sábado, 31 de julho de 2021

28-Só o tempo dirá

  A vida pode mudar                   
                       velozmente
Como as nuvens no céu
Se você registrou, a lembrança ficou 
Se não, em segundos, não registra mais.
                
A vida pode mudar
                       temporariamente
Com o preço do amanhã
Com a leitura da poesia
Com a carestia do dia a dia
E com a própria fantasia.

A vida pode mudar
                      Diuturnamente
Quando a gente muda
De janeiro a dezembro
De segunda a domingo

A vida pode mudar
                      impiedosamente
Quando não há alegria
Quando não há esperança
E quando não se tem fé



Velozmente  
                                 Ou lentamente
Temporariamente 
                                 Ou diuturnamente

Só o tempo poderá dizer
         Se foi.... Se será....

Estrondosamente


                              Ou  silenciosamente.
Mas muda ...se você mudar.





A morte da flor

Cada um é um ser raro.... especial

Hoje, lembrei- me de um texto, que há muitos anos, li para meus alunos na sala de aula.
O texto narra a história de um pai que deu de presente para sua filha um lindo vaso de uma planta rara, que dava belíssimas flores. 

E a filha com os grandes encargos do dia a dia, esquecia de regar a sua planta, olhava de relance, lá estava bonita, passava, até pensava, que precisava de regar, mas acabava esquecendo, um dia, mais outro, mais outro, mais outro, passou uma semana, duas, três, quatro...um mês; percebeu que sua linda planta de flores vermelhas estava murcha; pensou deve ser o calor dos dias anteriores ou o vento daquela manhã, aproximou do vaso, e não acreditou no que estava vendo, sua planta estava toda seca, galhos, raízes, tudo. Estava morta

 Então, foi dizer ao pai que seu belíssimo vaso que ele lhe tinha dado havia morrido. Seu pai, sem querer ofendê- la, apenas, lhe disse: "pois é, e, agora, não posso fazer nada, não posso lhe dar outra, porque aquela era o último exemplar daquela espécie". 

Era  única, assim, como seu marido, seus filhos e sua mãe, e que se um deles morrerem, ninguém poderá substituí-lo. 

E, assim, pensei... mesmo tendo a consciência plena de que cada um de nós é único; lembrei- me dos meus entes queridos que já se foram. Ninguém, mas ninguém mesmo poderá substituir meu pai, a minha mãe e, finalmente, o meu marido. 

Cada um é um ser raro, especial. E o traço, que cada um deles torna especial, é a diferença que cada um traz consigo. Diferenças essas que as marcam em um contexto restrito de pessoas ou não. Mas que os faz ser o José, meu pai, a Esmeralda, minha mãe, e o Milton, meu marido. 

Milton, há uns três meses, passou para o plano espiritual. E, às vezes, é difícil aceitar a morte, de repente aquela pessoa que tínhamos ali, sempre, junto de nós, animado, cheio de planos, é acometido por um vírus, e sai da nossa vida, num dia que não foi previsto, e vai.

Conversando com minha filha, que fica indignada com as omissões de certas pessoas perante os protocolos que protegem a vida ou com o meu filho que é mais estudioso da Bíblia, eu fico a questionar o sentido da vida, depois que um ente querido morre.

Não é muito fácil aceitar... Só Deus e o tempo para nos conformar.

terça-feira, 20 de julho de 2021

24-Final de tarde... e o grito do silêncio

Há uns cinco meses da partida do vovô mais coruja, em um finalzinho da tarde de um sábado, momento em que o sol já começava a se ocultar, no horizonte; meus filhos, minha nora, meus netinhos e eu chegamos à fazenda, para passar uma semana de férias com as crianças, e ver como as coisas estavam por lá.

Logo que chegamos... eu fiquei a observar tudo, como sempre fazia, quando ia com o Milton. Não foi a toa que Da Vinci dizia que “os olhos são as janelas da alma”, e quando é do dono tem algo especial. Não é a toa, que os agropecuaristas dizem que é "o olho do dono que engorda o boi"!

E em poucos olhares, percebi que os meus hibiscos, também, tinham sofrido com a nossa falta; atacados pelos pulgões, foram impedidos da brotação das suas flores. Minhas roseiras, que plantei em homenagem a minha sogra, a pedido do Milton, estavam cobertas de cachos de rosas, algumas já secas, outras novas e outras em botão, seguiam o seu destino, apesar das formiguinhas serem atraídas pelo cheiro das mesmas, e ficarem rendadinhas de picadas delas. Só as minhas espadas de São Jorge, de bordas amarelas, na entrada da nossa casa, conhecidas por purificarem o ar do local, e por promoverem uma boa produção de oxigênio à noite, não pareciam estar nem aí se esqueceram de regá-las com frequência, pois preferem lugares secos, e continuavam exalando o cheiro de suas flores, que misturava ao vazio que parecia tomar conta de tudo daquele lugar.

