quarta-feira, 14 de julho de 2021

13-Houve um tempo

Houve um tempo em que eu abria a minha janela, e via a alegria de viver entrando por ela, e hoje, não a vejo mais. 
Nada, parece, ter mudado de lugar.  Tudo está do mesmo jeito. Lá estão as mesmas árvores, as mesmas curicacas e araras que sobrevoavam a minha casa, os mesmos bem-te-vis dos bambusais, a mesma primavera que enfeitava aquele lugar. 

Mas... não há a mesma expectativa de vida e a mesma graça que trazia dentro de mim. Nada me encanta mais.. Mesmo em época de chuva, de pastagens verdinhas...Tudo coberto de flores e folhas, parece sem vida. Sem sentido! 

Tudo mudou o ritmo. Todas as manhãs, levantávanos bem cedinho, e com entusiasmo de sempre, depois do café da manhã, ele saia pelo campo a pastorear, e eu ficava com a certeza de que logo voltaria... e voltava.

Às vezes, chegava cansado, mas não reclamava. Almoçava, tomava seu café quente, e ia fazer a sua sesta. Antes ligava a TV, e logo dormia no sofá da sala. Era muito raro não dormir após o almoço. Se tivesse alguma visita em casa, ele dizia: " venha para cá, vai conversando... eu vou dar uma cochilada". 

Depois de alguns minutos descansando, levantava, para continuar com a lida do dia, e, às vezes, me dizia ao sair:  "A cabeça quer, mas o corpo, não! Mas não posso fazer gosto ao corpo". Era o corpo dando sinal de cansaço, e saía animado outra vez.

Hoje, abro a janela e se vejo as nuvens avermelhadas, lembro- me que ele me dizia: "nuvens vermelhas é sinal de frio, e já se preocupava com as pastagens, que poderiam secar". Outras vezes, ouço a passarada fazendo a maior festa nos bambusais, e me lembro também do meu tempo de criança, nos laranjais do quintal da fazenda dos meus pais, que também já passaram para o lado de lá. Tudo vem num emaranhado de lembranças.

Ouço também o canto do galo velho esporudo, cantando fanhoso, correndo dos outros galos, mas, ainda, parece divertir com a galinhada; as galinhas que cacarejam, mas não botam mais; o cachorro que late, mas não morde; o gato que não pega mais ratos e os beija - flores, que beijam rosas.

Ouço também o canto triste das seriemas desesperadas... não sei com que, e inquietam mais a minha saudade e a falta dele. 

Como dizia Cecília Meirelles, "Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino". Mas não me sinto feliz, porque quem olhava tbém da janela não está  olhando mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário