terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Namoro no tempo das cartas

Acredito que há, com certeza, "n" possibilidades de lembranças de entes queridos guardadas pelas pessoas, de acordo com o gosto pessoal de cada um. Há quem não guarda nada, mas muitos, guardam, afinal, apegar-se a algo que foi importante, afetivamente, em nossa vida é natural do ser humano.

Eu herdei esse apego pelas coisas, acredito que da minha avó materna - lembro- me dela nos mostrar a sua primeira paganzinha, e fiquei admirada, na época, por guardar algo por tanto tempo, e, ainda, estar, praticamente, intacta.

Eu e o Milton namoramos quase três anos por cartas! E guardo, ainda, até hoje, quase meio século depois, todas elas -  uma grande coleção de nossas tão românticas e bem elaboradas e dobradas cartas escritas, manualmente ou digitadas, nas antigas máquinas de escrever.
 
O papel já está bem amarelado pelo tempo, mas pode perfeitamente, remontar a nossa história, se lidas pelos nossos filhos e netos. Os únicos que poderiam ter certa curiosidade de nos conhecer mais interiormente. 

Essa foi uma prática milenar dos enamorados,  familiares e outros, que viviam a distância, por ser o único instrumento de trocar informações históricas e registrar fatos do cotidiano. İnspirando, inclusive, muitos escritores a escrever sobre as cartas de amor, que chamavam atenção pela linguagem delicada e muitas vezes poética, com caligrafia impecável.

E lendo algumas de nossas cartas, no amontoado de centenas delas, relembrei seu jeito de ser, suas preocupações, e fiquei pensando que, no tempo das cartas, os namorados, embora, distantes, pareciam estar mais próximos, porque poderiam através do papel extravasar seus sentimentos, suas expectativas, seus desejos e suas saudades e, muitas vezes, até o seu perfume. Vantagem que o WhatsApp, Facebook e Instagram, ainda, não podem nos oferecer.

O tempo passa, as pessoas queridas  partem, mas as lembranças ficam eternizadas em nossa memória... Assim, aconteceu comigo. Hoje, tudo que o Milton fez e foi ficará registrado, através dos seus escritos, cartas, fotos, livros e objetos que ele gostava, instalados, na fazenda, como: seu engenho, seu carro de boi, tudo que ele valorizava, sua lembrança está. 

Para mim vale a pena guardar e conservar objetos que os entes queridos gostavam, desde que não geram desconforto pela falta de espaço e pelo dano do tempo. Ou espaço psicológico, segundo leituras, "uma vez que, para cada objeto que guardamos existe uma representação mental dele ocupando espaço na nossa mente". 
Não, não é este o meu caso de transtorno desse ou daquele, não é nada em excesso.  
 











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