Os pés de Jasmim do Caribe também não ficaram para trás. Suas flores e seu perfume me traziam
ele de volta. Ah ..."queixo-me às rosas /Mas que bobagem / As rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti"

Às flores do Jasmim do Caribe eram as preferidas do Milton. Um dia, passando pela rua de carro, viu um pé de jasmim carregado de flores, e me disse que em tal lugar tinha uma árvore de flores brancas lindas, que formavam um grande buquê. Interessante, que ele nunca deu muita importância por flores, e essas chamaram sua atenção. 

Realmente, gostei muito delas também. Foi encantamento a primeira vista. Até aquele dia, nunca tinha as percebido.  Ficava na porta da casa de uma amiga, então, pude ir lá lhe pedir alguns galhos para plantar; plantei umas quatro mudas - fáceis de pegar... desenvolveram rapidamente, e suas flores, além de bonitas, muito perfumadas. E logo floriram e continuam florindo. Milton as apreciava muito.

Então, continuando com a observação durante a chegada... quando adentramos a varanda, o silêncio era tanto, gente, que chegava a gritar, transformando em um personagem que substituía o ser que não estava mais ali, mas que nos acompanhava por onde andávamos. 

Sua voz alta, suas risadas com os netos ecoavam no meio do silêncio da noite, nos trazendo a sua presença e preenchendo os espaços, ali vazios, sentado na ponta da mesa da varanda, alegre ou pensativo, ou preocupado e cabisbaixo...ou  deitado no sofá da sala ou sentado na cadeira de balanço do vovô, como disse meus netinhos. 

Suas cantorias, no final da tarde, ali perto da bica. Seus passos ligeiros, andando para lá e para cá, me chamando, às vezes... sem eu poder escutar...  só virou lembranças.

Olho para o lago que ele pescava, o vazio também ocupou aquele lugar que assentava. Até montado, no seu cavalo, parece, que ele está. O seu carro de boi empoeirado, o seu engenho, a nossa casa, na cidade, cada dia mais velha, tudo perdeu o valor para mim. Seu violão, seu chapéu de lona, suas roupas, no guarda- roupa, preferi ir doando, aos poucos, mas muitas, ainda, estão lá. 

Acabei constatando algo que eu já sabia, mas não tinha percebido com tanta clareza, como agora: o que faz a beleza, a alegria, até a própria energia do lugar não é o local...e sim, as pessoas... Tudo, agora, acabou a importância. 
Por isso, muitas pessoas vendem as coisas, logo que os pais morrem...o que era importante não era o lugar, não são os bens, são as pessoas. E tudo perde o valor, quando elas vão embora. É como diz Chico Buarque: "tem dias que a gente se sente como quem  partiu ou morreu junto".

 Nunca imaginei que fosse falecer tão cedo! Pensava, sempre, que viveria como a sua mãe, até os oitenta e tantos anos!! Não podemos duvidar dos desígnios de Deus. Todos nós, um dia, mais cedo ou mais tarde, iremos partir. E essa partida não é agendada, ninguém sabe o dia e nem a hora. Só sabemos que vamos.




domingo, 18 de julho de 2021

7 Profissão-Formatura - oficialmente advogado ( capítulo 7)

Fotos da formatura
Dezembro de 1978

Agora, sou oficialmente advogado! 

Hoje, realizei um sonho de toda a minha vida. Recebi a minha carteira de advogado. Ser advogado foi o meu primeiro pensamento, quando tive consciência do que é uma profissão, e  uma ciência para estudar, para acompanhá-la por toda vida.

Foi uma seção chata, pessoas discursando, monotonamente, coisas que não interessam ao advogado moderno. 

Ainda perdura na consciência de quase todos os estudantes de Direito, aquele formalíssimo acadêmico e rebuscado, preocupando mais com a forma do que com a essência.

Notei muita falta de coerência nas palavras do orador que representou a turma no compromisso de hoje.
Hoje, vivo uma nova fase em minha vida. Espero poder lutar.
                Goiânia, 30/05/79
(Foto da carteira de advogado)

Lembro- me bem desse dia, chegou feliz, me abraçando e dizendo:  "Agora, sou oficialmente advogado, minha querida! "

Recém- formado em Direito 

Em dezembro de 1978, formei em Direito, e em julho de 1979, eu, minha esposa e meu filho mudamos para Caiapônia para eu ser advogado, apesar de nunca ter entrado em um escritório de advocacia, e jamais ter conversado com um juiz, promotor, delegado ou advogado.

Momentos de ansiedade
* Comarca sem juiz
* Pouco serviço

Hoje, está um dia nublado, nuvens pezadas entristeceu o céu. Estou novamente no meu escritório de advocacia, sentado, estudando e esperando que algum cliente desaventurado ou injustiçado venha até mim para contratar os meus serviços profissionais.
Neste final de semana, recebi a visita de minha mãe, de minha tia e de meu irmão Vicente. A visita foi breve, e a monotonia voltou novamente nesta cidade. 
Às vezes, sinto muito só aqui. Sinto vontade de mudar para perto de minha família ou vê-los mais amiúde, mas a distância, com as estradas ruins,  parece ser tão grande que chego a desanimar. 
A tarde vai chegar, e logo, a noite...outro dia virá. Mas parece que tudo continua como está. Tudo quieto, involúvel, estático, nesa cidade, ao pé da serra do Gigante Adormecido. 
(16/10/79)

Hoje é segunda -feira (19/11/79), o tempo mudou- se de muito quente, para uma temperatura agradável, isto depois da chuva desta madrugada.
A cidade continua a mesma, quieta, pacífica e comentada. Estamos sem juiz, por isso ficou mais difícil advogar. Temos que ir a Jataí para despacharmos nossos processos.

