quinta-feira, 15 de julho de 2021

Baianos em terras goianas

Em Caiapônia há muitos nordestinos, uns cearenses, outros pernambucanos, mas mais, predominantemente, baianos de Correntina, Barreiras e Cocos. Que chegaram aqui por volta da década de quarenta/ cinquenta em busca de melhores dias para si mesmos e para a família. Vinham de "paus de araras", transporte feito em caminhões com bancos de madeira na carroceria, descobertos ou cobertos de lona preta.

Tive o prazer de conhecer vários deles, e todos que conheço são muito trabalhadores e honestos, dentre eles uma baiana, dona Norma e um baiano, Sr Rochinho, de Cocos. D. Norma era uma morena trabalhadeira, de sotaque bem característico, do lugar de onde veio, muito séria, mas de um sorriso largo, quando tinha motivo, e de uma sensibilidade a flor da pele, devido as durezas da vida.  
Foi minha lavadeira e passadeira por muitos anos. Nunca encontrei alguém para passar uma roupa com tamanha maestria as calças de linho com vinco do meu marido. Sr Rochinho foi trabalhador rural, lá em nossa fazenda. Muito trabalhador também. Caçador de onça. Gostava de uma pinga com raiz prá curar de uma tal dor na coluna que o deixava quase entrevado "que só"!

Dona Norma veio de lá para cá com o marido e seus seis filhos. Logo seu marido deu saudade da sua terra Natal, e em um dia sem avisar à família -  "estava aqui muito avexado e foi se 'imbora', donde foi ninguém sabe... ninguém viu", deixando dona Norma chorosa; sempre que falava nele, chorava... reclamava... filharada pequena, labutava com a vida, trabalhando em várias casas de famílias para "dar conta de pôr o que comer dentro de casa". Saía cedo e só voltava a noite. Os filhos maiores cuidavam dos pequenos.

Depois de muitos anos sem saber por onde andava seu marido, ficara sabendo que o seu esposo, que tanto o amava, havia falecido. Chegou...me contando...chorosa... disse que ninguém ia despedir dele pela última vez, porque ninguém 'tinha dinheiro' (linguagem entre os dentes 'thinha dhinheiro'). Mas nunca quis arrumar outro casamento. "Casá prá que, só prá dá trabalho e bolir com meus filhos".  

Depois de certo tempo, arrumou um emprego de merendeira, numa escola do município, trabalhou alguns anos, e aposentou- se, tinha problema sério cardíaco, mas não foi prá menos, com todos os sofrimentos, do dia a dia, dois filhos morreram de acidente de moto, deixando - a "partida em vários pedaços", como mesma dizia.

Há muito tempo não os vejo, a última notícia que tive notícias deles, Sr Rochinho esteve "perrengue", mas que estava melhor! "Véio", como ele diz, cada dia está com uma "macacoa". Agora, a dona Norma, infelizmente, Deus a levou.









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