domingo, 20 de fevereiro de 2022

Qual será a a minha, a sua, a nossa recompensa?

Muitas pessoas constroem a sua vida alicerçada no trabalho. Milton foi assim, achava que não podia nem tirar férias; quando viajávamos para a casa de nosso filho ou de minhas irmãs ou dos seus irmãos, ele não conseguia ficar mais de três dias; ficava ansioso para retornar para casa. 

Quando chegava, deitava no sofá da sala de TV, e dizia que a sua casa era o melhor lugar do mundo. Às vezes, fazia alguns questionamentos do tipo:  "Têm pessoas que parecem que não gostam das casas delas!!" Era caseiro e sentia à vontade em casa.

E lendo o livro, "O tempo não tem idade", de Pedro Paulo Monteiro (2011), uma passagem de um homem  muito simples e muito trabalhador me chamou atenção, e quero com vcs, também, compartilhar. 

Tratava- se de uma pessoa muito 
positiva, que acreditava que os ventos estariam, sempre, a seu favor, e que nada podia abatê-lo, a não ser os seus pensamentos. Então, trabalhava dia e noite, com a intenção de obter o valor que merecia, pela sua força de vontade e pelo poder que tinha de superação, com o objetivo de nunca faltar ao trabalho, que um dia seria recompensado de alguma forma.

Trabalhava, incansavelmente, e sabia usar os seus músculos para ganhar dinheiro, e a sua cabeça para economizá- lo. Aprendera com o pai que "quem cedo madruga conseguiria o melhor pasto", por isso, antes do sol anunciar a sua chegada, já estava de pé para ir para o trabalho.

Mas de repente, às manhãs, quando se levantava e ia calçar as suas meias, sentia dores no corpo, porém recusava escutar o corpo exausto. Para ele, os dias, sempre, eram os mesmos, porque só existia labuta. O descanso não era merecimento para quem precisava ter mais. 

Os anos passavam, e a força, a disposição deste homem também. Mas buscava reanimar, com a crença de perseverar para vencer e ser alguém na vida. Se desmotivava, olhava as suas economias que só aumentavam; e motivava novamente. 

Para ele, a palavra "descanso" não soava bem. E continuava a trabalhar. No fim da noite, sentia- se vitorioso, pois sua força não o abandonara, e ia dormir para no outro dia levantar cedo e continuar a luta.

Este homem trabalhava no campo durante o dia, e a noite em um bar. Não tinha família. Já tinha conseguido o dinheiro suficiente para viver confortavelmente, poderia diminuir a labuta. Mas tinha a ideia fixa de que um dia poderia precisar de dinheiro, e continuava trabalhando sem trégua, com a certeza de que um dia a vida iria recompensá- lo.

Tudo ia muito bem, a seu ver...mas numa noite, os pensamentos não o deixaram dormir. Levantou e foi ao banheiro... olhou no espelho, e percebeu o quanto estava velho, sofrido e insatisfeito com a vida. Os olhos estavam empapuçados do cansaço e de sua insistência. E em voz alta disse para ele mesmo: " Um dia a vida te recompensará. Tenha paciência!"

Quanto mais velho ficava, mais sozinho sentia. Pensava....o que tinha feito da vida? Não queria questionar a si mesmo, pois a teimosia insistia em acreditar que poderia ser recompensado. Se sentiu velho e sabia que a morte estava a sua espreita. 

Tinha que dormir mais cedo, hoje porque, no dia seguinte, o prefeito da cidade o homenagearia em público, como o homem cuja história foi construída a partir do nada - ele era um exemplo de superação. Agora, ele era proprietário de grande parte dos estabelecimentos da cidade, e todos o consideravam um homem de valor. O seu esforço era um grande mérito. Finalmente, seria reconhecido, e isso era motivo de muita satisfação.

Naquela mesma noite, este homem sonhou quebrando pedras, conseguiu quebrar todos os tipos e tamanhos. E que o sol queimava a sua pele, o suor escorria pela sua face, mas os músculos mantinham se firmes. Ele não sentia satisfação em quebrar pedras, mas tinha que realizar o trabalho. ( sentia como obrigação).

Na manhã, dia que seria homenageado, acordou com o corpo muito estranho, não era cansaço, porque a sensação era diferente. Pensou que poderia ser nervoso por causa da homenagem. Estava tonto, a cabeça doia muito, como um dente latejando; lembrou do sonho, mas como não era superticioso, não deu importância. 