Está aproximando o final do ano. É preciso ganhar dinheiro, é preciso gastar. Será o primeiro Natal que passarei depois de deixar a faculdade, e nesta cidade, juntamente com a minha família.
Ainda há muitas coisas para viver nesta cidade, nesta região.

Estamos no mês de março (1980), e ainda não foi definido o problema do juiz para assumir a comarca de Caiapônia. 

Durante estes três meses que passaram, o serviço não foi abundante. Não sei se é a falta de juiz ou a falta de serviços, que está ocasionando esta paralização. Preciso trabalhar, preciso preencher o tempo que está ocioso.

Ultimamente, não estou conseguindo estudar, não sei se é devido ter lido quase todos os livros, ficando assim monótono o estudo.
Preciso comprar mais livros para estudar / pesquisar e aplicar  o resultado em casos práticos.

Apesar de tudo, eu tenho certeza que vencerei. 

(Um dos momentos mais difíceis na vida de um recém- formado é quando ele vai em busca de uma oportunidade no mercado de trabalho. 

Muitas dúvidas e receios fazem parte dessa fase; afinal, ele não conhece na prática o que aquela profissão exige, só aprendeu teorias e poucas aulas práticas, próximas de um professor para tudo que precisar. E aí saber lidar com alguns possíveis ‘nãos’, que a própria inexperiência vai lhes mostrando, além da competitividade e insegurança, daquele início da carreira, não é e nunca foi fácil, principalmente, para o recém-formado pobre, porque quando é rico é diferente. No começo, a família ajuda, e tudo fica bem. Mas o pobre, não, tem com quem contar. É só com ele).

Além de recém- formado, era recém-casado, recém - pai, e recém-morador - em uma cidade nova. Então, é muita coisa para se adaptar.


Depois de vinte anos de formado

Este é um ano importante para mim, uma vez que, neste ano, estarei completando vinte anos de formatura.

Há vinte anos, um jovem com apenas vinte e seis anos de idade, já casado e com um filho de cinco meses de idade, no colo, recebia seu tão esperado diploma de bacharel em direito, o que me autorizava a ser advogado, profissão que lutei acima dos meus limites e de minhas forças para conseguir, através da Faculdade Federal de Direito.

Neste ano, também, meu filho está completando vinte anos, e já está cursando o segundo ano de 
Medicina na UFJF. A minha filha que está com 17 anos, vai fazer cursinho para o Vestibular para Direito, aínda, neste ano 

Chego aos vinte anos de formado, mais maduro, experiente e mais velho.
Os sonhos da juventude, agora, se resumem em trabalho, política e ser fazendeiro.

Como advogado, miltei, diariamente, no fórum desta região e nos tribunais do meu estado, defendendo os interesses dos meus clientes, tanto na advocacia cível, quanto na criminal. 

Sempre, levava serviço para casa. Era comum ficar, assim, lotada de trabalho. Muitas vezes, ele dizia que no escritório não tinha tempo! E como as defesas eram feitas “a punho”, exigia silêncio. 

Depois que comecei a ajudá-lo a fazer correção, ele passou a levar mais trabalho para casa, digitava, e me dizia: “Nilva, corrige aqui para mim os erros gramaticais, é pouca coisa! “ E ficávamos até meia noite trabalhando. Ele lia e me dizia: “agora, sim, ficou um texto limpo, bonito, enxuto !” Era extremamente exigente com essa parte. Se fosse um processo longo, ele imprimia as folhas para ser corrigido! 


26/02/2021 14:00

OAB-GO LAMENTA MORTE DO ADVOGADO MILTON FERREIRA DA SILVA

É com profunda tristeza que a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO) comunica o falecimento do advogado Milton Ferreira da Silva, aos 68 anos, ocorrido nesta sexta-feira (26/02), vítima de Covid-19.

Com larga experiência na advocacia pública, especialmente na área administrativa, foi procurador do município de Caiapônia em várias gestões e atuou como advogado por 42 anos.

Neste momento de luto, a OAB-GO, por meio de toda Diretoria e Conselho Seccional, externa condolências aos familiares e amigos por esta triste perda e roga a Deus para que conforte a todos."

05/01/22
Quase um ano sem você
Quase um ano sem você, meu saudoso esposo! Como a sua falta me dói! E a saudade aumenta cada dia mais! 

Aqui, na mesa de nossa casa, era comum ficar, assim, lotada de trabalho. Muitas vezes, ele dizia que no escritório não tinha tempo! E como as defesas eram feitas “a punho”, exigia silêncio. 

