domingo, 11 de julho de 2021

A sua biblioteca

Sua biblioteca

Milton tinha um grande acervo de livros jurídicos e literários, que foi comprando um a um, todo mês um livro, que foi testado por ele, como bens a partilhar. 

Realmente, para ele, os seus livros eram considerados bens de grande valor; principalmente, por terem sido adquiridos com muita dificuldade, em uma época que tinha menor poder aquisitivo, e começou a exercer a sua profissão.

Alguns jurídicos já estão desatualizados. Foram comprados, quando mais precisava preparar para tornar de fato o advogado que foi, "lá pelos idos de 1978/1979". Quando a busca pelo conhecimento restringia-se às fontes disponibilizadas pelas bibliotecas, pois se constituía em uma única fonte de informação. 

“Na atualidade a biblioteca tem valor pelo que serve e não pelo que guarda na dimensão do verdadeiro e do belo [ . . . ].” (CURY; RIBEIRO; OLIVEIRA, 2001 p. 95). Hoje, o seu acervo também funciona como fonte de informação. Todavia, não se constitui mais como a única. Existem os documentos virtuais que podem ser acessados através de um único computador e que não precisam necessariamente estar localizados no espaço físico da biblioteca. Com a tecnologia abriu-se a possibilidade dos usuários acessarem os documentos e catálogos em suas próprias casas.

A informação deixou de estar estritamente ligada ao livro para ser uma entidade presente em vários suportes. “A informação não é avaliada pelo suporte físico, mas sim pela sua utilidade, e ela agora pode ser reprocessada ao gosto do freguês.”(SILVA; ABREU, 1999, p. 102)."
https://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/432/551.

Milton, sempre, foi um profissional estudioso!  A meu ver, um dos melhores advogados da região. Falo, sem medo de errar. Ainda, era aquele advogado que escrevia as suas ações jurídicas, sempre, "a punho", como dizia. Não copiava nada da internet, mesmo nos últimos tempos, quando encontramos tudo pronto. "Tinha tudo na cabeça". Era uma enciclopédia ambulante. Atuou em várias causas jurídicas, como ele dizia :nos Fóruns e tribunais do Júri.

Milton era daqueles advogados que tinham em seu escritório duas prateleiras cheinhas de livros. Mais de 500 exemplares, a meu ver. Mas não de livros que, apenas, enfeitavam a sua biblioteca. Era de livros que foram lidos. 

Sua biblioteca não era a das mais organizadas, mas tinha certa ordem. Primeiro, as coleções. Tinha várias. Não sei se por ordem dos autores mais consagrados, se por assuntos, se por tamanho, cores ou por frequência de uso ou aleatóriamente. Nunca tive curiosidade de perguntar. Mas pelo que eu conhecia dele, acredito que por assuntos.

Vasculhando a sua intimidade
Percorrer os livros de um ente querido falecido é um pouco estranho, invasivo e surpreendente, ao mesmo tempo; principalmente, quando a nossa intenção era procurar por diários que o mesmo deixou escritos. A gente nunca sabe o que vai encontrar, se vai nos agradar ou não. 

Eu senti como se estivesse vasculhando a sua intimidade, algo que aprendemos, durante toda a nossa vida, que seria invasão da privacidade. Mesmo sabendo que não estava mais ali,  sentia que era uma invasão mesmo. Interessante, mesmo depois que a pessoa não está mais aqui, tento manter aquele mesmo respeito que tinha por ele. E isso é importante para mim! 

A  escrita revela muito sobre quem somos. E depois de mortos, não podemos controlar nada, nem quem vê o quê, nem em que ordem ou contexto. Milton não estava mais ali para explicar por que preferia escrever em seus livros. 


Gostava de escrever diários

E... como eu sabia do seu costume, e tendo a intenção de registrar seus textos para editar um livro em sua homenagem; precisava buscar seus devaneios. Encontramos vários.

Ele tinha a mania de usar a última página dos seus livros, para escrever os seus diários, e descobrimos que a maior viagem que lhe empreendia era para dentro de si mesmo. "E, segundo Augusto Cury, o modo mais emocionante de realizá-la é lendo um livro, pois um livro revela que a vida é o maior de todos os livros. Mas é pouco útil para quem não souber ler nas entrelinhas. E descobrir o que as palavras não disseram..." Ah, por falar em viagem... preferia que ele estivesse viajando... seria tão maravilhoso... 

Leitor assíduo
 
Milton era daqueles bons leitores, que não deixavam passar nada. Sempre, gostou de estar muito bem informado, sobre vários assuntos. Era difícil um assunto sobre História Geral que ele não soubesse. Até da Bíblia, mesmo não sendo um religioso. Primeiro, porque tinha uma memória incrível, não esquecia nada. Segundo, porque lia muito, leu quase todos os clássicos sugeridos nas aulas de Português e dos Vestibulares. Ele me dizia que chegou a ler trezentos livros, quando fazia cursinho para o Vestibular. 

De vez em quando, às vezes, já tarde da noite, pegava algum livro, que levava para casa, folheava...pegava outro, lia um pouco, às vezes, lia um trecho para mim, e guardava o livro. 
Gostava muito desse trecho do livro de Rui Barbosa. "De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto".

 Era daqueles que tinham, na ponta da língua, os nomes e sobrenomes de personagens principais e  secundários dos livros literários. Quem o conheceu sabe que tinha uma memória e grande interesse pela cultura. 

Era também um estudioso do Direito, de Política, de História, etc. Todos os dias, tinha como hábito ler o jornal. Ultimamente, não lia mais o escrito, e, sim, pela TV. Tinha preferência pelos jornais: Os Pingos Nos Is na Jovem Pan.
(Foto dele lendo o jornal)

Foi no primeiro Domingo de Páscoa, sem ele, que escolhemos para folhear livro por livro de sua biblioteca. Foi um dia inteirinho...  de reflexões e de tristeza para mim e para os nossos filhos, pois tínhamos nada mais, nada menos, à nossa frente... do que seis caixas de livros, dessas grandes de supermercados, entre coleções de livros jurídicos, literários e outros; para ver se encontrávamos alguns dos seus escritos. 

Foi um momento de profunda reflexão para nós, sobre a transitoriedade da vida. Sobre o que fazemos aqui ou deixamos de fazer. Sobre aproveitar a vida ou não aproveitar. Sobre viver a vida do jeito que quer e não viver. 

Hoje estamos aqui.. Amanhã tem alguém vasculhando as nossas coisas. Eh vida! A vida é um sopro, por um descuido de nossa parte ou do outro, estamos viajando.

E viver já foi a melhor coisa que Deus nos deixou. E hje nem isso podemos fazer mais.

E... não fomos preparados para entender o tempo de Deus e nem os seus mistérios, porém, sabemos que não cabem a nós entender, mas aceitar... Não tem outro jeito!!

 







Nenhum comentário:

Postar um comentário