segunda-feira, 7 de março de 2022

A nossa casa

Desde criança, atribuímos valores sentimentais aos objetos e também aos lugares. Quem não se lembra dos primeiros brinquedos, dos primeiros livros e cadernos que tiveram? E de lugares ? A primeira casa, a primeira escola... a primeira viagem... 

A nossa casa, então, é como se fosse o nosso primeiro berço - não esqueço de que, quando era criança, morávamos em uma fazenda, e meu pai resolveu arrendá- la, e nunca mais voltamos naquele lugar, durante todo o tempo do arrendamento... cinco anos...E para uma criança foi tempo demais... não esquecia da casa, da bica d'água e do quintal, principalmente - cheio de árvores frutíferas antigas, com muitos pássaros, que aproveitavam as frutas do tempo...manga, laranja, jabuticaba, jambo, mexerica, cajus, etc. 

E para onde mudamos era um lugar novo que não tinha plantações comuns dos quintais velhos. Para começar, a água era de cisterna...meu pai tinha que puxar a água do poço com um balde...não parecia fazenda. Então, "morria de saudade" da antiga Fazenda Velha do Arroz, com bica d'água, quintais sombrios, até macios de tantas folhas secas das velhas mangueiras e jabuticabeiras, enquanto na nova muito sol.

Assim, com certeza, não esquecerei, jamais, da nossa casa também em Caiapônia. Que fica na avenida Araguaia, número 19. No centro. Onde vivi quarenta e dois anos com o meu saudoso marido e com os nossos dois filhos! É uma casa simples, espaçosa, mas, em meados de 1980, foi uma das melhores casas da cidade. Hoje, está velha. Fizemos apenas duas reformas. 

Com certeza, os próximos moradores irão falar que aquela casa foi nossa. Seu quintal é imenso! Cheio de goiabeiras. Ah, quantos doces e geleias, eu fiz. Com certeza, sentiremos saudades dos momentos bons que ali passamos.

 Tínhamos um projeto de construirmos uma "senhora casa", com área de lazer, piscina e tudo mais. A planta já estava pronta, e logo que as chuvas passassem, iríamos começar. Eu não esqueço, que o Milton, sempre, me dizia: "Nilva, essa casa vou fazer para você". 

 Sempre, cobrava dele uma casa mais confortável para podermos receber melhor as nossas visitas. Mas, na
verdade, ele nunca se preocupou muito. Para ele, aquela casa estava "passando de boa". Não tinha a mínima vaidade com essas coisas. Queria mesmo era comprar outra fazenda. 

Agora tudo perdeu o encanto. Vou na fazenda, tbém tudo está triste. Tudo perdeu o valor para mim. Como disse minha filha : "Pensei que nunca venderíamos aquela "casa" de Caiapônia, ficaria lá para sempre. Mas não tem mais sentido continuarmos com ela, é como aquela mesa que perdeu o pé...com a perda do meu pai, ela ficou manca". 

E interessante essa comparação dela, com a minha: com a falta dele, sinto que perdi tbém um membro. Perder o companheiro é como perdesse um lado do seu corpo. O Milton sempre me deu muita segurança, era muito independente, muito trabalhador e tudo isso me passava grande expectativa de vida cada vez melhor, além de muita esperança. Junto dele, sentia que crescíamos e vivíamos em paz. 



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