uma Universidade Federal. Como ele mesmo dizia. Ele " tinha apenas uma oportunidade."  Era formar em uma Universidade Federal e no seu estado - Goiás - Goiânia. Não tinha dinheiro para tentar em outros lugares!

Foi para Goiânia, com pouco recurso, o mínimo para sobreviver, começou a trabalhar de vender jornal - Jornal O Popular, depois começou trabalhando em um escritório de Contabilidade... quantas vezes, ele nos mostrou a distância que ele fazia caminhando a pé de um comércio ao outro para pegar blocos de notas para fazer contabilidade para os clientes, porque não tinha sequer uma bicicleta.






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