Depois que comecei a ajudá-lo a fazer correção, ele passou a levar mais trabalho para casa, digitava, e me dizia: “Nilva, corrige aqui para mim os erros gramaticais, é pouca coisa! “ E ficávamos até meia noite trabalhando. Ele lia e me dizia: “agora, sim, ficou um texto limpo, bonito, enxuto !” Era, extremamente, exigente com essa parte. Se fosse um processo longo, ele imprimia as folhas para ser corrigido! 

Esse registro foi feito uns vinte dias antes dele partir ...um tinindo com o dedo, dizendo para a família que estava tudo bem. Não estava. Mas ele pensava que sim! Que esteja gozando do descanso eterno!

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Viver é ( livro)


Cada pessoa guarda consigo
Uma caixa de segredos
Sonhos, aspirações
E também muitas frustrações.

Mas independente
Das diferenças sociais
Culturais e econômicas
Cada uma carrega dentro de si
A esperança de que um dia
Tudo vai melhorar

Seja no dia que formar
Seja no dia que casar
Seja â na safra da soja
Do milho, do feijão
Da sua empresa
Seja no amor
Ou seja, quando
Esta pandemia terminar


"E poder lembrar
Que um dia orou 
Para ter uma vida assim"

Em que as lutas o/a fez grande
E pôde torná-lo (a) melhor
E agradecido (a) pelo que tornou
E que pode se quiser, tornar.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Baianos em terras goianas

Em Caiapônia há muitos nordestinos, uns cearenses, outros pernambucanos, mas mais, predominantemente, baianos de Correntina, Barreiras e Cocos. Que chegaram aqui por volta da década de quarenta/ cinquenta em busca de melhores dias para si mesmos e para a família. Vinham de "paus de araras", transporte feito em caminhões com bancos de madeira na carroceria, descobertos ou cobertos de lona preta.

Tive o prazer de conhecer vários deles, e todos que conheço são muito trabalhadores e honestos, dentre eles uma baiana, dona Norma e um baiano, Sr Rochinho, de Cocos. D. Norma era uma morena trabalhadeira, de sotaque bem característico, do lugar de onde veio, muito séria, mas de um sorriso largo, quando tinha motivo, e de uma sensibilidade a flor da pele, devido as durezas da vida.  
Foi minha lavadeira e passadeira por muitos anos. Nunca encontrei alguém para passar uma roupa com tamanha maestria as calças de linho com vinco do meu marido. Sr Rochinho foi trabalhador rural, lá em nossa fazenda. Muito trabalhador também. Caçador de onça. Gostava de uma pinga com raiz prá curar de uma tal dor na coluna que o deixava quase entrevado "que só"!

Dona Norma veio de lá para cá com o marido e seus seis filhos. Logo seu marido deu saudade da sua terra Natal, e em um dia sem avisar à família -  "estava aqui muito avexado e foi se 'imbora', donde foi ninguém sabe... ninguém viu", deixando dona Norma chorosa; sempre que falava nele, chorava... reclamava... filharada pequena, labutava com a vida, trabalhando em várias casas de famílias para "dar conta de pôr o que comer dentro de casa". Saía cedo e só voltava a noite. Os filhos maiores cuidavam dos pequenos.

Depois de muitos anos sem saber por onde andava seu marido, ficara sabendo que o seu esposo, que tanto o amava, havia falecido. Chegou...me contando...chorosa... disse que ninguém ia despedir dele pela última vez, porque ninguém 'tinha dinheiro' (linguagem entre os dentes 'thinha dhinheiro'). Mas nunca quis arrumar outro casamento. "Casá prá que, só prá dá trabalho e bolir com meus filhos".  

Depois de certo tempo, arrumou um emprego de merendeira, numa escola do município, trabalhou alguns anos, e aposentou- se, tinha problema sério cardíaco, mas não foi prá menos, com todos os sofrimentos, do dia a dia, dois filhos morreram de acidente de moto, deixando - a "partida em vários pedaços", como mesma dizia.

Há muito tempo não os vejo, a última notícia que tive notícias deles, Sr Rochinho esteve "perrengue", mas que estava melhor! "Véio", como ele diz, cada dia está com uma "macacoa". Agora, a dona Norma, infelizmente, Deus a levou.









Meu povo...


Trazer o quê foi vivido pelas gerações passadas, através de relatos e também da fotografia, nos permite, além de passar conhecimentos e mostrar práticas de um tempo que ficou para trás, aos jovens e crianças; homenagear também àquelas mulheres e àqueles homens que aqui viveram; quando não existiam rodovias asfaltadas, luz elétrica, água encanada, planos de saúde, aposentadoria, escola para todos, e um "monte de coisas" que a tecnologia e a eletricidade tanto facilitaram a nossa vida.

