sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

8-Período de adaptação nesta cidade

Em dezembro de 1978, formei em Direito, e em julho de 1979, eu, minha esposa e meu filho mudamos para Caiapônia para eu ser exercer a minha profissão.

Caiapônia 7/10/1979

Acostumei, sempre, escrever as minhas reflexões, ou os meus sentimentos nas folhas em branco, que ficam, nas últimas páginas dos livros, que ao longo de minha vida, venho adquirindo.

Hoje é sábado, e quase ninguém está trabalhando. Estou no meu escritório, estudando, pensando e esperando. Acho melhor estudar aqui do que em casa. 

Ainda, não consegui deixar de viver como vivia em Goiânia - quieto. Aqui não há nada para fazer. A rotina e a monotonia parecem tomar conta de todos. 
Quase todos conseguem refugiar em determinada coisa.  Alguns vão ao bar - na bebida e na conversa com os amigos, esquecem o cotidiano,  intoxicam de bebidas alcoólicas, e conversam futilidades. Uns ficam no jogo de cartas e no futebol, praticando ou assistindo. Outros vão às festas tão vulgares e tão ridículas. 

Somente, eu não consigo, a não ser, no trabalho e na leitura, fugir do enigma do cotidiano. Estou precisando comprar um pedaço de terra para passarmos os finais de semana. Convivermos com a natureza, correr, andar a cavalo, lidar com gado e poder divertir, trabalhando.

Queria ser um sertanejo para trabalhar de sol a sol, sem deixar o corpo descansar. Ser um camponês que tivesse como diversão apenas assistir o nascer e o pôr do sol, e a lua cheia, porque esta surge muito cedo, quase na hora que ele vai dormir.

(Colocar uma das fotos do pôr do sol)

Ser um camponês e cuidar de suas vacas, seus porcos, galinhas e de sua roça. Viver em harmonia com a natureza. Viver dela e para ela. Por enquanto é um sonho, mas logo será realidade.  

Não sei se sou um visionário ou se um sonhador. Sei que preciso mudar a rotina que está matando e atrofiando o meu viver. 

O sino da igreja tocou novamente, avisando que a missa vai começar. Alguns fiéis tão infiéis estão chegando para ouvir falar de coisas que ouvem todos os domingos, mas não praticam.
Há quase seis meses nesta cidade
Está iniciando mais uma semana do mês de janeiro de 1980. Estou, no escritório, pensando e estudando. Somente agora, depois de quase seis meses residindo, nesta cidade, estou conseguindo harmonizar a minha vida, que teve um grande transtorno emocional com a minha mudança da Capital para cá. 

Estou fazendo um plano de estudos, iniciando pelos temas que tem mais utilidade na prática. Assim que estudar Direito Cívil e Penal, passarei para um plano mais aprofundado, fazendo pesquisas.

Preciso estudar bastante, estou novo, e quero aproveitar estes anos para arquitetar o meu conhecimento no ramo do Direito. 

Ser um bom advogado, mesmo a longo prazo, ou, então, estar preparado, se preciso for, para prestar um Concurso e passar.
Está aproximando o mês de fevereiro. Este mês de janeiro foi muito parado. Espero que no próximo entre serviço no escritório. É preciso trabalhar.

Mas mesmo sem serviço, tenho esperanças que conseguirei e vencerei.
Cpa, 28/01/1980).

Um ano residindo em Caiapônia

O mesmo sino que anuncia as horas do dia, também anuncia a morte

Hoje, o sino da igreja bateu novamente. O único veículo de comunicação desta cidade é o alto- falante da igreja. Toca as horas e anuncia a morte. 

Desta vez, a morte levou um ancião - Sr Chico, pai do atual Prefeito Municipal, Bertoldo Francisco de Abreu. Teve visitas de políticos importantes: Deputado Federal e Secretários de Estado. 
O velório é o mesmo de tantos outros, e o mistério da morte continua intacto, e eu continuo vivendo, pensando e escrevendo. Cpa, 27/11/1979).

Em Caiapônia, fui, também, professor

Hoje, foi o último dia do mês de novembro de 1979. Ontem, foi a minha última aula. Foi um bate papo. 

No final, falei alguma coisa como despedida. É emocionante falar para uma classe de alunos, quase todos da minha idade ou pouco mais jovens.

É interessante o fato de que alguns entenderam a minha posição durante as minhas aulas. 

O dia hoje está diferente de ontem, parece que vai chover.

Só vence aquele que persiste 
e aguenta esperar...

Estamos vivendo o início dos anos 80. Estou esperançoso que este ano seja muito importante para mim. Preciso definir a minha situação como advogado.

 Às vezes, fico descontente com a falta de serviço, mas a expectativa é boa, e somente, vence aquele que aguenta esperar. 

Ainda, não sei se estou preparado para essa espera. Preciso ser forte, ser estudioso. É preciso ser realista e positivo. Vencerei!

Ainda, é cedo da noite, e a energia acabou. Tudo está muito escuro. Em noites escuras, o silêncio é maior. A Nilva e o Virgílio dormem no sofá. A monotonia aumenta, ainda, mais, não tendo com quem conversar.

O silêncio é cortado pelo barulho de um carro. Como é triste ficar só, sentir só em uma cidade, envolvido em seus movimentos tão lentos, tão devagar.
Continuo a refletir...
                   Caiapônia, 18/01/80

Final de janeiro de 1981
Estamos vivendo o final do mês de janeiro de 1981, e para este ano, as esperanças são muito boas, bem maiores que o ano que passou. 

Estou sentindo mais à vontade nesta cidade e na minha profissão. Somente, o cotidiano que quase nada mudou. 

Espero o quanto antes poder refugiar as minhas emoções, no campo, onde pretendo montar um sítio. Afinal tudo está bem.( Cpa, 26/01/1981).

Milton era um ser inquieto e angustiado, e sofria muito por antecipação. E segundo Augusto Cury, entrevistado pela Revista Época, citado por Camila Guimarães ( 2014), "temos de impugnar cada ideia, cada sofrimento por antecipação, para não registrar a experiência ruim e não empulhar nossa memória com dados inúteis. 
Devemos pensar no futuro apenas para traçar metas. Não devemos sofrer por antecipação. Não podemos dispensar o presente, único momento que temos para ser estáveis e felizes".

Mas, dificilmente, a pessoa consegue mudar sozinho, principalmente, quando é jovem. Quando faz compromisso, e tem receio de não poder cumpri- lo. 

O Milton ficou bem mais tranquilo depois que envelheceu. Com certeza,  as condições incômodas ou desfavoráveis foram mudando, e ele foi se adaptando, controlando mais, adquirindo mais experiência, e pode tranquilizar mais.

As preocupações e os causos de Tião Franco às margens do Rio Araguaia

Estamos quase no final do ano. A vida anda difícil, pois o país atravessa um situação muito crítica. A economia não anda bem, deixando as pessoas preocupadas com a atual conjuntura socioeconômica do Brasil.

Na minha profissão, os serviços estão escassos; com a crise econômica, todos,  que precisam de fazer qualquer serviço, estão deixando para depois.

Até agora, tenho conseguido manter tudo sob controle. Não sei até quando aguentarei. A minha esposa, impaciente, me cobra solução, que infelizmente, no momento, não posso solucionar. 
Às vezes, fico triste e desiludido diante de tanta monotonia. É preciso ser forte, já vivi situações piores e sobrevivi. 
Amanhã será setembro. As auguras de agosto estão no fim. Estou com boas esperanças para este mês.

No campo da cultura, estou sentindo que a deixei, um pouco de lado; por necessidade ou por conveniência. İsto no campo teórico, pois no Campo prático, tenho aprendido bastante.

Estou, sempre, em contato com gente humilde, que me dão oportunidade de conhecer as minhas próprias raízes.
Conheci pescadores, velhos caçadores, vaqueiros, vagabundos - autênticos filósofos e artistas natos, que fazem da vida, a sua mais simples e pura maneira de vivê- la.
Por tudo isso, acho que, hoje, estou mais equilibrado, mais experiente, e em condições de conhecer melhor as pessoas e também a mim. 
Quando estou deitado sob o relento, sobre a rede armada sobre galhos no cerrado agreste, às margens do Rio Araguaia, ouvindo as estórias bem contadas pelo "Tião Franco", fico imaginando as peripécias passadas por cada um de nós. Junto àqueles companheiros rudes, simples e leais, sinto- me envolto por dois mundos: um civilizado e outro primitivo, que faz de mim, também  duas pessoas com tantos conflitos internos.

No balanço final, não tenho  dúvidas que saí ganhando neste dois anos que estou residindo nesta cidade.
   A vida continua....
Caiapônia 31/08/ 1981.

 15 anos em Caiapônia

Após 15 anos, que cheguei nesta cidade, volto novamente a estudar, para dedicar- me quase que exclusivamente à advocacia, e às minhas atividades como fazendeiro.
Posso dizer que hoje tenho uma experiência muito boa no ramo da advocacia, mas falta- me agora mais conteúdo jurídico e também mais atualização do direito, tendo em vista que a minha atuação na política fez com que eu deixasse o estudo de lado.
                          Cpa, 13/07/94.

Um misto de advogado, político e fazendeiro 

Após tantas lutas, tantos sonhos, alegrias e decepções, sinto- me rejuvenescido, espiritualmente, apesar do meu rosto denunciar claramente que estou envelhecendo fisicamente.

Intelectualmente, sinto mais maduro e com mais facilidade para compreender aquilo que estudo ou leio.

Profissionalmente, percebo que estou vivendo uma boa fase. Estou com o escritório bom, e as pessoas me julgam acima das minhas possibilidades, tanto política quanto profissional e financeira.

Financeiramente, estou como sempre estive; sempre sem dinheiro, apesar de  possuir fazendas, casa própria, veículos, gado bovino - tudo adquirido com muito esforço. 

