Nossa vida foi feita de pequenos, médios, grandes acertos e, também, desacertos. E dentre os poucos ou grandes feitos realizados, meio a correria da vida, alimentados pela esperança e pela
grande vontade de crescer e avançar, Milton sentia que havia conseguido atingir parte de seus objetivos.
Sem ambição. Nada era desmedido! Nada de luxo! Nada vindo da pauta e dos padrões dos outros, mas do seu desejo - natural e dinâmico de viver. Que, sempre, via motivos para celebrar as suas e as nossas vitórias.
E independente do tamanho de cada uma, demonstrava alegria por aquilo que ele ou nós, nosso filho ou nossa filha, netos, familiares, amigos desejávamos e conseguimos conquistar.
E foi com essa demonstração de prazer e de contentamento por parte dele que nos motivou a nos autovalorizarmos, e as pessoas reconhecerem em nós o nosso valor, também; por tudo que éramos e passamos para chegarmos até aqui.
O Milton, embora, fosse muito preocupado com os problemas, do dia a dia, procurava não ficar muito focado naquilo que o decepcionava. Preferia esquecer. Batia os pés, tirava a poeira e bola para frente! Amanhã é outro dia 🙂. Agradecia a Deus pelo que tinha conseguido alcançar e continuava a caminhada.
Tinha algo natural que eu o admirava muito, e com certeza, todos que tiveram a oportunidade de conviver com ele, também - que era a graça de celebrar as suas conquistas pessoais, as dos familiares, as dos amigos e as dos colegas. As dos nossos filhos e netos, então, seus olhos brilhavam de contentamento.
Não esqueço da sua felicidade quando nossos filhos formaram e quando me formei também. Quando passei de beca pelo corredor, seus olhos brilharam. Ele admirava o curso de Letras e tinha vontade de fazer.
Gostava de Literatura, e tinha muita afinidade com os poetas e literatos até mais do que eu.
Quando eu estava escrevendo o meu primeiro livro, demonstrava entusiasmo, receptividade e paciência ao ouvir as minhas leituras, e isso só me recarregava de energias. Lembro - me que pensamos até na capa; no começo, pensamos na imagem de uma borboleta pousando em uma flor, fazendo uma analogia com o título do livro e com a sua metamorfose. Mas depois, pensamos em outras. A editora disse que iria elaborar duas opções de capa, e depois escolheríamos. Mas achamos que, embora, bonitas, não eram bem o que a gente queria.
Aí, depois que ele já havia partido, a moça da editora, me disse, porque não escolheria uma de minhas fotos, e optei por uma foto dele pescando com os netos, e achei linda.
Independentemente do que fosse, ele vibrava, festejava... não com festa, mas com uma alegria radiante. Poderia ser profissionalmente, quando fazia uma boa defesa no Tribunal do júri, nas ações ganhas ou algo que havia conseguido realizar.
Quando terminava de quitar algo - a casa própria, um carro, uma fazenda - tudo, nas vitórias políticas, nas realizações de pendências jurídicas ou politicas, etc, e mesmo não sendo religioso, sempre, dizia: graças a Deus.
E foi Deus, eu tenho certeza, que nos ajudou. Sem Ele não teríamos conseguido chegar até aqui. Quando olho para trás, posso enxergar cada passo, cada decepção e cada vitória, e com a experiência que tenho, hoje, não sei se conseguiria fazer o mesmo caminho de volta. Acredito que nem o Milton conseguiria.
"Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários". ( Heraclito)
Não foi fácil! Mas como disse Bráulio Bessa, o poeta nordestino, "o futuro é obscuro/e às vezes é no escuro/ que se enxerga a direção". E, com certeza, foi.
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