Tempo de vida difícil, trabalho grosseiro, pesado, realizado sob o sol escaldante ou chuva, proveniente da falta de maquinários e eletrodomésticos, e por isso, as famílias tinham que  preparar a terra com os próprios braços, com a ajuda apenas da enxada ou da foice sobre os ombros; plantando ou colhendo para o próprio sustento da família. De mulheres que lavavam roupas nos córregos, com sabão de "bola" ou de diquada. E ali lavando as roupas, os pensamentos vinham de uma vida melhor para seus filhos... quem sabe poder formar e ter uma vida melhor. Que catavam o feijão sujo lá da roça de "toco", para cozinhar no fogão a lenha, que pegavam lá no mato para cozinhar a comida, nas panelas pretinhas de carvão, que devido ao cheiro de fumaça deixava a comida defumada, e por sinal muito gostosa.

Famílias essas oriundas das classes menos privilegiadas de diversas partes do país. Que, embora vivessem de forma precária - muito sofrimento, muito trabalho, falta de acesso a quase tudo, aínda, trazem registrado em suas memórias nítidas lembranças, até saudosas, por incrível que pareça, de cada momento que aqui passaram. E... fazem questão de contribuir; e, nos fazem de forma tão carinhosa e expressiva, estabelecendo, desse modo, uma relação importante de informação do passado, do jeito que viviam, às gerações que não conhecem.

Embora, sejam imagens reveladoras, por trás das residências paupérrimas e vestes surradas pela lida com a terra e com os animais... revelam uma história de um povo simples, sofrido, que vivia na terra e da terra. Que ali enterrou o seu umbigo, no mourão da porteira, com a esperança de ser rico, e não sair dali jamais!! 

Povo, que logo cedo, pedia aos pais, tios e avós as suas bênçãos, que respondiam" com um "Deus te abençoe". Que jogava o dente mole, no telhado, e dizia: que daria um dente podre para ganhar um são. Que cobria o espelho em dias de chuva. Chuva que era verdadeira tempestade. Tantos trovões e relâmpagos! Não tinha esse  "filho de Deus" que não pegava a sua Bíblia ou o seu Evangelho e orava até a chuva cessar.

Povo que tinha os pés parecidos uns "cascos"... meu avô paterno não conhecia nem dinheiro... gostava muito de caçar, andava descalço pelo mato, e não se espetava seus pés com nada, que eu me lembro, não reclamava. A mão parecia mais uma lixa... lembro de meu pai e tios... mão grossa de calos da lida manual com as ferramentas.

Que fumava cigarro de palha, e não tinha medo de ficar doente, embora soubesse que lhes podia causar tuberculose, doença que matava naquela época. Hoje, não mata mais. Mas tem um tal de Corona vírus, que vem matando tanta gente, e suas famílias não podem nem se quer enterrar seus mortos.

E quem pensava que seus pais e seus avós tinham vida ruim, não sabia o que estava falando... 


Obra sem nome

Há obras que já nascem
Com títulos... e subtítulos
Mas outras somente
Depois de finalizadas.

Quando o título vem primeiro
O autor fica meio que refém
Daquele nome, daquele começo
Como se o tivesse batizado
Assim, como fazia o grande 
Escritor José Saramago.

Eu, não, até tento, mas não consigo
Deixo por conta da própria obra
Sua incorporação metaliterária.
Às vezes, até mudo o título
Depois da obra criada

A minha inspiração para escolher 
Um bom título não é programável 
Aos poucos, fui ficando desleixada
Chega de seguir normas
Que não nos levam a nada.

Foi pensando assim
Que me encorajei
A escrever o meu primeiro livro
E deixar as críticas rolarem

Como disse Aristóteles
Só existe uma maneira
De evitar críticas:
Não fazer nada
Não dizer nada
E não ser nada.

Então... sendo assim
Não vão me esquecer
De bem ou de mal. 
Vão de mim falar.









quarta-feira, 14 de julho de 2021

13-Houve um tempo

Houve um tempo em que eu abria a minha janela, e via a alegria de viver entrando por ela, e hoje, não a vejo mais. 
Nada, parece, ter mudado de lugar.  Tudo está do mesmo jeito. Lá estão as mesmas árvores, as mesmas curicacas e araras que sobrevoavam a minha casa, os mesmos bem-te-vis dos bambusais, a mesma primavera que enfeitava aquele lugar. 

Mas... não há a mesma expectativa de vida e a mesma graça que trazia dentro de mim. Nada me encanta mais.. Mesmo em época de chuva, de pastagens verdinhas...Tudo coberto de flores e folhas, parece sem vida. Sem sentido! 

Tudo mudou o ritmo. Todas as manhãs, levantávanos bem cedinho, e com entusiasmo de sempre, depois do café da manhã, ele saia pelo campo a pastorear, e eu ficava com a certeza de que logo voltaria... e voltava.

Às vezes, chegava cansado, mas não reclamava. Almoçava, tomava seu café quente, e ia fazer a sua sesta. Antes ligava a TV, e logo dormia no sofá da sala. Era muito raro não dormir após o almoço. Se tivesse alguma visita em casa, ele dizia: " venha para cá, vai conversando... eu vou dar uma cochilada". 