E, embora,  tenha consciência que já consegui muito mais do que muitas pessoas da minha idade e do meu nível social conseguiram; mesmo assim, continuo mais do que nunca, um misto de advogado, político, fazendeiro e sertanejo sonhador, em busca do tesouro perdido na imensidão dos sonhos e ilusões, neste país de tantas oportunidades e de tantas desigualdades. ( 20/11/1996)

Milton, sempre, dizia que vivia no limite. Para conseguir as coisas foi com muita dificuldade. E, embora, fosse uma pessoa extremamente, positiva; o fato de fazer grandes compromissos, como compra de terras, por exemplo, o medo de não conseguir cumprir no tempo certo, rondava a sua mente. 

06/06/2001)
Ontem, completei 49 anos de idade. É o meu primeiro aniversário deste século.

Lembro- me como se fosse hje das minhas projeções de criança, comentando com amigos, que no ano de 2000, estaria velho, ou seja, com 47 anos.

O tempo passou rápido. Dentro de mim, ainda vive aquele menino sonhador, cheio de planos e esperança no futuro.

Biológica e psicologicamente, sinto- me como se tivesse 35 anos. Fisicamente posso até parecer um quarentão, mas minha alma é jovem, e ainda pulsa pungente a minha juventude. 


    


Homenagem a Moisés Manuel

Recebi, hoje, um novo disco de Orfeu e Menestrel, o terceiro disco gravado, que consta, em sua maioria, as letras do compositor Moisés Manuel, que foi tragicamente assassinado.

Às vezes, eu fico pensando naquele rapaz, que foi um rebelde, e muitas pessoas não aceitaram a sua maneira de viver. . Apaixonou- se, brigou, namorou, mesmo depois de casado, e não aceitou ser, simplesmente, convencional. 

As suas letras mostram, claramente, a sua maneira de ver a vida. Muitos dos que o criticavam, e não aceitaram a sua visão de mundo, chamando- o de louco e de irresponsável, agora, que ele está morto, acha que ele viveu corretamente. 

Por tudo isto, eu imagino e penso... como é difícil viver em harmonia com a sociedade e com nós mesmos. É um eterno conflito de sobrevivência entre o ser e o ter. 

Hoje, ele está em outra dimensão. Não sei como está vivendo, e o que está achando do planeta que deixou de habitar.  Eu sei que muitas letras que fariam lindas músicas ficarão sem composição, pois morreu o compositor e o poeta. 

Poeta na sua visão de mundo. No seu bucolismo, cantando as tradições e as mutações que estão acontecendo com o nosso sertão.

O sangue sertanejo dos seus antepassados ressurge  em suas músicas, que cantou como ninguém, a natureza e o sertão, mutilada pelo progresso, sem fibras e seus autênticos sertanejos.

Eu nunca cheguei a conversar com esse moço, mas o entendi melhor que muitos daqueles que viveram ao seu redor. Compreendi suas angústias e suas atitudes.

3- Minha vida.

Minha Vida

(Epígrafe c/fonte menor)

Minha infância cheira frutos do cerrado ( gabiroba, cajuzinho do campo, maninha- cadela, araticum e croadinha). 
Minha adolescência cheira futebol
Minha juventude cheira mulher bonita
E o presente cheira saudade... mfs.


Nasci no dia cinco de junho de 1952, na cidade goiana de São Luís de Montes Belos. Quando tinha dois anos, meus pais mudaram para cidade de Morrinhos- GO, e de lá mudaram para uma fazenda que, hoje, fica no município de Joviânia- GO, onde meu pai foi trabalhar como vaqueiro.

Dessa fazenda, mudamos para Serranópolis, onde morava uma tia do meu pai, irmã da minha avó paterna. Tia Ana e tio Manuel Parente eram as únicas pessoas conhecidas dos meus pais aqui no sudoeste goiano.

Não sei bem a data certa que chegamos na Serra do Café. Segundo a minha mãe, era final de 1956. Éramos cinco irmãos, pela ordem de idade: Vicente, Vilson (Zico), Maria, eu e a Divina, que era muito pequena. Hoje somos nove: José, Welter, Shirley e Valéria.

Nessa cidade, meu pai foi trabalhar na roça, cuidou de um cafezal; depois, foi açougueiro e depois foi comerciante, ramo que teve algum progresso. Meu pai era um homem sábio, apesar de analfabeto. Sempre, teve muita habilidade nos negócios e facilidade de fazer amigos, tornando uma pessoa até importante em Serranópolis.
(Foto do Sr Ferrugem com enxada nos ombros)

Dessa época, as lembranças do "Córrego da Moranga" não sai da minha cabeça. Duas ou três vezes por semana, eu acompanhava minha mãe até um local escolhido pelas lavadeiras para lavar a roupa da família, e todas as tardes, juntos com outros meninos, banhávamos em suas águas limpas e frias. ( Foto da dona Áurea lavando roupa)

Quantas vezes, eu e minha mãe fomos ao cerrado, próximo à cidade, para recolher restos de madeiras que serviriam de lenha em nossa casa.
( Foto da dona Áurea pegando lenha)

 Quantas vezes, fomos às fazendas de pessoas amigas para buscar palha de milho para encher os colchões, e paina para fazer ou reformar os travesseiros, ou mesmo para buscar frutas dos velhos quintais da região.

Sou mineiro por engano 

Por engano do meu pai ou por equívoco do Escrivão que lavrou o meu registro de nascimento, em meus documentos consta que nasci na cidade mineira de Ponte Nova. Nunca fui a esta cidade e nem sei onde a mesma fica.
Mas acima de tudo: sou Serranapolino...sou Jataiense. Sou de Goiás. Sou Caiaponiense.
Sou goiano - goiano do pé rachado. Criado com pequi, com pamonha, milho assado, frango com guariroba e quiabo.
Sou goiano do serrado. Não sou do mato. O Serrado da minha infância tinha gabiroba, cajuzinho do campo, mangaba, croadinha, araticum e maminha cadela.
Das frutas dos quintais das fazendas e das vilas. Jabuticaba, goiaba, laranja, manga, abacate, jenipapo, mexerica e cajá-manga.
Sou genuinamente goiano. Meus limites são as barrancas dos rios Araguaia e do Paranaíba...  até hoje, não precisei atravessá-los. 

Pode parecer pequeno o meu território ou o meu mundo; mas me basta e satisfaz o meu espírito e o meu jeito goiano de viver, pois, na definição do escritor Carmo Bernardes: "um homem nunca é mais do que aquilo que a vida quis que ele fosse".

Sou descendente de velhos sertanejos que embrenharam pelos sertões de Minas e Goiás, e iniciaram a colonização em nosso estado. Venho de uma família pobre e obscura. 

Sou uma mistura de raças: negro, índio e branco. Do branco europeu, herdei a ambição, o espírito aventureiro, o gosto pela literatura e pela cultura. Do negro, herdei a disciplina pelo trabalho, admiração pela música, instrumentos musicais e crenças. Do índio, herdei a intimidade com a natureza, o espírito de liberdade, o prazer de pescar, caçar e a paixão pelos rios, e até mesmo o jeito preguiçoso de viver.

Reminiscência
                         
Meus pais viveram como nômades, mudando, sempre, de um lugar para outro; e foi assim que, nos idos de 1955, vieram para o Sudoeste Goiano, precisamente, para Serranópolis, tentar a vida longe de sua cidade natal - Morrinhos.
Na Serra do Café, meus pais e meus irmãos mais velhos foram trabalhar na roça, especialmente, na colheita do café ou capinando e roçando pastos para os fazendeiros daquela região.

Meu pai, apesar de analfabeto, não era nada bobo, e logo concluiu que não daria conta de manter e educar sua manada de filhos no "cabo da enxada", então, resolveu fixar residência, na cidade, montando um açougue de porco, e a única coisa que conseguiu ganhar neste ramo comercial foi o apelido de " Mané Capado".

Com o insucesso do açougue, meu pai resolveu abrir um boteco, que logo foi alcunhado de Boteco do Mané Capado". Neste boteco, além de bebidas, também eram vendidos alimentos e armarinhos.

Foi através desse pequeno comércio do meu pai que eu e meus irmãos aprendemos a conversar com desenvoltura, a "fazer conta de cabeça", e através do contato com os viajantes que iam de Jataí para Mato Grosso, e de lá para Jataí, ficávamos sabendo das novidades da região; além das informações que chegavam até nós, através das ondas sonoras das rádios Nacional, Tupi e Record, no velho rádio "Semp", que ficava em cima da geladeira a querosene.

        

3-Reminiscências

Minha infância cheira frutos do cerrado ( gabiroba, cajuzinho do campo, maninha- cadela, araticum e croadinha). 
Minha adolescência cheira futebol
Minha juventude cheira mulher bonita
E o presente cheira saudade... mfs.

Desde criança, fui um leitor assíduo, lendo tudo que via pela frente, principalmente, História e Literatura, e sempre, me interessei por assuntos que falam da origem do Universo, do Homem, sobretudo da minha região e do seu povo.

Meus pais viveram como nômades, mudando, sempre, de um lugar para outro; e foi assim que, nos idos de 1955, vieram para o Sudoeste Goiano, precisamente, para Serranópolis, tentar a vida longe de sua cidade natal - Morrinhos.
Na Serra do Café, meus pais e meus irmãos mais velhos foram trabalhar na roça, especialmente, na colheita do café ou capinando e roçando pastos para os fazendeiros daquela região.

Meu pai, apesar de analfabeto, não era nada bobo, e logo concluiu que não daria conta de manter e educar sua manada de filhos no "cabo da enxada", então, resolveu fixar residência, na cidade, montando um açougue de porco, e a única coisa que conseguiu ganhar neste ramo comercial foi o apelido de " Mané Capado".

Com o insucesso do açougue, meu pai resolveu abrir um boteco, que logo foi alcunhado de Boteco do Mané Capado". Neste boteco, além de bebidas, também eram vendidos alimentos e armarinhos.