Ele tinha que arrumar para o seu grande dia. Seu discurso já estava pronto. Estava orgulhoso por ter conseguido chegar onde chegou. İsso confirmaria que a vida afinal o havia recompensado. No entanto, não estava bem, tentou mesmo cambaleando ir em direção ao guarda-roupa para colocar a sua roupa, feita pelo melhor alfaiate da cidade. Ao meio do quarto, suas pernas tremiam, continuava tonto. 

Subitamente, esqueceu o que ia fazer, ficou imóvel até a sua memória voltar. Sabia que estava nu, mas não sabia onde tinha guardado as suas roupas..Tentou pegar um pijama, mas sua coordenação estava estranha, não sentia o braço, sentia que o corpo estava dissociado do seu Eu. 

De repente, sentiu uma dor de cabeça incontrolável que desmaiou, foi para o chão. Sua boca entortara, e seu coração batia, lentamente, anunciando uma parada. Um silêncio ensurdecedor se fez presente. 

Ali no chão, ele se acalmou, e algumas perguntas surgiram...O que está acontecendo comigo? Várias outras perguntas, pensamentos e lembranças brotavam e iam desaparecendo lentamente. Então, encolheu seu corpo como se fosse um feto no ventre da mãe e mansamente deu um último suspiro. 

E fiquei pensando... quantas pessoas viveram e vivem como esse homem viveu, pensando que um dia, terão também a sua recompensa, que pode ser até como o desejo desse homem de ser reconhecido ou ter o agradecimento por parte de alguém.

E a maioria das pessoas, muitas vezes, não pensam, nenhum pouco, em si próprias. Só pensam em trabalhar, ganhar dinheiro, ter cada vez mais, acumular, e não acham hora para aproveitar. Sempre, não podem. 

Principalmente, como disse Monteiro (2011), " quando o homem nasceu em uma família pobre com recursos escassos, que conseguiu trabalhar e ficar melhor de vida. Estando melhor, na velhice, tem medo de voltar a ser pobre como fora na infância. Esse exemplo demonstra a dificuldade em enfrentar o tempo simbólico. Para ele, o tempo passado se tornou um risco para o tempo futuro, provocando em si insatisfação e sofrimento no tempo presente. O passado assombra o presente. O futuro é ameaçador, algo inacabado, que é apenas uma probabilidade". 

Muitas só pensam nos filhos. E trabalham para os filhos não passarem o que eles passaram. E não reclamam! Quantas vezes, o Milton me disse, "preciso arrumar essas fazendas para deixar para os nossos filhos". Sentia como se fosse uma obrigação que tivesse que cumprir antes de sua partida. Mas não via como uma obrigação ruim, não! Fazia com prazer, embora, sofresse para manter aquele patrimônio. 

Mas qual será a recompensa dele ou dos outros? Ah, são tantas, né gente!  A primeira, o amor e a consideração dos filhos. Depois, a preocupação, o cuidado, a paciência, o amor e a empatia.

E sobre essa recompensa, o senhor da história também esforçou muito por esse dia... Embora não tivesse construído família, pensava em uma homenagem do lugar que vivera. E no dia de sua homenagem, faleceu. 

Por isso é importante que a pessoa se valorize, e não espere valorização do outro. "Quando desenvolvemos nossa autovalorização, automaticamente, construímos uma autoimagem positiva. Começamos a nos sentir merecedores de nossas de vitórias, sucessos, conquistas e vivemos em um estado de automotivação mais sólido". E  passamos essa credibilidade às pessoas de nosso convívio, ou seja, a todo o Universo.  

Nós seres humanos temos o hábito de valorizar só o que perdemos. Por que não valorizarmos às pessoas em vida?  O Milton recebeu algumas homenagens em vida, lembro de algumas, mas não esqueço de uma do sindicato dos logistas de Caiapônia, inclusive, feita por um de seus amigos, que ele ficou muito agradecido.  Não esqueço da melodia que tinha como fundo musical - "Esse é o Cara!", música de Roberto Carlos.  Ele amou. Saiu feliz do evento! 

É claro, que depois da morte, também é importante. É uma forma de lembrar e agradecer aquela pessoa pela sua representatividade em vida!  Mas nada se compara a uma homenagem em vida!!





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