Depois de alguns minutos descansando, levantava, para continuar com a lida do dia, e, às vezes, me dizia ao sair:  "A cabeça quer, mas o corpo, não! Mas não posso fazer gosto ao corpo". Era o corpo dando sinal de cansaço, e saía animado outra vez.

Hoje, abro a janela e se vejo as nuvens avermelhadas, lembro- me que ele me dizia: "nuvens vermelhas é sinal de frio, e já se preocupava com as pastagens, que poderiam secar". Outras vezes, ouço a passarada fazendo a maior festa nos bambusais, e me lembro também do meu tempo de criança, nos laranjais do quintal da fazenda dos meus pais, que também já passaram para o lado de lá. Tudo vem num emaranhado de lembranças.

Ouço também o canto do galo velho esporudo, cantando fanhoso, correndo dos outros galos, mas, ainda, parece divertir com a galinhada; as galinhas que cacarejam, mas não botam mais; o cachorro que late, mas não morde; o gato que não pega mais ratos e os beija - flores, que beijam rosas.

Ouço também o canto triste das seriemas desesperadas... não sei com que, e inquietam mais a minha saudade e a falta dele. 

Como dizia Cecília Meirelles, "Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino". Mas não me sinto feliz, porque quem olhava tbém da janela não está  olhando mais.

domingo, 11 de julho de 2021

A sua biblioteca

Sua biblioteca

Milton tinha um grande acervo de livros jurídicos e literários, que foi comprando um a um, todo mês um livro, que foi testado por ele, como bens a partilhar. 

Realmente, para ele, os seus livros eram considerados bens de grande valor; principalmente, por terem sido adquiridos com muita dificuldade, em uma época que tinha menor poder aquisitivo, e começou a exercer a sua profissão.

Alguns jurídicos já estão desatualizados. Foram comprados, quando mais precisava preparar para tornar de fato o advogado que foi, "lá pelos idos de 1978/1979". Quando a busca pelo conhecimento restringia-se às fontes disponibilizadas pelas bibliotecas, pois se constituía em uma única fonte de informação. 

“Na atualidade a biblioteca tem valor pelo que serve e não pelo que guarda na dimensão do verdadeiro e do belo [ . . . ].” (CURY; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2001 p. 95). Hoje, o seu acervo também funciona como fonte de informação. Todavia, não se constitui mais como a única. Existem os documentos virtuais que podem ser acessados através de um único computador e que não precisam necessariamente estar localizados no espaço físico da biblioteca. Com a tecnologia abriu-se a possibilidade dos usuários acessarem os documentos e catálogos em suas próprias casas.

A informação deixou de estar estritamente ligada ao livro para ser uma entidade presente em vários suportes. “A informação não é avaliada pelo suporte físico, mas sim pela sua utilidade, e ela agora pode ser reprocessada ao gosto do freguês.”(SILVA; ABREU, 1999, p. 102)."
https://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/432/551.

Milton, sempre, foi um profissional estudioso!  A meu ver, um dos melhores advogados da região. Falo, sem medo de errar. Ainda, era aquele advogado que escrevia as suas ações jurídicas, sempre, "a punho", como dizia. Não copiava nada da internet, mesmo nos últimos tempos, quando encontramos tudo pronto. "Tinha tudo na cabeça". Era uma enciclopédia ambulante. Atuou em várias causas jurídicas, como ele dizia :nos Fóruns e tribunais do Júri.

Milton era daqueles advogados que tinham em seu escritório duas prateleiras cheinhas de livros. Mais de 500 exemplares, a meu ver. Mas não de livros que, apenas, enfeitavam a sua biblioteca. Era de livros que foram lidos. 

Sua biblioteca não era a das mais organizadas, mas tinha certa ordem. Primeiro, as coleções. Tinha várias. Não sei se por ordem dos autores mais consagrados, se por assuntos, se por tamanho, cores ou por frequência de uso ou aleatóriamente. Nunca tive curiosidade de perguntar. Mas pelo que eu conhecia dele, acredito que por assuntos.

Vasculhando a sua intimidade
Percorrer os livros de um ente querido falecido é um pouco estranho, invasivo e surpreendente, ao mesmo tempo; principalmente, quando a nossa intenção era procurar por diários que o mesmo deixou escritos. A gente nunca sabe o que vai encontrar, se vai nos agradar ou não. 

Eu senti como se estivesse vasculhando a sua intimidade, algo que aprendemos, durante toda a nossa vida, que seria invasão da privacidade. Mesmo sabendo que não estava mais ali,  sentia que era uma invasão mesmo. Interessante, mesmo depois que a pessoa não está mais aqui, tento manter aquele mesmo respeito que tinha por ele. E isso é importante para mim! 

A  escrita revela muito sobre quem somos. E depois de mortos, não podemos controlar nada, nem quem vê o quê, nem em que ordem ou contexto. Milton não estava mais ali para explicar por que preferia escrever em seus livros. 


Gostava de escrever diários

E... como eu sabia do seu costume, e tendo a intenção de registrar seus textos para editar um livro em sua homenagem; precisava buscar seus devaneios. Encontramos vários.