Foi através desse pequeno comércio do meu pai que eu e meus irmãos aprendemos a conversar com desenvoltura, a "fazer conta de cabeça", e através do contato com os viajantes que iam de Jataí para Mato Grosso, e de lá para Jataí, ficávamos sabendo das novidades da região; além das informações que chegavam até nós, através das ondas sonoras das rádios Nacional, Tupi e Record, no velho rádio "Semp", que ficava em cima da geladeira a querosene.

        Mudança para Jataí

No início do ano de 1965, meu irmão mais velho, Vicente, num ato de ousadia, de intuição e inteligência convenceu meus pais a mudarem para Jataí, que, naquela época, já era uma grande cidade, onde todos nós teríamos oportunidade de continuar os nossos estudos.

Em Janeiro, daquele ano, chegamos a Jataí, onde meus irmãos Vicente e Zico foram trabalhar como serventes de pedreiro, na construção do Banco do Brasil, e eu fui trabalhar de engraxate, na Avenida Goiás, na Praça Tenente Diomar Menezes, e depois na Engraxataria  da Onça, que ficava onde hoje é a agência do Bradesco.

O menino franzino e o seu engraxate

Naquela época, com apenas 12 anos de idade, estudava de manhã, cursando a antiga 4 ª série primária, no Grupo Escolar Serafim de Carvalho, e às 12:30h começava a trabalhar na Engraxataria, e saia, somente, a partir das 21h; aos sábados e aos domingos, trabalhava até meia noite.

Eu, menino franzino, de calças curtas, sujo de graxa, olhava admirado para as pessoas que passeavam pela Avenida, todas muito bem arrumadas, indo ao cinema, às compras. Naquela época, economizava tudo que ganhava, e não comprava se quer sorvete ou picolé, que era coisa que menino gostava.

Naquele tempo, não podia imaginar que eu e minha família pudéssemos vencer tantos obstáculos - o analfabetismo, a pobreza - e chegar aonde chegamos.
Não demorou muito, meu pai, novamente, abriu um pequeno comércio, que logo transformou em um armazém, sendo conhecido como "Armazém do Capado". E para quem não tinha quase nada, de repente, ter casa própria, carro, televisão, geladeira, era como se tivéssemos alcançado o eldorado. Éramos tidos, na cidade, como novos ricos. A fase rica de minha família durou pouco tempo, meu pai resolveu mudar mais uma vez, e desta vez foi sozinho, deixando minha mãe com os oito filhos - o mais velho com 26 anos e a mais nova com apenas quatro anos de idade. Atravessamos um período difícil, os quatro irmãos mais velhos (Vicente, Zico, Maria das Graças e Divina) assumiram a manutenção e a educação dos quatro irmãos mais jovens. 

Apesar das adversidades, conseguimos manter a família unida, trilhando sempre no caminho do bem; trabalhando com afinco, com responsabilidade e sem abandonar os estudos. Mas tudo isso, devemos à inteligência do mano Vicente, e também à sabedoria e à bondade da minha mãe. Graças a estes esforços, hoje, assistimos filhos e netos da dona Luiza brilhando em várias atividades.

Meus pais, mesmo analfabetos, pobres, sem origem e ciganos, na vida, tiveram muita sorte com os filhos, dos oito: dois são advogados, um médico, uma odontóloga, todos formados pela Universidade Federal de Goiás, aprovados em um único Vestibular, e ainda, uma professora e uma contabilista. 

Os netos do casal Manuel e Luiza, também, demonstraram interesse pelos estudos, haja visto que dos quinze netos, temos um engenheiro agrônomo, três médicos, quatro advogados, três farmacêuticos, dois formados em Ciência da Computação, uma psicóloga, uma odontóloga e um músico, 

Meu pai, certa vez, conversando com um primo fazendeiro, lá em Serranópolis, o primo rico falou que meu pai tinha que ensinar seus filhos trabalharem na roça. Meu pai lhe respondeu, dizendo, " para trabalhar na roça não era necessário ensiná- Los, eles aprenderiam sozinhos, eles precisavam estudar". Talvez, está frase seja a única herança deixada por meu pai.

 

Estou no limite, cansei de ser forte

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

7-Sua Biblioteca...



Milton tinha um grande acervo de livros jurídicos e literários, que foi comprando um a um, todo mês um livro, que foi testado por ele, como bens a partilhar. 

Realmente, para ele, os seus livros eram considerados bens de grande valor; principalmente, por terem sido adquiridos com muita dificuldade, em uma época que tinha menor poder aquisitivo, e começou a exercer a sua profissão.

Alguns jurídicos já estão desatualizados. Foram comprados, quando mais precisava preparar para tornar de fato o advogado que foi, "lá pelos idos de 1978/1979". Quando a busca pelo conhecimento restringia-se às fontes disponibilizadas pelas bibliotecas, pois se constituía em uma única fonte de informação. 

Na atualidade, a biblioteca tem valor pelo que representou e não pelo que lhe é útil. Ninguém está a procura da obra, mas do resumo fragmentado, curto, objetivo, sucinto. "A informação deixou de estar estritamente ligada ao livro para ser uma entidade presente em vários suportes. “A informação não é avaliada pelo suporte físico, mas sim pela sua utilidade, e ela agora pode ser reprocessada ao gosto do freguês.”(SILVA; ABREU, 1999, p. 102).

"No passado a imagem da biblioteca estava associada com a idéia de um espaço que se assemelhava a um depósito de livros, onde o bibliotecário desempenhava o papel de guardião. A inserção das tecnologias na vida da biblioteca e seus profissionais estão transformando substancialmente as concepções dos bibliotecários e dos usuários acerca da biblioteca e o seu papel". 

No entanto, no presente coexistem resquícios da visão tradicional de biblioteca com as novas formas que elas estão assumindo. Nesse novo contexto, a biblioteca está sendo identificada como um local “moderno” onde se disponibiliza informação e o bibliotecário como seu disseminador".

Milton, sempre, foi um leitor assíduo, um profissional estudioso!  A meu ver, um dos melhores advogados da região. Falo, sem medo de errar. Ainda, era aquele advogado que escrevia as suas ações jurídicas, sempre, "a punho", como dizia. Não copiava nada da internet, mesmo nos últimos tempos, quando encontramos tudo pronto. "Tinha tudo na cabeça". Era uma enciclopédia ambulante. Atuou em várias causas jurídicas, como ele dizia :nos Fóruns e tribunais do Júri.

Milton era daqueles advogados que tinham em seu escritório duas prateleiras cheinhas de livros. Mais de 500 exemplares, a meu ver. Mas não de livros que, apenas, enfeitavam a sua biblioteca. Era de livros que foram lidos. 

Sua biblioteca não era a das mais organizadas, mas tinha certa ordem. Primeiro, as coleções. Tinha várias. Não sei se por ordem dos autores mais consagrados, se por assuntos, se por tamanho, cores ou por frequência de uso ou aleatóriamente. Nunca tive curiosidade de perguntar. Mas pelo que eu conhecia dele, acredito que por assuntos.

Milton era daqueles bons leitores, que não deixavam passar nada. Sempre, gostou de estar muito bem informado, sobre vários assuntos. Era difícil um assunto sobre História Geral que ele não soubesse. Até da Bíblia, mesmo não sendo um religioso. Primeiro, porque tinha uma memória incrível, não esquecia nada. Segundo, porque lia muito, leu quase todos os clássicos sugeridos nas aulas de Português e dos Vestibulares. Ele me dizia que chegou a ler trezentos livros, quando fazia cursinho para o Vestibular. 

De vez em quando, às vezes, já tarde da noite, pegava algum livro, que levava para casa, folheava...pegava outro, lia um pouco, às vezes, lia um trecho para mim, e guardava o livro. 
Gostava muito desse trecho do livro de Rui Barbosa. "De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto".(Rui Barbosa).

Era daqueles que tinham, na ponta da língua, os nomes e sobrenomes de personagens principais e  secundários dos livros literários. Quem o conheceu sabe que tinha uma memória e grande interesse pela cultura. 

İnteressante que, às vezes, eu lia algum texto, alguma poesia pra ele, que dizia ser de um autor - ele me dizia: "essa poesia não é de Fernando Pessoa ou Cora Coralina - eles não tinham esse estilo ou não escreviam assim", e logo íamos pesquisar, e sempre ele estava certo. Era apaixonado pela Literatura.

Era também um estudioso do Direito, de Política, de História, etc. Todos os dias, tinha como hábito ler o jornal. Ultimamente, não lia mais o escrito, e, sim, pela TV. Tinha preferência pelos jornais: Os Pingos Nos Is na Jovem Pan.
(Foto dele lendo o jornal)

1-Vasculhando a sua intimidade

Percorrer os guardados de um ente querido falecido é um pouco estranho, invasivo e surpreendente, ao mesmo tempo; principalmente, quando a nossa intenção era procurar por diários que o mesmo deixou escritos. A gente nunca sabe o que vai encontrar, e se vai nos agradar ou não. 

Eu senti como se estivesse vasculhando a sua intimidade, algo que aprendemos, durante toda a nossa vida, que seria invasão da privacidade. Interessante, que mesmo sabendo que não estava mais ali, tinha um grande sentimento de respeito impregnado em mim.

E a  escrita, então, pode nos revelar muito quem somos. E, embora, não seja fácil controlá- la, mesmo estando vivos, imagine  depois de mortos; não podemos controlar nada, nem quem vê o quê, nem em que ordem ou contexto será interpretado. 

Milton não está mais aqui para nos explicar o porquê de suas divagações existências -  de tanta ansiedade, medo e desencantos, que renovavam, sempre, como mecanismos de defesa, talvez,  entremeados de muita esperança e de um constante entusiasmo pela vida. 

E... como eu sabia do seu costume, e tendo a intenção de registrar seus textos para editar um livro em sua homenagem; precisava buscar seus devaneios. Encontramos vários. E descobrimos que a maior viagem que lhe empreendia era para dentro de si mesmo.

