sábado, 1 de janeiro de 2022

10-Concepções sobre a morte

Meu velho pai está morrendo

Acabo de receber a notícia de que o meu pai está muito mal. A cirurgia que lhe foi submetido, para concertar uma veia, não correu muito bem.
Aqui estou, longe de todos os meus familiares, não sei se triste com a notícia ou assustado com a possibilidade da morte de meu velho pai.
Viveu trabalhando, sonhando, e morrer de uma doença, produto do seu esforço e de sua luta para firmar no cenário da vida.
Nunca, me passou pela cabeça que o meu pai viesse a falecer. Não posso imaginar qual será a minha reação.
Espero que o meu velho recupere logo.
Mesmo sabendo que a morte é certa, eu prefiro sempre adiá- la para outra ocasião.
Hoje, vou ficar com o pensamento voltado para ele. Vou lembrar de tantas coisas vividas juntos. İnfância, passeios, concelhos, atritos...
Eu tenho toda uma existência para lembrar dele. 
Caiapônia, 21/09/79.

Quando estamos alegres, tudo nos lembra alegria - músicas, passado, coisas em fim, alegres. Mas quando estamos tristes, é o contrário. 

Hoje, estou triste, para completar estou ameaçado de uma gripe. O meu pai está sendo operado do coração. Está passando mal. Não está recebendo visitas. 

Fui à Goiânia para vê-lo, e voltei muito desanimado. Encontrei muito debilitado. A sua respiração ofegante. Vi aquele homem imóvel, inconsciente, não era meu velho pai dinâmico e animado.
Era o rosto de uma pessoa vivendo seu último suspiro. O meu pensamento, nestes dias, está voltado, somente, para a sua imagem naquele hospital e pessoa que foi. Cpa, 26/09/79


A morte do meu pai

Hoje, estou vivendo uma experiência única. Meu pai morreu e o corpo, ainda, não chegou. Na casa do meu irmão mais velho, muitas pessoas amigas esperam a chegada do velho amigo - "Sr. Mané Capado". 

Meus irmãos, alguns choram, outros ficam firmes. A morte é uma experiência sem preparação. Eu não sei como me comportei, foi a primeira vez que perdi um ente querido, e só se perde um pai uma vez na vida. Eu não chorei e nem fiquei muito triste. Aceito a morte como aceito a vida. 

Mas, o momento é de muita emoção. Choro, tristeza, consolo de amigos. 
Minha família, agora, ficou, aínda, menor. Perdeu um de seus troncos. 

O meu pai viveu, envelheceu, mas não perdeu o seu heroísmo, seu modo de viver: herói e bandido. Pai. Amigo. İrmão e estranho.

Sigo, agora, para vê-lo. Há mais de dois meses não o via, vejo agora, sereno e rígido em seu leito derradeiro. Que Deus o receba como um justo.
                    Jataí, 01/10/1979

31/05/79- Morte do tio Levindo

Ontem, faleceu o meu único tio materno que eu tinha.
Nasceu, viveu e morreu pobre.
Trabalhar foi o seu lazer, seu passeio, sua vida.
O velório foi o mesmo de tantos que morreram nas mesmas condições. Casa simples, simplicidade nas pessoas amigas e parentes. Muito choro, muitas reclamações e lamentações.
Hoje, às onze horas foi o enterro. Cemitério, local onde as pessoas de todos os tipos, diferenças de cor, e de posses. Debaixo do chão tornam todas iguais.
A sua sepultura será igual a todas que ali existe. Com pedrinhas por cima, e uma cruz pintada a cal, onde ficará escrito o seu nome, data do nascimento e falecimento.
Seu nome ficará entre aquela multidão de desaparecidos anônimos. Anônimos em vida e na morte. 
Não fiquei triste, não chorei... apenas, fiquei a refletir, e fiquei sem resposta sobre o mistério da morte.
     Continuo a viver.....
                        Goiânia, 01/06/79

A morte de um amigo de infância

Ontem recebi por telefone, a notícia dada por minha mãe, sobre a morte do meu amigo de criança e juventude, conhecido por Oripinho. 

Oripinho era um moço pobre, mas muito inteligente. Por isso, saiu muito bem nos estudos.

Infelizmente, tão logo começou a trabalhar, iniciou também suas atividades boêmias. Bebia muito e perambulava de emprego em emprego; no entanto, nunca abandonou seus pais. 
Meu amigo morreu tão jovem, com pouco mais de quarenta anos. Às vezes, lembro- me dele, como um personagem do Jorge Amado, boêmio e fanfarrão.

Há quanto tempo não o via! Mas a grande verdade, é que não o conheci depois de adulto. Há mais ou menos, uns três anos, ele me ligou pedindo que lhe mandasse determinada quantia em dinheiro, pois precisava pagar aluguel, alegando que estava com a perna quebrada e sem emprego. 

Mandei- lhe o dinheiro pedido, e nunca mais falei com o meu amigo. Recentemente, fui informado que estava com câncer na garganta e logo faleceu.
Com a notícia da sua morte, vieram também várias lembranças do meu amigo, e da minha adolescência vivida em Jataí. Da praça do Lambari. Circo, muitas peladas nos campinhos de ponta de rua. As primeiras namoradas e os nossos primeiros segredos.
Agora, está morto meu amigo, senti saudades do meu passado perdido na imensidão dos meus problemas, referentes às minhas atividades políticas, negócios e profissão.

Meu amigo viveu pouco, mas viveu do jeito que quis, sem problemas, e parecia feliz, apesar de sua pobreza.
( 22/10/1999)

Homenagem a Moisés Manoel

Recebi, hoje, um novo disco de Orfeu e Menestrel, o terceiro disco gravado, que consta, em sua maioria, as letras do compositor Moisés Manuel, que foi tragicamente assassinado.

Às vezes, eu fico pensando naquele rapaz, que foi um rebelde, e muitas pessoas não aceitaram a sua maneira de viver. . Apaixonou- se, brigou, namorou, mesmo depois de casado, e não aceitou ser, simplesmente, convencional. 

As suas letras mostram, claramente, a sua maneira de ver a vida. Muitos dos que o criticavam, e não aceitaram a sua visão de mundo, chamando- o de louco e de irresponsável, agora, que ele está morto, acha que ele viveu corretamente. 

Por tudo isto, eu imagino e penso... como é difícil viver em harmonia com a sociedade e com nós mesmos. É um eterno conflito de sobrevivência entre o ser e o ter. 

Hoje, ele está em outra dimensão. Não sei como está vivendo, e o que está achando do planeta que deixou de habitar.  Eu sei que muitas letras que fariam lindas músicas ficarão sem composição, pois morreu o compositor e o poeta. 

Poeta na sua visão de mundo. No seu bucolismo, cantando as tradições e as mutações que estão acontecendo com o nosso sertão.

O sangue sertanejo dos seus antepassados ressurge  em suas músicas, que cantou como ninguém, a natureza e o sertão, mutilada pelo progresso, sem fibras e seus autênticos sertanejos.

Eu nunca cheguei a conversar com esse moço, mas o entendi melhor que muitos daqueles que viveram ao seu redor. Compreendi suas angústias e suas atitudes.








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