Ele tinha a mania de usar a última página dos seus livros, para escrever os seus diários, e descobrimos que a maior viagem que lhe empreendia era para dentro de si mesmo. "E, segundo Augusto Cury, o modo mais emocionante de realizá-la é lendo um livro, pois um livro revela que a vida é o maior de todos os livros. Mas é pouco útil para quem não souber ler nas entrelinhas. E descobrir o que as palavras não disseram..." Ah, por falar em viagem... preferia que ele estivesse viajando... seria tão maravilhoso... 

Leitor assíduo
 
Milton era daqueles bons leitores, que não deixavam passar nada. Sempre, gostou de estar muito bem informado, sobre vários assuntos. Era difícil um assunto sobre História Geral que ele não soubesse. Até da Bíblia, mesmo não sendo um religioso. Primeiro, porque tinha uma memória incrível, não esquecia nada. Segundo, porque lia muito, leu quase todos os clássicos sugeridos nas aulas de Português e dos Vestibulares. Ele me dizia que chegou a ler trezentos livros, quando fazia cursinho para o Vestibular. 

De vez em quando, às vezes, já tarde da noite, pegava algum livro, que levava para casa, folheava...pegava outro, lia um pouco, às vezes, lia um trecho para mim, e guardava o livro. 
Gostava muito desse trecho do livro de Rui Barbosa. "De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto".

 Era daqueles que tinham, na ponta da língua, os nomes e sobrenomes de personagens principais e  secundários dos livros literários. Quem o conheceu sabe que tinha uma memória e grande interesse pela cultura. 

Era também um estudioso do Direito, de Política, de História, etc. Todos os dias, tinha como hábito ler o jornal. Ultimamente, não lia mais o escrito, e, sim, pela TV. Tinha preferência pelos jornais: Os Pingos Nos Is na Jovem Pan.
(Foto dele lendo o jornal)

Foi no primeiro Domingo de Páscoa, sem ele, que escolhemos para folhear livro por livro de sua biblioteca. Foi um dia inteirinho...  de reflexões e de tristeza para mim e para os nossos filhos, pois tínhamos nada mais, nada menos, à nossa frente... do que seis caixas de livros, dessas grandes de supermercados, entre coleções de livros jurídicos, literários e outros; para ver se encontrávamos alguns dos seus escritos. 

Foi um momento de profunda reflexão para nós, sobre a transitoriedade da vida. Sobre o que fazemos aqui ou deixamos de fazer. Sobre aproveitar a vida ou não aproveitar. Sobre viver a vida do jeito que quer e não viver. 

Hoje estamos aqui.. Amanhã tem alguém vasculhando as nossas coisas. Eh vida! A vida é um sopro, por um descuido de nossa parte ou do outro, estamos viajando.

E viver já foi a melhor coisa que Deus nos deixou. E hje nem isso podemos fazer mais.

E... não fomos preparados para entender o tempo de Deus e nem os seus mistérios, porém, sabemos que não cabem a nós entender, mas aceitar... Não tem outro jeito!!

 







quinta-feira, 8 de julho de 2021

O quintal da minha avó é um guardião de memórias

O quintal da minha avó

Era um guardião de memórias

Eu me lembro que entre roseiras

Hibiscos, hortelã e flores do sabugueiro

Tinha uns pés de couve 

E um coxinho de cebolinhas verdes.


Seu quintal era uma farmácia

Ninguém pagava nada

E saia com as mãos cheias

Só lhe pagava com um sorriso

E com um "muito obrigada".


Minha avó era prosa

Tinha uma conversa agradável

Sua casa estava, sempre, cheia

De conhecidos, parentes e amigos


Sempre tinha algo 

Para lhes oferecer​

Antigamente era assim

Ninguém saía de lá sem provar

Seu café amargo, seus licores

E seus doces de caju, laranja

Ao som de uma vitrola antiga.















O quintal da minha avó é um guardião de memórias

Minha avó materna gostava muito de plantar. Seu quintal, na cidade, era todo plantadinho de várias espécies de plantas. Além das cebolinhas, pés de couve, remédios caseiros para quase todos os tipos de doenças, plantados em latas e coxinhos, também tinha grandes  árvores 'guardiãs de memórias", como: um cajazeiro, uma jaboticabeira e um cajueiro. Em seu quintal tinha também algumas frutas do cerrado, como um pé de gabiroba e um de  pitanga, que ela fazia questão de dizer "quem planta tem".

Lembro - me bem...Para ela era um prazer ter frutas, do seu quintal,  para oferecer aos parentes e amigos. Sempre que podia, fazia também licor das frutas mais aromáticas do cerrado ou não, como: jenipapo, jabuticabas, murici,  cajuzinho do campo e outras. Ela fazia também doces ou geleias das frutas.

Ela aproveitava bem as frutas do tempo. Ela mesma não comia muito doce e nem bebia licor, mas gostava de fazer para oferecer às visitas. Sempre que alguém lembra dela, fala dos seus deliciosos licores e do seu bom papo.