 "E o modo mais emocionante de realizá-la é lendo um livro, pois um livro revela que a vida é o maior de todos os livros. Mas é pouco útil para quem não souber ler nas entrelinhas. E descobrir o que as palavras não disseram" 
( Augusto Cury).

E foi no primeiro Domingo de Páscoa, sem ele, que escolhemos para folhear livro por livro de sua biblioteca. Foi um dia inteirinho...  de reflexões e de tristeza para mim e para os nossos filhos, pois tínhamos nada mais, nada menos, à nossa frente... do que seis caixas de livros, dessas grandes de supermercados, entre coleções de livros jurídicos, literários e outros; para ver se encontrávamos alguns dos seus escritos. 

Foi um momento de profunda reflexão para nós, sobre a transitoriedade da vida. Sobre o que fazemos aqui ou deixamos de fazer. Sobre aproveitar a vida ou não aproveitar. Sobre viver a vida do jeito que quer e não viver. 

Hoje estamos aqui.. Amanhã tem alguém vasculhando as nossas coisas. É a vida! Por um descuido de nossa parte ou do outro, estamos viajando.

E viver já foi a melhor coisa que Deus nos deixou. E hoje nem isso podemos fazer mais.

E... não fomos preparados para entender o tempo de Deus e nem os seus mistérios, porém, sabemos que não cabem a nós entender, mas aceitar que quem  amamos será eternarizado, não morto, mas vivo dentro de nós.

Legado - uma retrospectiva

Sempre, quando alguém parte desta vida...o quê mais me impressiona é quando essa pessoa que partiu deixou um " legado pessoal" do que foi e representou na vida de outras pessoas. "Ah, como meu pai era animado e positivo",  "minha mãe era caridosa", " meu pai tinha um propósito de vida" , "meu tio foi um homem trabalhador e muito econômico", " como vovó Luiza sabia receber as pessoas em casa! ", "como vovó Esmeralda era autêntica e carismática", como vovô José era sistemático, mas honesto,  " "como tio Vicente era comunicativo e tinha amigos", " como tio Zico era alegre e atencioso com todos". 

İsto é, um legado de amor para com as pessoas - da mãe e do pai; do filho e da filha; do irmão e da irmã que foram, ou do/ da profissional, da/ do religioso (a), do político, do artista que cada um foi...do homem trabalhador que foi e do ser humano que foi. A sua essência, o seu jeito são características que destacam depois que você for embora.

E cada um de nós, com certeza, de uma forma ou de outra, deixará a sua essência marcada por onde passou, por onde passa e passará nesta vida. Mas, İmagino... que poucas pessoas já pensaram nisto, e se pensassem, talvez, vivessem melhor com todos! 


Há quem diga assim - "ah, morreu, acabou"! Ah, como é triste essa constatação! Não pensar na imagem, nas lembranças, no legado, que aquele ente querido nos deixou!

"Ah!... o que importa, agora, se a pessoa já não existe?"  "Ou o que importa, o que vão pensar de nós,  depois que partirmos? ": Muitos dizem.

Cada um tem uma maneira de enxergar e ver as coisas, e esse mundo tão misterioso dos mortos... que, ainda, é muito pouco desvendado pelos estudiosos, um verdadeiro enigma para mim.

Todavia, só morre quem foi esquecido. Quem é lembrado, acredito, que habita em nós, assim, como Cristo, que não podemos enxergá- Lo, mas tudo que Ele foi, jamais, será esquecido por nós, e, principalmente, por aqueles que O amam e O seguem.

E, embora, a nossa memória seja muito seletiva e curta, o quê ficar gravado nela determinará o que aquele ente querido nos representou em vida.

Quantas lembranças serão guardadas, hein, querido (a) leitor ( a)?! Muitas decorrentes de curto ou de longo prazo. Mas tudo vai depender da qualidade e da forma que aquela pessoa nos impressionou.

Você já pensou sobre o que deixará para trás quando deixar esta existência? Como será lembrado (a) pelos seus filhos, pelos seus netos, pelos seus familiares e amigos?

A grande verdade é que muitas pessoas preocupam em deixar bens. Tudo depende do propósito de vida que a pessoa tinha como objetivo. E se era o seu desejo deixar a família bem, para não sofrer depois, não vejo mal nisso. 

Acho louvável! Principalmente, quando o pai viveu grande escassez, associada desde a sua ancestralidade, e tinha isso como prioridade. Só não deve se escravizar e deixar de viver. Sobre o dinheiro, o Milton tinha esta crença: "dinheiro gosta de quem gosta dele, e não aguenta abuso". Sempre, dizia isso. 

 Mas a melhor coisa que alguém pode deixar, será o tempo que marcou na vida da família, dos filhos, dos netos, dos amigos e das pessoas com as quais conviveram.

 E como disse Mário Quintana, " o que importa é tudo que semeares colherás.

Por isso, marca a tua passagem,
deixa algo de ti,...
do teu minuto,
da tua hora,
do teu dia,
da tua vida".

Assim, não será esquecido. Como disse o meu netinho de seis anos, ao visitar o túmulo do avô pela primeira vez, no primeiro dia dos finados: " Vovó, agora, que meu avô está aqui, eu não paro de pensar nele". 

Tudo ficará nas imagens que carregamos dele. Assim, como disse: sua irmã Shirley, minha cunhada.


"Que dia triste para minha família! Meu irmão que era tão cheio de vida, tão espirituoso... toda vez que ouvir a batida de um violão, sentirei a sua presença, toda vez que ouvir um "causo" ou sentir o cheiro de um café forte sendo coado, saberei que ali você está. 

Sentirei enorme falta das suas palavras tão sábias para me orientar. Com você, aprendi a ser otimista, acreditar nas pessoas e ter sempre uma palavra para elevar a nossa alma. 

Eu te conheci irmão, que se mostrou pai, e convivi, contando com  o amigo. Obrigada por acreditar em mim, por ter me feito dentista e ser forte e persistente. 

Que Deus te receba com toda paz que você sempre buscou. Te amarei para sempre!" 
(Foto da Shirley com ele tocando violão.)

Nosso filho Virgílio 
 "Hoje meu pai faria 69 anos. O sentimento é de muita saudade. Hoje estaria feliz e "contando vantagem" por estar, ainda, com tanta saúde. O riso fácil, as brincadeiras com os netos, os conselhos, a observação atenta da natureza, o andar ligeiro, o falar alto, os momentos de introspecção, tudo isso faz muita falta. A dor é grande, mas estamos seguindo, o senhor está conosco, seus projetos estão de pé e honraremos pra sempre sua história".
(Foto dele e do Virgílio)

Da nossa filha Nalygia: Pai, hoje, o Senhor estaria fazendo aniversário! Infelizmente, não estamos mais juntos nesta data! Ficaram as lembranças e os ensinamentos!! Ser sempre uma pessoa positiva ( tentando)e acreditar em dias melhores! Sua alegria e autenticidade sempre vão estar presentes!

Seu sobrinho Carlos Henrique:
"Oi Tia, este abraço sempre foi tão importante na minha vida, em tudo: na minha crisma, no vestibular, na minha formatura, no meu casamento, no nascimento do meu primogênito e nas minhas conquistas pessoais!!! É muito duro não tê- lo mais!!!! Desculpe o desabafo, mas hj especialmente, estou muito emotivo e as lágrimas não saem dos meus olhos!!!!"

Foto do abraço do Milton com o Carlos Henrique:  Carlos Henrique ( sobrinho) e Milton (tio).

De Argemiro Rodrigues dos Santos, Prefeito de Caiapônia 

Hoje eu só quero agradecer. Agradecer a Milton Ferreira da Silva, advogado, procurador jurídico e um dos maiores líderes políticos que Caiapônia já teve.

Milton sempre esteve comigo nos momentos tristes e felizes, foi um orgulho compartilhar momentos com esse grande homem e profissional.

Competência e empenho são as melhores palavras para descrevê-lo. Sempre trabalhou com profissionalismo, disposição e dedicação.

Obrigado, Milton, você sempre estará gravado em meu coração e eternizado na história do município de Caiapônia.
( Foto do Argemiro com ele)

Sua nora Ana Maria

Não sou muito de expressar meus sentimentos e nem de escrever o q sinto. Não há palavras que expressem a dor que estamos suportando, o sofrimento de perceber que o senhor  não está mais entre nós. 

Sinto que podíamos ter nos  conhecido, ainda, melhor, mas em todas as experiências que vivemos juntos, eu sempre aprendia  algo de muito valioso.
Para mim o senhor foi um sogro maravilhoso,  um excelente pai e um bom marido,  como sempre dizia, e um ótimo avô coruja . Para as pessoas, em geral, foi um homem verdadeiro e humilde, um exemplo digno de ser imitado. 

Vou guardar, no meu coração, suas palavras de sabedoria, adiquiridas ao longo de uma vida de muita luta, garra e perceverança, que o tempo o forjou e o transformou num homem de fibra e determinado.  Vida difícil como sempre ouvi o senhor  dizer, sempre querendo nos ensinar algo. 

Nunca esquecerei a maneira generosa com a qual me recebeu, na família, e todas as coisas importantes que me ensinou.  

Todos nós vamos sentir muito a sua falta. É uma dor real. Um verdadeiro pesadelo... Mas....descanse em paz... Saudades eternas. De sua nora Ana Maria e netos, Daniel e  Lucas.


Pergunta do meu netinho de seis anos a mim, logo que ficou sabendo da morte do avô. O avô amava os netos.

Oi vó, o vovô morreu, sim ou não? 

 Se ele morreu 😱😱😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭

 😱😱😱😱😱😔😔😔😔😔😔😔😔😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭😭

Oh, vó, o vovô tá com Jesus.

sábado, 25 de dezembro de 2021

Quando a saudade toca...

Quando a saudade toca, vou lá, no meu álbum ou no Google fotos, revisitar as minhas memórias para curar a minha melancolia. Só a fotografia e as lembranças nos permitem olhar para trás e reviver o tempo que não volta mais.

