sábado, 15 de janeiro de 2022

Seu bom gosto musical

Milton, desde que o conheci, a música já fazia parte de sua vida, e foi com ele que desenvolvi o meu gosto também pelos grandes nomes da música brasileira - Bossa Nova e MPB e outros, como: (Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Clara Nunes, Milton Nascimento, Elis Regina,Toquinho, Roberto Carlos, Nara Leão,Djavan, Zé Ramalho, Marisa Mont, Almır Sater, The Beatles e outros), influenciando, assim, os seus irmãos e também os nossos dois filhos!

E era muito comum, quando estávamos viajando ou, na cidade, mesmo, passarmos os sábados e os domingos, o dia inteiro, ouvindo esses seletos músicos. Como ele gostava! E, nos últimos tempos, ouvia, repetidamente, as mesmas melodias, como se estivesse aproveitando pela última vez... 
E ele fazia questão que eu assentasse perto dele, para ouvirmos juntos; quando eu não estava, sempre, me chamava para ouvir um trecho, que ele dizia ser uma verdadeira poesia, assim, quando estava vendo algum documentário.  İnteressante, cada vez, que ouvíamos, mais queríamos ouvir, e, hoje, essa trilha sonoriza as minhas lembranças e a minha saudade. 

E além de gostar de ouvir música, gostava de tocar e de cantar. Foi um grande incentivador tanto de seus irmãos quanto de seus amigos e de nossos filhos. Em sua família, muitos tocam e cantam.

 O passado é o presente na lembrança 

Este violão, assim, escrevi, no meu status do Facebook, foi o primeiro instrumento musical do meu saudoso esposo. Ele já não o usava. Tinha outros. Mas este, com certeza, guarda as suas melhores lembranças de sua adolescência e também de seus irmãos.
 O violão era único para todos. Lembro da primeira e da última serenata, que fez para mim por volta de 1974/75. Recordo com saudade e muita tristeza! Hoje, decora as minhas lembranças e de todos aqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.

E conversando com a sua irmã, Maria das Graças, ela relembrou passagens que lhe deixaram tbém muitas saudades de sua juventude com o Milton. Ela disse..."meio a tantas dificuldades enfrentadas por nós, naquele tempo, éramos muito alegres e comunicativos. Nunca reclamávamos de nada. E, quando o Milton vinha de Goiânia para Jataí, e, às vezes, caia a energia, aqui na cidade, era muito comum, naquela época, então, nos reuníamos com os irmãos, mais velhos e os mais novos, e íamos cantar, tocar violão, contar histórias; e esperávamos, tranquilamente, pela volta da energia; demostrando a nossa capacidade de aceitar as dificuldades da vida e de reinventar. Às vezes, inventávamos de sair fazendo serenata, só os irmãos, e era só alegria").
  ( Foto do violão)

E, depois de ter postado esta foto e esta mensagem, a Luiza, sobrinha do Milton, assim, escreveu:

"Esta foto me toca de um jeito muito único, além de ser uma bela composição fotográfica - a montagem do violão com as flores, as cores estão lindas. É engraçado pensar que muito, provavelmente, por causa desse instrumento, e por causa do meu tio é que eu aprendi a tocar violão. 

E por que estou falando tudo isso?!
Bem, gostaria, primeiramente, mostrar esta foto tão bonita e  sensível . Segundo, gostaria de mostrar como você pode mudar a sua percepção sobre uma foto/ obra de arte com base no que você viveu ou vivencia. Se antes você achou essa foto bonita, mas não tinha informações sobre a história que envolve o violão, a fotografia, a pandemia , o amor e a família , sua visão pode ter mudado depois de saber sobre essa história.

Terceiro, ressaltar que muitas vezes nos encontramos na arte de uma outra pessoa, pois de alguma forma, parece que ela fala da gente e represa uma vivência ou um sentimento nosso também".
     
E assim completei: que      
Quando a gente passa a viver de saudade, além da imagem do ente querido nos acompanhar, o tempo todo, que é sentida pela presença da ausência, como disse a atriz Beth Goulart, falando de sua mãe, posso sentir a sua energia, através da percepção e da sensação. İsto é, consigo estar com ele em uma nova versão - pelas ações e imagens que viraram recordações... quando ouço o toque de algum violão, nos finais de tardes, ou o som de suas músicas que gostava de ouvir, dos programas favoritos - TV Senado, Pingos nos Is e outros. 

Da mesma forma, quando ouço a voz do antigo radialista Zé Bétio, lembro logo do meu pai, que levantava bem cedinho para tirar o leite das vacas, ao som de um rádio e das vacas mugindo no curral. E da minha mãe, quando ouço "Ave- Maria", do padre Zezinho, posso até vê-la a cantar, regando o terreiro da fazenda, com água da bica, pés molhados, sujos pelos respingos da água com a terra vermelha. Meu pai e minha mãe faziam do trabalho uma atividade para preencher também o tempo. Se sofriam, diziam que fazia parte. Agora, o tempo é outro! Não há tempo nenhum. E nem o que fazer... Só relembrá- los!! 

E é uma recordação que a gente carrega, em tudo -  que eles gostavam. Pode ser em uma música, em um prato ou em uma bebida que eles gostavam, ou em um ambiente... em tudo, eles estão! 

Depois, de mais de seis meses que o Milton havia partido, minha filha tirou férias do trabalho, então, me convidou para viajar com ela para Salvador, fomos descansar um pouco, e conhecemos o famoso Pelourinho. E... lá, por onde a gente andava, em cada esquina, tinha um músico tocando as músicas que o Milton gostava, e remexendo com a minha saudade. E, por mais que estivesse agradável a viagem, faltava algo... era estranho... uma sensação de vazio, como se a vida tivesse perdido todo o seu propósito. 

Mesmo viajando, carregamos aquele ser com a gente. İncrível!! 
Como se existisse um pano de fundo, que a sua imagem fica em minha frente... Sua voz...Seu jeito de ser... Seu olhar... em diferentes épocas. Em grandes e pequenos momentos. Bons e ruins! 

 E, citando- os, fico pensando... cada vez que perdemos alguém, vamos ficando menor. Primeiro, vão os nossos avós, alguns tios, depois os nossos pais e depois um de nós... e a gente fica como? sozinha, remoendo as lembranças, para mimar a saudade.

Só a saudade acompanha a gente tão de perto, mesmo distante. O que fazer?  Ver o tempo passar? O tempo ou a vida? "É preciso seguir em frente com o meu tempo. Mas qual é, onde está, em que lugar ficou... o meu tempo?" ( Lya Luft, 2006).

Mas....como continua dizendo Lya Luft, "A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada.”
- Lya Luft, em "O ponto cego".


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