Tinha uma conversa agradável. Sabia muito bem receber. Sua casa estava, sempre, cheinha de gente. E, nunca, suas visitas a pegavam desprevenida, pois sempre tinha algo para lhes oferecer​. Ninguém saía de lá sem provar de todos os tipos de seus licores e doces ao som de uma vitrola antiga. Rsrsrsrs. E se o "sujeito" gostasse, saía de lá quase tonto...

É brincadeira....!! Mas quem não gosta de uma boa prosa, hein!! "De alguém que esteja totalmente presente de você, quando estiver na sua presença."

Uma das melhores sensações do mundo é saber que a sua presença realmente é algo que significa muito para alguém. E a única maneira de deixar que seus amigos saibam disso, é mostrar-lhes quando você está com eles. Sem estar com a televisão ligada, ou com o telefone, ou olhando no relógio...como hoje​.

Na verdade, hoje, são pouquíssimas pessoas que recebem visitas. O seu horário em casa é quase sagrado, é um momento para receberem as refeições, quando fazem em casa, ou para descansarem no final do dia. Ninguém tem muito tempo.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

25-O que conta, na vida, são as pessoas...

O que conta, na vida, são as pessoas...

Hoje, lembrei- me de um texto, que há muitos anos, lia para meus alunos na sala de aula. O texto narra a história de um pai que deu de presente para sua filha um lindo vaso de uma planta rara, que dava belíssimas flores. 

E a filha, com os grandes encargos, do dia a dia, tanto em casa quanto no trabalho, esquecia de cuidar da sua planta, olhava de relance, lá, sempre, estava bonita, então, passava... até pensava, que precisava de regá- la, como seu pai havia lhe recomendado, mas ela acabava esquecendo, e ia deixando para depois, amanhã eu rego... depois, depois... e o tempo ia passando... um dia, mais outro, mais outro, mais outro, passou uma semana, duas, três, quatro...um mês. E um mês, quando pensamos nos trinta dias, parece muito; mas quando pensamos que um mês é quatro senanas já parece menor. 

Um dia, percebeu que sua linda planta de flores vermelhas estava murcha; pensou que podia ser consequência do calor dos dias anteriores ou o vento daquela manhã. Mas teve, nesse dia, um certo impulso, e aproximou- se do vaso; porém, não acreditou no que estava vendo, sua planta estava toda seca, galhos, raízes, tudo. A planta estava morta.

Então, chorando... foi reclamar ao pai que seu belíssimo vaso de flores que ele lhe tinha dado havia morrido. Seu pai, sem querer ofendê- la, apenas, lhe disse: "pois é, e, agora, não posso fazer nada, não posso lhe dar outra, porque aquela era o último exemplar daquela espécie". Era  única, assim, como seu marido, seus filhos, seus irmãos e sua mãe. Se um deles morrer, ninguém poderá substituí-lo. 

E, assim, pensei... a falta de cuidado consigo mesmo e com o próximo, a falta, talvez, de iniciativa, de procurar um médico, o mais rápido possível, a falta de estrutura hospitalar adequada, a falta de empatia,  a falta de incentivo/ de recursos para as pesquisas científicas...tudo isso, levou ao caos da saúde, infelizmente.  Tirando o que é mais importante em nossas vidas - as pessoas. Assim, como a mulher que perdeu sua rara planta. 

E, a partir desse fato, lembrei- me das flores raras do meu jardim que tbém perdi, e que ninguém, mas ninguém mesmo poderá substituí-las. Todas eram únicas, raras e especiais ❤️

E o traço maior, que cada uma delas nos deixou embutido, nas lembranças, os torna especiais, pela diferença que cada um traz consigo. Diferenças essas que as marcam em um contexto bem restrito de pessoas. Mas que os fazem ser gente e não um número. 

Milton, há quase três meses, passou para o plano espiritual. E, às vezes, conversando com minha filha, que fica indignada com as omissões de certas pessoas perante os protocolos que protegem a vida deste vírus, que levou seu estimado pai e milhares de pessoas pelo país e mundo afora;  ou falando com o meu filho, que é mais estudioso da Bíblia, eu fico a questionar o sentido da vida, depois que um ente querido passa para o lado de lá.

A morte é uma viagem sem volta. Tão cheia de mistérios!Tão cheia de dúvidas!! Cada religião vê de uma forma. Há quem a veja como um fim. Outros já veem, apenas, como uma passagem - o fim apenas de uma experiência com determinado corpo. Uns acreditam que depois de mortos serão julgados pelos seus atos, na Terra, e, só assim... vão para o céu, purgatório ou para o inferno, e terão uma vida eterna.

De uma forma ou de outra, a ausência dói muito. E é ela que nos faz reconhecer a importância de sermos mais zelosos conosco mesmo e com o próximo. Só o zelo, a empatia, a gratidão e o amor nos deixam conscientes de que a nossa relação com aquele ente querido valeu a pena. 

Pense nisso. A vida é um sopro... quando você menos esperar, lá se foi a sua flor mais rara.