E se o passado não pode voltar, a única saída é tentar conformar com o que temos em mãos - as lembranças que ficaram guardadas. Elas são capazes de manter vivas as recordações dos momentos felizes que vivemos.

 É triste pensar que para essa dor não há cura.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

21-Cozinhar - um ato de amor

Cozinhar é um ato rotineiro. Que demanda tempo, boas escolhas, uma boa receita e, às vezes, certa prática, bem maior do que se possa imaginar.

E, ainda, não basta só pegar os ingredientes e começar.  É preciso um pouco de disposição, prazer, afeto... além de muito amor, um dos temperos fundamentais...que não podem faltar.

E se é para conquistar alguém, a resposta será recíproca, tanto para quem se alimenta quanto para quem faz.

Ah....um elogio, um agradecimento
Ou então...Comi demais! Que delícia!
Faz compensar todo aquele trabalho 
dedicado, principalmente...quando a gente sabe que vai agradar.

Dentre os pratos que o Milton mais gostava, estava o arroz carreteiro.
Se eu perguntasse o que desejaria comer ? Ele respondia: "o que é mais fácil!" 

Às vezes, me respondia brincando,
"pode ser um Caviar". "Que nunca viu, nunca comeu, só ouviu falar"... dessas ovas gosmentas, que só pela descrição, tenho certeza, que não iria agradar seu paladar.

Gostava também dos assados. Das massas e dos pescados. Carne teria que ser no ponto. Para ele bem macia e bem passada.

Preferia os pratos mais simples. Ovos fritos.... amava. Frango tinha que ser  frito e macio. Peixes? poderiam ser ao molho, fritos e assados. Carne bovina? gostava das carnes de panela bem cozidas, lombos cheios, picanha e cupim assados. Carne suína: preferia as de ossos: costelinha, suã, cozidas e fritas, além de lombo assado ao forno, linguiça frita e leitoa assada.

Gostava dos temperos...mas o tal cominho e ervas finas não apreciava. 

Folhas não comia, e dizia que o ser humano não foi feito para comê- Las, assim como os ruminantes. Que comem... comem...depois vão se ruminar. 

Gostava de sair fora para jantar, 
mas, no dia a dia, era dos meus
pratos que ele, modéstia a parte, gostava mais. E para quem não via como serviço, era um jeito tbém de amá- lo.

Gostava de todos os produtos lácteos, principalmente, das suas vacas gir porque por terem menos lactose, não lhe fazia mal; era doido por queijos e requeijões, e muitas vezes, me ajudou a fazer. 

Gostava de fartura - era uma festa para ele o dia que matava porco, vaca, frangos e fazia pamonha. E, sempre, me dizia que gostava das menores, preferia a de sal, com queijo e linguiça. No outro dia, gostava delas fritas. 

Não era muito de comer doces caseiros, os preferidos eram de abóbora com coco e os docinhos de festa, principalmente, aquele de leite ninho), bolos, rosquinhas, pães de queijo e biscoitos, comia um ou dois pedaços...mas gostava de ver prontos na mesa. Gostava de pão feito na chapa.

Sempre, procurei fazer os seus gostos. Porque sentia e via, nos seus olhos, o gosto por tudo que eu fazia. 

Um amante das frutas
Milton gostava muito de frutas.
Dizia: "Fui um menino criado no mato, que passava a frutas do cerrado - cajuzinho do campo, pitanga, croadinha, gabiroba e maminha cadela". Gostava também das frutas dos velhos quintais, principalmente, da manga coquinha, do abacaxi, da banana maçã, da laranja, de lima e de jabuticaba. 

Ele gostava, também, muito de melancia. E, por falar dessa fruta, lembrei- me de uma passagem, por incrível que pareça, até engraçada:  Certo dia, sabendo que os netos iam chegar, e que eles gostavam muito também de melancia, chegou em casa com uma bem grande. (Era muito raro trazer alguma coisa para casa. Dizia: "não sou um homem doméstico, não sei comprar nada". E tinha mesmo dificuldades para fazer compras).  

E, na escolha apressada, não percebeu que a melancia estava com um talo meio podre, e eu lhe disse: "Milton, essa melancia, parece, que está bem passada. Melhor seria, trocá- lá!" Ele olhou meio desconfiado... não gostava de fazer esse tipo de coisa, mas como era na esquina, quase em frente a nossa casa, pegou a melancia e saiu. 

Chegando lá para trocar, certamente, disse à senhora, que não me  conhecia e nem a ele, que eu havia lhe dito, que achava que aquela melancia não estava boa; e ela, com certeza, deve ter argumentado "que estava, e que todas estavam iguais...". 

Posso até imaginar a sua cara de nervoso; segundo a minha diarista, que passou por ele, no momento; ele respondeu para a mulher em um bom tom, já nervoso: "Dona, uma mulher enjoada eu aguento, agora, duas , não". Pegou outra melancia, e chegou pisando duro em casa. Rsrsrsrrsr. 

Mas, depois, passou a comprar a metade de uma melancia. Ficou amigo da família que vendia. Sempre, chegava em casa com uma, colocava na geladeira, depois que gelava, assentava na sua poltrona e ia ver TV, Pingos nos Is, Jovem Pan ou TV Senado, comendo melancia ou outra fruta. Gostava das frutas geladas. Abacaxi, jabuticaba, laranja, sempre, geladas. E, realmente, ficam mais saborosas. 

Gostava das uvas, e, sempre, quando pegava um cacho delas me dizia: "não consigo pegar um cacho de uvas para comer... e me oferecia algumas do cacho... ah, fui tão pobre, e era tão raro. Raríssimo. Hoje, posso comer, e não consigo..."
 






sexta-feira, 19 de novembro de 2021

6 - Casamento

Namoro no tempo das cartas

Acredito que há, com certeza, "n" possibilidades de lembranças de entes queridos guardadas pelas pessoas, de acordo com o gosto pessoal de cada um. Há quem não guarda nada, mas muitas, guardam, afinal, apegar-se a algo que foi importante, afetivamente, em nossa vida é natural do ser humano.

Eu herdei esse apego pelas coisas, acredito que da minha avó materna - lembro- me dela nos mostrar a sua primeira paganzinha, e fiquei admirada, na época, por guardar algo por tanto tempo, e, ainda, estar, praticamente, intacta. 

Do mesmo modo, acredito que os meus netos ficariam... se eu lhes mostrasse a imensa sacola de cartas que guardo por 47 anos. Tenho certeza que me diriam: "Nossa, vó, a senhora guarda tudo isso...tanto tempo... e estão perfeitinhas?!"

Eu e o Milton namoramos quase três anos por cartas! E guardo, ainda, até hoje, quase meio século depois, todas elas -  uma grande coleção de nossas tão românticas e bem elaboradas e dobradas cartas escritas, manualmente ou digitadas, nas antigas máquinas de escrever.
 
O papel já está bem amarelado pelo tempo, mas pode perfeitamente, remontar a nossa história, se lidas pelos nossos filhos e netos. Os únicos que poderiam ter certa curiosidade de nos conhecer melhor interiormente. 

Essa foi uma prática milenar dos enamorados, de  familiares e outros, que viviam a distância, por ser o único instrumento de trocar informações entre os mesmos; além de registro de fatos históricos e do cotidiano. İnspirando, inclusive, muitos escritores a escreverem sobre as cartas de amor, que chamavam atenção pela linguagem delicada e muitas vezes poética, com caligrafia impecável. E as nossas não são diferentes. 

E lendo algumas de nossas cartas, no amontoado de centenas delas, relembrei do meu eterno namorado, do seu jeito de ser, de seu romantismo, de suas preocupações, e fiquei pensando que, no tempo das cartas, os namorados, embora, distantes, pareciam estar mais conectados, porque poderiam através do papel extravasar seus sentimentos, suas expectativas, seus desejos e suas saudades e, muitas vezes, até o seu perfume. ( Às vezes, a gente jogava perfume, rsrsrsrrsr) Vantagem que o WhatsApp, Facebook e Instagram, ainda, não podem nos oferecer.

O tempo passa, as pessoas queridas  partem, mas as lembranças ficam eternizadas em nossa memória... Assim, aconteceu comigo. Hoje, tudo que o Milton fez e foi ficará registrado, através dos seus textos, de suas cartas, fotos, livros e objetos que ele gostava, instalados, na fazenda, como: seu engenho, seu carro de boi, tudo que ele valorizava, sua lembrança está. 

Para mim vale a pena guardar e conservar objetos que os entes queridos gostavam, desde que não geram desconforto pela falta de espaço e pelo dano do tempo. Ou espaço psicológico, segundo leituras, "uma vez que, para cada objeto que guardamos existe uma representação mental dele ocupando espaço na nossa mente". 
Não, não é este o meu caso de transtorno desse ou daquele, não é nada em excesso.  
 
Primeira serenata

A serenata, hoje, caiu em desuso, mas no final da década de setenta, quando eu e o Milton começamos a namorar, ele com 22 anos e eu com 18 anos, os jovens tinham o hábito de fazer serestas surpresas para as suas namoradas ou pretendentes, aos sábados, domingos e feriados, próximos a janela do quarto da homenageada depois que todos estivessem dormindo. 

Como as casas, geralmente, tinham alpendres, uma espécie de varanda do lado de fora, então, facilitava ficar ali na porta da casa por alguns minutos com alguns amigos. Livrando da chuva, do sereno da noite ou de algum pai ciumento. (Meu pai era muito sistemático, e saiu a porta, com seu jeito severo e inabilidoso, nos causando grande tristeza e vergonha.)

Quem não sabia cantar ou tocar um instrumento, escolhia duas ou três músicas, geralmente, mais românticas de Roberto Carlos, principalmente, e gravavam em alguma fita cassete, e punham para"rodar a fita". Agora, quando sabiam tocar e cantar,  encantavam mil vezes mais. O Milton tocava, cantava e me encantava.

