terça-feira, 20 de julho de 2021

24-Final de tarde... e o grito do silêncio

Há uns cinco meses da partida do vovô mais coruja, em um finalzinho da tarde de um sábado, momento em que o sol já começava a se ocultar, no horizonte; meus filhos, minha nora, meus netinhos e eu chegamos à fazenda, para passar uma semana de férias com as crianças, e ver como as coisas estavam por lá.

Logo que chegamos... eu fiquei a observar tudo, como sempre fazia, quando ia com o Milton. Não foi a toa que Da Vinci dizia que “os olhos são as janelas da alma”, e quando é do dono tem algo especial. Não é a toa, que os agropecuaristas dizem que é "o olho do dono que engorda o boi"!

E em poucos olhares, percebi que os meus hibiscos, também, tinham sofrido com a nossa falta; atacados pelos pulgões, foram impedidos da brotação das suas flores. Minhas roseiras, que plantei em homenagem a minha sogra, a pedido do Milton, estavam cobertas de cachos de rosas, algumas já secas, outras novas e outras em botão, seguiam o seu destino, apesar das formiguinhas serem atraídas pelo cheiro das mesmas, e ficarem rendadinhas de picadas delas. Só as minhas espadas de São Jorge, de bordas amarelas, na entrada da nossa casa, conhecidas por purificarem o ar do local, e por promoverem uma boa produção de oxigênio à noite, não pareciam estar nem aí se esqueceram de regá-las com frequência, pois preferem lugares secos, e continuavam exalando o cheiro de suas flores, que misturava ao vazio que parecia tomar conta de tudo daquele lugar.

Os pés de Jasmim do Caribe também não ficaram para trás. Suas flores e seu perfume me traziam
ele de volta. Ah ..."queixo-me às rosas /Mas que bobagem / As rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti"

Às flores do Jasmim do Caribe eram as preferidas do Milton. Um dia, passando pela rua de carro, viu um pé de jasmim carregado de flores, e me disse que em tal lugar tinha uma árvore de flores brancas lindas, que formavam um grande buquê. Interessante, que ele nunca deu muita importância por flores, e essas chamaram sua atenção. 

Realmente, gostei muito delas também. Foi encantamento a primeira vista. Até aquele dia, nunca tinha as percebido.  Ficava na porta da casa de uma amiga, então, pude ir lá lhe pedir alguns galhos para plantar; plantei umas quatro mudas - fáceis de pegar... desenvolveram rapidamente, e suas flores, além de bonitas, muito perfumadas. E logo floriram e continuam florindo. Milton as apreciava muito.

Então, continuando com a observação durante a chegada... quando adentramos a varanda, o silêncio era tanto, gente, que chegava a gritar, transformando em um personagem que substituía o ser que não estava mais ali, mas que nos acompanhava por onde andávamos. 

Sua voz alta, suas risadas com os netos ecoavam no meio do silêncio da noite, nos trazendo a sua presença e preenchendo os espaços, ali vazios, sentado na ponta da mesa da varanda, alegre ou pensativo, ou preocupado e cabisbaixo...ou  deitado no sofá da sala ou sentado na cadeira de balanço do vovô, como disse meus netinhos. 

Suas cantorias, no final da tarde, ali perto da bica. Seus passos ligeiros, andando para lá e para cá, me chamando, às vezes... sem eu poder escutar...  só virou lembranças.

Olho para o lago que ele pescava, o vazio também ocupou aquele lugar que assentava. Até montado, no seu cavalo, parece, que ele está. O seu carro de boi empoeirado, o seu engenho, a nossa casa, na cidade, cada dia mais velha, tudo perdeu o valor para mim. Seu violão, seu chapéu de lona, suas roupas, no guarda- roupa, preferi ir doando, aos poucos, mas muitas, ainda, estão lá. 

Acabei constatando algo que eu já sabia, mas não tinha percebido com tanta clareza, como agora: o que faz a beleza, a alegria, até a própria energia do lugar não é o local...e sim, as pessoas... Tudo, agora, acabou a importância. 
Por isso, muitas pessoas vendem as coisas, logo que os pais morrem...o que era importante não era o lugar, não são os bens, são as pessoas. E tudo perde o valor, quando elas vão embora. É como diz Chico Buarque: "tem dias que a gente se sente como quem  partiu ou morreu junto".

 Nunca imaginei que fosse falecer tão cedo! Pensava, sempre, que viveria como a sua mãe, até os oitenta e tantos anos!! Não podemos duvidar dos desígnios de Deus. Todos nós, um dia, mais cedo ou mais tarde, iremos partir. E essa partida não é agendada, ninguém sabe o dia e nem a hora. Só sabemos que vamos.




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