Minha Vida
(Epígrafe c/fonte menor)
Minha infância cheira frutos do cerrado ( gabiroba, cajuzinho do campo, maninha- cadela, araticum e croadinha).
Minha adolescência cheira futebol
Minha juventude cheira mulher bonita
E o presente cheira saudade... mfs.
Nasci no dia cinco de junho de 1952, na cidade goiana de São Luís de Montes Belos. Quando tinha dois anos, meus pais mudaram para cidade de Morrinhos- GO, e de lá mudaram para uma fazenda que, hoje, fica no município de Joviânia- GO, onde meu pai foi trabalhar como vaqueiro.
Dessa fazenda, mudamos para Serranópolis, onde morava uma tia do meu pai, irmã da minha avó paterna. Tia Ana e tio Manuel Parente eram as únicas pessoas conhecidas dos meus pais aqui no sudoeste goiano.
Não sei bem a data certa que chegamos na Serra do Café. Segundo a minha mãe, era final de 1956. Éramos cinco irmãos, pela ordem de idade: Vicente, Vilson (Zico), Maria, eu e a Divina, que era muito pequena. Hoje somos nove: José, Welter, Shirley e Valéria.
Nessa cidade, meu pai foi trabalhar na roça, cuidou de um cafezal; depois, foi açougueiro e depois foi comerciante, ramo que teve algum progresso. Meu pai era um homem sábio, apesar de analfabeto. Sempre, teve muita habilidade nos negócios e facilidade de fazer amigos, tornando uma pessoa até importante em Serranópolis.
(Foto do Sr Ferrugem com enxada nos ombros)
Dessa época, as lembranças do "Córrego da Moranga" não sai da minha cabeça. Duas ou três vezes por semana, eu acompanhava minha mãe até um local escolhido pelas lavadeiras para lavar a roupa da família, e todas as tardes, juntos com outros meninos, banhávamos em suas águas limpas e frias. ( Foto da dona Áurea lavando roupa)
Quantas vezes, eu e minha mãe fomos ao cerrado, próximo à cidade, para recolher restos de madeiras que serviriam de lenha em nossa casa.
( Foto da dona Áurea pegando lenha)
Quantas vezes, fomos às fazendas de pessoas amigas para buscar palha de milho para encher os colchões, e paina para fazer ou reformar os travesseiros, ou mesmo para buscar frutas dos velhos quintais da região.
Sou mineiro por engano
Por engano do meu pai ou por equívoco do Escrivão que lavrou o meu registro de nascimento, em meus documentos consta que nasci na cidade mineira de Ponte Nova. Nunca fui a esta cidade e nem sei onde a mesma fica.
Mas acima de tudo: sou Serranapolino...sou Jataiense. Sou de Goiás. Sou Caiaponiense.
Sou goiano - goiano do pé rachado. Criado com pequi, com pamonha, milho assado, frango com guariroba e quiabo.
Sou goiano do serrado. Não sou do mato. O Serrado da minha infância tinha gabiroba, cajuzinho do campo, mangaba, croadinha, araticum e maminha cadela.
Das frutas dos quintais das fazendas e das vilas. Jabuticaba, goiaba, laranja, manga, abacate, jenipapo, mexerica e cajá-manga.
Sou genuinamente goiano. Meus limites são as barrancas dos rios Araguaia e do Paranaíba... até hoje, não precisei atravessá-los.
Pode parecer pequeno o meu território ou o meu mundo; mas me basta e satisfaz o meu espírito e o meu jeito goiano de viver, pois, na definição do escritor Carmo Bernardes: "um homem nunca é mais do que aquilo que a vida quis que ele fosse".
Sou descendente de velhos sertanejos que embrenharam pelos sertões de Minas e Goiás, e iniciaram a colonização em nosso estado. Venho de uma família pobre e obscura.
Sou uma mistura de raças: negro, índio e branco. Do branco europeu, herdei a ambição, o espírito aventureiro, o gosto pela literatura e pela cultura. Do negro, herdei a disciplina pelo trabalho, admiração pela música, instrumentos musicais e crenças. Do índio, herdei a intimidade com a natureza, o espírito de liberdade, o prazer de pescar, caçar e a paixão pelos rios, e até mesmo o jeito preguiçoso de viver.
Reminiscência
Meus pais viveram como nômades, mudando, sempre, de um lugar para outro; e foi assim que, nos idos de 1955, vieram para o Sudoeste Goiano, precisamente, para Serranópolis, tentar a vida longe de sua cidade natal - Morrinhos.
Na Serra do Café, meus pais e meus irmãos mais velhos foram trabalhar na roça, especialmente, na colheita do café ou capinando e roçando pastos para os fazendeiros daquela região.
Meu pai, apesar de analfabeto, não era nada bobo, e logo concluiu que não daria conta de manter e educar sua manada de filhos no "cabo da enxada", então, resolveu fixar residência, na cidade, montando um açougue de porco, e a única coisa que conseguiu ganhar neste ramo comercial foi o apelido de " Mané Capado".
Com o insucesso do açougue, meu pai resolveu abrir um boteco, que logo foi alcunhado de Boteco do Mané Capado". Neste boteco, além de bebidas, também eram vendidos alimentos e armarinhos.
Foi através desse pequeno comércio do meu pai que eu e meus irmãos aprendemos a conversar com desenvoltura, a "fazer conta de cabeça", e através do contato com os viajantes que iam de Jataí para Mato Grosso, e de lá para Jataí, ficávamos sabendo das novidades da região; além das informações que chegavam até nós, através das ondas sonoras das rádios Nacional, Tupi e Record, no velho rádio "Semp", que ficava em cima da geladeira a querosene.
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