 Milton morava em Goiânia, mas sempre, quando vinha a Jataí me ver, fazia serenata para mim. E eu escutando, ficava maravilhada, fazendo inclusive análises das músicas. Eu não entendia  nada de análise do discurso, mas já fazia muito bem análise das letras que ele cantava para mim.

E a primeira serenata, a gente nunca esquece, e essa tinha, como seleção, estas duas  lindas canções cantadas e tocadas por ele. Lembro- me bem. Milton tinha uma linda voz. Estávamos muito apaixonados  - amor a primeira vista!

Boa noite...

Diga ao menos boa noite
Abra ao menos a janela
Pois eu cantei foi pra você

He...he...heê...he..he... heê

Boa Noite..

Durma, durma bem com os anjinhos
Para acordar amanhã cedinho
Eu cantei só prá vc!! 

He...he...heê...he..he... heê

Boa noite..

Diga ao menos boa noite...

Composição: Desconhecido e revisão: Bernardo Bicca

A segunda música foi esta, intitulada:

Será que eu pus um grilo na sua cebeça de Guilherme Lamounier.

Galo canta é de manhã
Nuvens espalhadas feitas algodão
e a terra cheira como bala de hortelã

Abro meu coração
Solto meus cabelos livres no ar
e não quero mais saber

Quero é dividir o meu amor com você

Olhe dentro dessa manhã
Olhe a natureza solta no chão
Veja aquele esquilo entre nozes e avelãs.

Namoramos três anos por cartas, ele morava em Goiânia, porque já fazia faculdade lá, e nos finais de semana e feriados, ele vinha me visitar em Jataí.

(Foto do envelope e de uma carta) 

Logo depois, pediu-me em casamento pessoalmente. Casamos, e mudamos para Goiânia. 

( Fotos do nosso casamento) 
Casamos dia 22 de julho de 1977, em Jataí, na igreja São Sebastião; numa cerimônia religiosa com efeito civil, celebrada pelo bispo... Thomás, apenas com a participação dos nossos familiares e amigos.

Antigamente, não era permitida a decoração da igreja, só o tapete e uns dois arranjos no altar. Mas...lembro- me que arrumamos um fotógrafo e um casal de músicos para abrilhantar aquele inesquecível momento, com canções especiais, transmitindo toda a nossa emoção e todo o nosso amor ao som do piano.

Terminei o segundo grau em Goiânia.  Depois de quatro meses, engravidei do nosso primogênito. Virgílio nasceu. E o Milton resolveu trabalhar por conta própria. Aí começávamos a viver a realidade, propriamente, dita. 

( Uma foto do Virgilio comigo )

Conflito entre o real e o ideal
 
Existe um conflito de pensamentos em minha cabeça. O real e o irreal disputam lugares em minha mente. Penso nas verdades dos outros e nas minhas verdades. Mas o que é a minha verdade?

Deixo o pensamento vagar até o infinito de minha imaginação, sinto distante do meu corpo, desta pequena forma humana que são: ossos, músculos, veias, cérebro, coração e sangue...

Mantido por H/2/O, O e uma alimentação envenenada. Fico pensando naquilo que me cerca, revolto com as coisas tão cotidianas e tão ridículas que me obrigam a fazer. 

Por isto, para conciliar as duas coisas, deixo o meu corpo assentado, trabalhando sobre à mesa do escritório, e o meu pensamento caminha por outros mundos, até chegar o momento de reuni-los e ir embora para casa. 
.................................................................
Para algumas pessoas há sempre um conflito entre o real e o ideal. Isto é, vivem o conflito entre a sua expectativa e a  sua realidade. 

Mas o que é mesmo o real e o que é mesmo o ideal? Será que o real e o ideal podem caminhar juntos? Sabemos que o ideal existe no plano das ideias, enquanto conceito, aprovado por aqueles que já viveram mais tempo ou já experimentaram tal coisa, ou não por aqueles que, ainda, sonham com as realizações, mas, ainda, vivem no terreno da emoção. 

Por exemplo, quando estamos lutando para passar em um concurso, em um Enem ou namorando, preparando para se casar ou na fase da geração de um filho, da formação de uma família, costumamos enxergar mais só o que vai nos trazer prazer, não enxergamos os plantões do trabalho, não enxergamos as barreiras que há entre conviver com uma pessoa do seu lado que não foi criada como você, além das possibilidades de não se adaptar e de não dar certo. E, como disse Guimarães Rosa, o real não está na saída e nem na chegada, ele se dispõe prá gente é no meio da travessia. 

Então, se o ideal, enquanto ideia, enquanto conceito, é algo descolado da matéria, fica mais a flutuar, no plano das emoções, como o Milton disse: "ele deixava o seu corpo assentado, trabalhando e ia vagar por outros mundos; talvez, o mundo ideal, da imaginação...  


De ser, no futuro, um profissional respeitado, independente, que pudesse viver com mais dignidade, mais qualidade de vida, ter a sua casa própria, ter o que sonhava desde bem jovem, etc. Assim, como disse Rubem Alves, esperamos “pela alegria que não mora no futuro, mas no agora”. 

E quando essa alegria tem que ser conquistada com os seus próprios ideais e trabalho, como o Milton sonhava, a ansiedade é maior.

E todos os dias vivemos esses dois mundos - o real e o ideal. E a matéria é o mundo real, ou seja a vida como ela é, sem maquiagem, sem rodeios, sem fantasias. Diferente do ideal.
Mas, segundo Domenico De Masi, sociólogo italiano, "a racionalidade não deve prevalecer sobre o emocional e o emocional não deve prevalecer sobre a razão.”  Devem ter um certo equilíbrio e a importância da percepção de ambos sentimentos.

Inconstância

Para onde foi a minha vida?
Deixei- a guardada numa mala,
e corri atrás da sobrevivência.

Procurei dinheiro, paz, prazer, amor, em fim procurei a máquina de fazer felicidade.

Quando em fim já cansado
Lembrei da minha vida...
Corri para apanhá- lá...
Não mais a encontrei.

Agora, não sei mais o que procurar
Talvez parando de procurar
Encontro o que não consegui
encontrar durante todo esse tempo.
                             

Nessa data, eu e o Milton começávamos a viver o plano, propriamente, dito da realidade. Um ano e pouco de casados, o nosso primeiro filho com dois meses de idade; ainda, fazia Faculdade, tinha deixado de trabalhar de empregado e foi trabalhar por conta própria - abriu o seu próprio escritório de Contabilidade... Nossas despesas não eram pequenas, tinha gastos com funcionários domésticos, do escritório, e outros, e não tinhamos uma renda fixa.  Então, ele, principalmente, viveu momentos de profunda ansiedade e insegurança. Reconheço que não foi fácil. 

É difícil entender o ser humano ( Nilva)

Se vivo desse jeito ou daquele
Estou desapropriado  ou errado
Se choro - para que chorar
Se corro, para que correr
Se não corro, assim não dá.

Se ganho dinheiro, tenho sorte 
Se não ganho, tenho azar
Se só penso em riqueza, 
"Prá que? Vai morrer
Nada vai levar".

Se esbanjo, não pensa
No dia de amanhã. 
Eu ou você vai ter que decidir?
Se gasto  dinheiro ou se vou guardar?

Se não tenho casa, precisa comprar. "Se compro prá que?
Gasta um dinheirão!" 
Melhor  alugar. 

Se alimento fora, melhor não.  Se não- nossa, muito melhor! Fazer comida só dá trabalho!

Se ando de coletivo, melhor de carro. Se saio de carro, melhor de ônibus. Se saio, ah, não pode sair
Se não saio. Só fica em casa!

Se tenho o cabelo comprido, por que
você não corta? Se eu corto, por que você cortou!? Sempre, vai ter alguém para nos julgar.

Rsrsrsrrsr... Vixe 😞!
Só sabem complicar
Faço bem é não escutar...


Bodas de Carbonato

(Foto de nosso casamento)

Eh!! O tempo passou... e passamos juntos com ele. Já estávamos prestes a comemorar as Bodas de Carbonato,   "elemento composto por pequenos cristais, que nos remete a vida a dois... que precisa lidar com os obstáculos e com a solidez que o tempo ao casamento traz".  (Pesquisa Google)

Casamos tão jovens... eu com 21 anos e o Milton com 25. Tão apaixonados... tão ciumentos um do outro... tão esperançosos... tão aventureiros e tão inseguros...  ao mesmo tempo; e como dizia o Milton: " aínda, sem eira e nem beira"... precisou de ir a luta, incansavelmente, e com muita economia, para "dar conta do recado", dos compromissos e objetivos que jurou para si mesmo que seria capaz de cumprir e conquistar. 

Mas...não imaginaríamos nunca os desafios que teríamos que enfrentar...e nem o quê o futuro nos reservava de bom e nem de ruim. Ninguém pode mesmo prever... e nessa idade, então, só tínhamos sonhos e belas expectativas. Éramos marinheiros da primeira viagem... que não tinhamos a bússola e nem o roteiro... só muita
vontade de prosseguir. "Encarando o mar  com a cara e a coragem."

E, apesar das adversidades e contratempos, que a imaturidade nos prega, conseguimos resistir e sobreviver muito bem quarenta e quatro anos juntos, graças a Deus!!  Uma vez que,  a vida não é 100% perfeita para ninguém. Como disse Rodrigo de Abreu: "casal perfeito não é aquele que nunca tem problemas, mas sim aquele que, apesar dos obstáculos, sempre permaneceram juntos".

E foi uma vida juntos! E só o amor, a  admiração, a compreensão e o gostar da companhia do outro - de ambas as partes - tem esse poder de nos unir por tanto tempo. O Milton dizia: "Quase meio século juntos"! Fase que estávamos compartilhando de um sentimento bem menos apaixonado do que no namoro e início de vida a dois. Mas bem mais sincero, mais fortalecido, mais companheiro e mais verdadeiro.

