terça-feira, 4 de janeiro de 2022

6 -A beleza não tem que ter utilidade




O Milton, sempre, teve uma conexão muito grande com o passado, seja no interesse pela história dos povos, dos antepassados quanto pela história da política, da música, pelos filmes, antigos documentários, etc.

Tinha um grande apreço pelos objetos antigos, principalmente os rurais. E esse gosto o motivou a tê-los não só como peças decorativas, mas que poderiam ser usados para relembrar os afazeres do passado. E com isso fui me interessando também. Uma vez que, para mim, os mesmos eram como  relíquias carregadas de histórias e lembranças que vivi e que meus antepassados viveram, passando de geração a geração.  

E para o Milton, preservá- Los era uma forma de manter viva a memória e de levar costumes antigos às próximas gerações por meio das minhas tradições familiares, e, ainda, por ter marcado também a sua infância, através de momentos, relações e sentimentos de quando passeava nos quintais velhos das fazendas que visitava com a sua mãe e quando andava nos carros de bois pelas ruas de Serranópolis com a meninada da sua idade. 

Como disse Carla Bastos Dias, em um especial para a Gazeta do Povo ( 2020): "Não é a coisa que carrega o afeto, mas ela é o instrumento que permite reviver aquele afeto." semprefamília.com.br https:/www.semprefamilia.com.br. E foi na nossa fazenda denominada Morro de Mesa que, embora, tivesse como atividade principal a criação de gado, na época, Milton a escolheu para fazer daquele lugar - um ambiente com "alma fazendeira",como ele mesmo dizia. 

Para ele, uma fazenda, ao seu gosto, teria  que ter benfeitorias como: um engenho para fazer garapa, melado e rapadura para os netos e visitantes; um monjolo para socar café do dia a dia, e milho para canjica; um rego d'água e bica com água corrente; um carro de boi; um curral de lasca, porcos no chiqueiro e no mangueirão, vacas parideiras nos pastos para cria e para tirar um leite, galinhas poedeiras no terreiro.

 Teria que ter também fogão a lenha e alimentos para serem servidos , no dia a dia, como: lombos cheios de carne bovina (carne de lata recheada), linguiça suína caipira, biscoitos de polvilho, requeijão
 ( ele me ajudava a fazer requeijão, segurando a panela), queijo fresco, pamonha e café torrado e moído na hora. Tudo isso, ele conseguiu vivenciar várias vezes, pois, sempre, gostei de fazer essas coisas. Somente, o uso do fogão a lenha não foi possível, embora tivesse na minha cozinha da fazenda, achava que esquentava muito, e fosse prejudicial para a minha saúde.

Além  de gostar dessas iguarias caipiras. Ele se sentia bem quando fazíamos uma pamonhada na fazenda -  por gostar daquele movimento -corta o milho, tira a palha, tira os cabelos, rala, coa, tempera, faz os copinhos com a própria palha, coloca a massa do milho, queijo fresco, linguiça frita, amarra e coloca na água para cozinhar. 

Algumas vezes, chamávamos os vizinhos para irem comer pamonha em casa. Sempre, fazíamos quando reuníamos os nossos filhos e netos também. E ele ficava muito contente. Como disse Mário Sérgio Cortella, "As famílias precisam voltar a fazer pamonha. Não se faz pamonha para comer pamonha, mas para passar o dia inteiro juntos.” 

E era assim que o Milton via esses momentos. Era para ele como se fosse um evento. Gostava de fartura. Preferia mais as pamonhas de sal com queijo e linguiça suína frita. As doces, gostava delas fritas, como a sua mãe fazia. 

Assim era a sua memória fazendeira. Gostava de tudo que pertenceu e pertence ao mundo rural. Diferente de muitas pessoas que dizem: Para que servem tantos objetos que não usam ?" Ainda, completam..."Não servem para nada.  Só para pegarem poeira e apodrecerem". 

Fazer pamonha? Muito melhor comprar, cada um come uma / duas e, como dizem "não tem trabalheira". Em casa, não, o Milton preferia as feitas em casa. 


Existem pessoas que gostam só do que dão lucro...flores não plantam..."Para que servem flores? Só para dar trabalho!?".

Mas...como disse o padre Fábio de Melo, " a beleza não tem de ter utilidade.  Ela é supérflua.  Ela é o que sobra sem poder faltar. 

É o elemento que revela o sentido das coisas. Deixa grande, dilata e assombra com seu poder de encantamento. Mas não é útil.  É apenas necessária.  

Ele continua...
Gosto de observar a beleza dos objetos que já foram alforriados de suas utilidades.  Quadros e esculturas libertados da obsessão utilitarista de seus donos. 

Os museus são lugares que proporcionam o descontentamento das coisas belas. Distantes das equívocas atribuições a que foram submetidas,  finalmente, descansam em paz."

Fotos do carro de boi, do monjolo, do engenho e de outros

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