Milton, sempre, foi um marido e um pai cuidadoso e zeloso. Nunca nos deixou faltar nada. Era muito trabalhador e dedicado,  buscava, sempre, melhorias para a nossa vida financeira, para nos dar uma vida mais confortável, mais digna e segura, na velhice, para nós e para o futuro dos nossos filhos. Nunca me escravizou no trabalho - sempre, tive uma pessoa que me ajudasse em casa.

Nunca foi egoísta, nunca tolheu a minha liberdade; sempre me deu o direito de trabalhar, de especializar na minha carreira, de conquistar o meu próprio espaço também, como profissional e como mulher, e ter a minha independência.

Fui, de certa forma, protagonista da minha própria vida, embora, ele tenha sido o meu maior suporte. Sem ele em minha vida, meu caminho, com certeza, teria sido outro, totalmente, diferente. 

Minha vida não teria sentido sem ele.
Um pouco de tudo que sou, de tudo que sei, de tudo que conquistei, de tudo que aprendi - de literatura, de música, de poesia, de cultura e de política , aprendi com ele. Foi sempre muito compreensivo, no sentido de me incentivar e de nunca problematizar as minhas faltas em casa, devido o meu trabalho ou os meus estudos.  

E por isso, esse tempo representa para nós uma verdadeira e grande conquista. E precisaríamos de agradecer muito a Deus, e comemorar, se aqui o Milton, ainda, estivesse. Como diz a escritora Ana Sparz: "Aniversário é época de agradecer e comemorar, pois a experiência de viver é o maior presente que Deus podia nos dar." 

Se houve uma regra, para termos vivido todo esse tempo juntos - uma das principais foi: evitar as discussões e caso houver, não devem, necessariamente, terminar tendo um vencedor. A gente perde quando pensa que venceu uma discussão. Melhor será evitar discutir, e seguir a velha regra dos mais velhos: "de que quando um não quer, dois não brigam". Não esquecendo, também, o que disse, certa vez, o escritor Ferreira Gullar, " eu prefiro ser feliz a ter razão".

E... foi agindo, assim... ajudando e fortalecendo um ao outro, nos dias mais difíceis, cada um respeitando a individualidade do outro também... com muita paciência...muita sabedoria, um pouco de bom humor, muita educação e muita resiliência, principalmente, quando os obstáculos apareceram... "pensando que podiam mais do que um compromisso sério e uma preparação idealizada para o casamento", "até que a morte nos separasse"; exigindo de nós que deixássemos que a razão falasse mais alto do que a emoção. 

Enfim, dois filhos criados, dois netos...e um amor sincero, fortalecido e verdadeiro foi vencedor, até o dia que Deus o levou. 


Capítulo Filhos e netos

(Fotos dos filhos e netos)

 Depois, irei encaixar um texto referente o Virgílio, mas que está em Caiapônia

Nascimento de minha filha

Recebi, hoje, a notícia do nascimento da minha filha. Fiquei emocionado e feliz. Viajarei para Jataí, com o único objetivo de conhecê- la pela primeira vez.
Correu tudo bem, minha esposa teve um parto tranquilo, e está passando bem.
A minha filha é morena e de cabelos negros, o oposto de meu filho que é loiro. É bonita e será uma linda mulher, assim, como a mãe. 
Agora, mais do que nunca, é preciso educá- Los e ensiná-los a viver.
(Cpa, 22/06/1980).

Foto da Nalygia



sábado, 6 de novembro de 2021

26 -A vida é um sopro

Sempre, quando morre um ente querido, ouvimos de alguém ou lemos nos  stories de muitas pessoas a frase que “a vida é um sopro”, seguida desta preciosa lição, considerada por todos, principalmente de imediato, como o ideal sentido da vida - "Viver e amar no presente”.

E, embora, seja urgente, sempre, é deixado para depois, devido ao apego ao celular, rotina cansativa, do dia a dia, tanto no trabalho quanto nos estudos, que nos amarra muito, nos deixando presos, sem podermos fazer bem até o essencial, que é cada um poder viver melhor para si mesmo, com os nossos familiares, com os nossos amigos e companheiros de jornada de trabalho. As vezes, o estresse é tanto que nos consome, enraivecendo por pouca coisa. 

Na verdade, muitos de nós, não fomos preparados para viver, apenas, momentos felizes. Nos fizeram acreditar que para sermos felizes, a felicidade deveria ser constante, ou seja, a vida toda; e não é, a vida nos permite ter, apenas, momentos felizes. 

E esses momentos são "Instantes",  que a escritora americana, Nadine Stair, com 85 anos, vem nos falar, inclusive, com sentimentos de arrependimento, por não ter aproveitado a vida como gostaria, e vem nos dar uma grande lição, enquanto é tempo;  segundo padre Manzotti, no seu programa "Poetizar".Uma vez que, "Vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes.” João Guimarães Rosa (1908-1967)

Vejamos que beleza de poema.

INSTANTES

Se eu pudesse viver novamente minha vida, na próxima,
trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão
perfeito, relaxaria mais, Seria mais tolo ainda do que
tenho sido, Na

Verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico, correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas,
nadaria mais rios. Iria a lugares onde nunca fui, tomaria
mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e
menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e
produtivamente cada minuto da vida: claro que tive momentos
de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter
somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feita
a vida, só de momentos; não perca o agora. Eu era um desses
que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de
água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse
a viver viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no
começo da primavera e continuaria assim até o fim do
outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais
amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra
vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que
estou morrendo.

(Poema de Nadine Stair atribuído a Jorge Luís Borges)


Sempre, questionei sobre o sentido e o fim da vida. Por que isso aconteceu com essa pessoa e não com outra? Por que agora? Foi uma fatalidade? Ou chegou a sua hora? De repente, sem nenhuma explicação, sem nenhum sentido, a pessoa passa dessa vida para outra.  Era o seu destino?

Muitas pessoas acreditam que o 
destino já venha traçado, pronto, ou seja, demarcado. Muito triste pensar dessa forma, não é? Acredito que há uma força sobrenatural que atua sobre nós seres humanos, e a que podemos contar é com a força de vontade, que Deus nos dá todos os dias para começar e recomeçar. Destino, não! 

É claro que contar com um pouco de "sorte" é muito interessante, para podermos viver melhor, fazer as escolhas acertadas e mais saudáveis, atrair mais oportunidades de momentos mais felizes, de acordo com os sonhos ou jeito de cada um. 

Uma vez que, somos nós que vamos construindo o nosso mundo; entre erros e acertos, a nossa trajetória vai sendo registrada, vamos assim dizer; mas que, muitas vezes, vamos vivendo, involuntariamente, típico do significado que o dicionário nos traz, "sem saber o porque... um pouco inconsciente, sem muita reflexão... tipo - deixa a vida me levar". Mas que Joseph Campbell vem reforçar esse pensamento, dizendo que, "a vida é desprovida de sentido, nós que lhe damos ou atribuímos o sentido. E que estar vivo é o sentido.”

E, embora, muitas pessoas, ainda, não consigam enxergar o sentido da vida vivendo...depois que perdi o meu saudoso marido, essa questão ficou muito clara para mim, não importa quantos projetos realizamos e qual era o meu, o seu, o nosso propósito, não temos muito controle de nada; e tudo na vida pode mudar, como as nuvens no céu; já percebeu o quanto as nuvens mudam num piscar de olhos, e apesar de sermos conscientes disso... não podemos parar... quase ninguém pode...

A vida continua...  com trabalho, com tanta coisa que as convenções humanas, com suas crenças limitantes vão exigindo de nós, e vão nos agregando, de certa forma, como se fosse lei,  e vamos agindo mecanicamente, como se fôssemos viver para sempre... e a vida vai passando... e nós vamos acomodando...e esquecendo de dar um melhor sentido às nossas vidas.

E aí... por falta de tempo, de repente, não importamos de deixar mensagens de bom dia no grupo da família. A família também não preocupa...

Por falta de tempo não cumprimos o ritual de beleza, não passamos um creme e nem o filtro solar, não tomamos o café da manhã direito, não cumprimentamos o vizinho de porta ou o que passava pelo portão, ou saia do elevador. 

Por falta de tempo não ligamos mais para os pais, para os irmãos e para os amigos. Eles também, não! 

Por falta de tempo não cumprimentamos o colega de trabalho pelo aniversário, não o elogiamos, não o parabenizamos pela sua conquista.

Por falta de tempo, não temos olhos para os ipês, para as sibipirunas e os flamboyants floridos da rua que passamos por ela todos os dias.

Por falta de tempo não consertamos aquela roupa que compramos para ir naquele evento com a família!  

Por falta de tempo não regamos nossas plantas e não batemos na porta daquela vizinha nova. Ela também não teve tempo. Ninguém tem mais tempo. Tempo ou interesse?  

Por falta de tempo não vamos mais à igreja. Não temos tempo para Deus! Não temos tempo para a família. Não temos tempo para contemplar a natureza. Não temos tempo para o outro e, principalmente, para nós mesmos (as).
Por falta de tempo esquecemos de 'viver'. De fazer o que vale mais a pena "viver para si".
Tudo por falta de tempo? 
Ainda dá tempo! ? Só o futuro dirá.
Não esqueça que só temos uma vida para viver .

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Meus oito anos – Poema de Casimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
…………………………..
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

Poetizando a rotina

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Eh, minha filha, eu sei que as coisas por um lado não andam bem... fico sem entender... precisamos orar e pedir para Deus libertar vc deste mal terrível que provoca em vc, quando tem que sair... e por sofrer por coisas tão banais, como roupas, calcinhas, etc. Roupas, a gente deve ter uma quantidade suficiente para nos ajudar, não para nos fazer sofrer, e poder sair bem, se sentindo bem!
Quando não tem uniforme para o trabalho, gasta muita roupa mesmo, e elas vão ficando surradas porque lava muito. E a gente deve ter umas roupas para o trabalho e outras prá sair.  

Não queria falar disso porque sei que vc não entende... mas se unhar toda por causa que não tem roupa! Porque diz só ter um brinco para sair? Que isso! Pense bem, se está agindo certo!? 

Minha filha, vc é uma pessoa inteligente, vc é uma pessoa que preocupa comigo, vc é uma pessoa que todo mundo respeita, sabe que vc é uma pessoa autêntica, direita, honesta e independente.  Mas há momentos que está perdendo o controle, e isso não é bom para vc. E perdendo por coisas insignificantes. 

E embora tenha um emprego que não goste, vc pode comprar o que quiser, dentro de suas vontades. É uma pessoa bonita, tem um corpo ótimo! 

 Minha filha, o que seu pai deixou prá gente, é preciso ser valorizado vivendo bem, vestindo do jeito que vc gostaria. Para o seu pai era o maior prazer era saber que vc comprou algo que gosta. Porque sofrer por isso!? 

A gente precisa procurar viver melhor, principalmente, resolvendo as coisas que são possíveis resolver. 


sábado, 23 de outubro de 2021

18-A espera é melhor do que a conquista

Mesmo antes de chegarmos ao  mundo, a nossa vida foi de espera.  E de lá para cá, o quanto temos esperado e, ainda, com certeza, vamos continuar a esperar?

Sempre, vamos esperar por alguma coisa. É normal. O ser humano espera, idealiza, cria expectativas. Tem esperança. Começa pelo desejo de andar, depois correr, depois falar, depois ir para escola, e depois não pára nunca mais... espera para passar naquele Concurso,  passar  naquele Enem, espera para casar, espera para ter filhos, ter a casa própria... ter o seu maior sonho realizado....etc...etc... e o saco de espera nunca enche... não termina nem mesmo com a velhice.

Esperamos, sempre,  por um novo ano, um novo começo, uma nova vida. Pelo início do curso e pela conclusão dele. Pelo início do emprego e pela aposentadoria.  Depois, pelas férias e pelo fim delas. Estamos, sempre, esperando por algo que nos deixa mais tranquilos e felizes.

Queremos, sempre, mais e mais em todas as áreas e sentidos! É um querer atrás do outro! E quando tudo realiza acaba a graça! Precisamos arrumar algo para dar um up em nossa vida, para esperar de novo...e quando não tivermos o que esperar, a vida perde o sentido...

O Milton me contava uma história de um amigo, que comprava as fazendas, construía casas, curral, fazia tudo que desejava...  quando tudo estava pronto, só lhe servia vender. Acabava o encantamento. Aí, ele comprava outra fazenda, fazia tudo muito perfeito, depois de tudo concluído, vendia de novo. Bastava que seu desejo fosse realizado para perder toda a graça.

Assim, é o ser humano, espera tanto tempo por algo, planeja, sofre, sonha e depois que conquista, perde lhe o gosto!! 




 

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Mulheres do estilo Tradicional gostam de roupas formais, com linhas retas e poucos detalhes. Buscam sempre peças de excelente qualidade, bom caimento, duráveis e principalmente discretas.

Gostam de cores como vinho e creme, e as estampas prediletas são as mais tradicionais como risca de giz, espinha de peixe, xadrez "príncipe de gales" entre outras.

Transmitem uma imagem conservadora e de respeito.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Concordo plenamente! A sua história pode despertar muitas pessoas para a vida; nos mostrando que "o fundo do poço é mais embaixo". 

Às vezes, temos problemas, aparentemente, tão pequenos, mas que pela ansiedade tornam tão grandes, e achamos que tudo está perdido, mesmo tendo um corpo funcional, membros movimentando, tudo!! 

Gostei muito da aula de hje. Sou positiva, sempre, tive a autoestima boa. No momento, estou vivendo um luto, meu marido faleceu. E parece que cada dia, acredito que os problemas aumentam mais. Sinto insegura, "remoendo problemas". Vivendo, como se não existisse nada de bom na vida. Presa só nos problemas e deixando o que é positivo esquecido.


domingo, 10 de outubro de 2021

Canção de Exílio

 O Milton amava os pássaros, mas o seu preferido era o sabiá, o Sabiá-laranjeira, que é facilmente reconhecido pela cor laranja ou ferrugínea de sua barriga ou, pelo seu canto melodioso. 

Uma das espécies mais populares do país, que com seu belo canto inspirou poetas consagrados como Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Tom Jobim, Luiz Gonzaga e Chico Buarque

Mas entre todas as homenagens, uma se destaca na memória popular, o poema Canção do Exílio onde o poeta Gonçalves Dias imortalizou a ave em seus famosos versos: Minha terra tem palmeiras/ onde canta o sabiá.

Logo que passamos a frequentar mais a nossa fazenda, onde temos a sede, denominada "Morro de Mesa", o Milton dizia que um pássaro que, ainda, não  tinha visto por lá, meio a tantos, era o sabiá; e ficava encantado com o canto de um que cantava no quintal da casa de minha mãe em Jataí. Realmente era encantador! Sempre estava cantando, quando íamos na cidade visitá-la. 

E, depois de algum tempo, minha mãe veio a falecer, então, nós herdeiros vendemos a casa dela, e nunca mais voltamos naquele lugar. De repente, um sabiá cantando na fazenda. Milton dizia em tom de brincadeira - "sua mãe mandou o sabiazinho dela para cá", e complementava: "aqui não tinha, você lembra!"

E, há oito meses de sua partida, fui prá fazenda, e lá estava o seu sabiá cantando o dia inteiro, bonito e triste, e por incrível que pareça, do lado esquerdo do meu peito, não sei se anunciando a chegada das chuvas ou para atrair alguma fêmea. 

E segundo pesquisas, "o sabiá pode cantar até dois minutos, e ainda podendo incorporar a sua melodia o canto de outros pássaros do ambiente, fazendo com que seu canto seja ainda mais impressionante". Mas comovente fica, quando as lembranças e a saudade misturam com aquela melodia,  invadindo a nossa alma de um jeito que nada pode confortar.

Quando alguém parte desta vida, tudo serve para relembrá-lo. Ah, que saudade que me dá das "manhãs fazendeiras", como ele dizia, a gente saía bem cedo da cidade e íamos para a fazenda, com todo ânimo de sempre! 

Sempre, lembro dele animado. Mas se algo o chateasse, ah... "acabava o homem", era uma expressão que gostava de usar. Dizia também "não sou homem de ficar triste! ". "Não me deixe ficar triste".

Ah, minha terra tem palmeiras 
             Babaçu, guariroba, buritis
Onde ainda canta o sabiá 
              Mas de tão bonito e triste
Faz a gente se arrepiar.

Oh, que saudade eu tenho
           Das felizes noites fazendeiras
Vendo com ele a lua cheia 
            Escorados na porteira do curral! 

Que de tão bela nos convidava
                   Ao romance a luz do luar
Ou ouvindo suas melodias 
Ao som do seu violão ou de sua viola
                   A rir e  a conversar

Ah, se eu tivesse o poder
                     De fazer o tempo voltar
Eu queria ele de volta
                     Para podermos ver a lua 
 E ouvirmos juntos 
                  O canto do sabiá.



quinta-feira, 7 de outubro de 2021

3- Invasão

A invasão e o impulso para dominar e superar os obstáculos...

Estão construindo uma casa de luxo perto da casa simples de minha mãe. 
Primeiro, fizeram grandes muralhas, impedindo a admiração dos moradores humildes daquele bairro. 

Os ricos vão espremendo a pobreza e depois a expulsa. Só não compreendo porque as muralhas. Por certo para impedirem que a pobreza daquela gente não invada a rica mansão.

Meu bairro agora ficou mais triste, com aquela construção. Antes, eu via árvores e capins... agora, vejo paredes e muros 

Segundo Alexander Mueller, aluno e colega de trabalho de Alfred Adler (psicólogo austríaco fundador da psicologia do desenvolvimento individual), "Dificilmente há uma criança ou adulto que passe pela vida sem o sentimento de inferioridade.  O que é significativo são as conclusões que são tiradas da autoavaliação de alguém. Se a pessoa se sente insatisfeita, conhecer suas falhas e características negativas podem se tornar o impulso para dominar e superar os obstáculos e deficiências externas e internas. Este resultado favorece decisivamente o desenvolvimento. 

Se o sentimento de inferioridade, por outro lado, levar à crença de que os poderes e as capacidades de alguém são insuficientes — que é um inútil, um fracasso — então pode dominar significativamente o humor predominante da pessoa. 

Agora, se esses sentimentos reforçados de inferioridade impedem o desenvolvimento da criança e interferem no estilo de vida do adulto.” Para o Milton serviu de "impulso para dominar e superar os obstáculos e deficiências externas e internas", e lutar por aquilo que desejava. Tanto pelas deficiências internas quanto externas. Ele me dizia: "Eu tive que vencer tudo! Tanto a pobreza econômica quanto a intelectual". 


sábado, 11 de setembro de 2021

Caixa de memórias

Caixa de memórias

Nas memórias da vida  há tantas lembranças  que o nosso cérebro vai armazenando... sem limite...umas coloridas, outras desbotadas pelo tempo, outras momentâneas, outras mais constantes.

Entre tantas... as alegres, as tristes, as declarativas ou não, e também as episódicas, que representam os bons ou nem tanto dos momentos vividos.

Algumas memórias são mais fáceis, outras de difíceis acesso. Outras se escondem. Outras se mostram. 

Quando olho no espelho, lembro da menina franzina que fui. De dentes largos...e que por vergonha deles, escondia o seu sorriso.

Da menina dos cabelos curtos, que imitavam os da balinha Nilva, lavados sem shampoo, mas com água corrente abundante.

Da menina de rosto corado pelo sol sem limite e sem filtro solar, não faltava vitamina D. D do sol, E de esperança e A de amor. 

Da menina do sorriso sem graça 😃 pela timidez. Do seu olhar indeciso e esperançoso de um dia poder encontrar o seu príncipe encantado e ser feliz para sempre.

Da menina do coração ciumento pelo desejo de posse, que hoje chora pelo amor que não existe mais.

Da menina dentuça de cabelos curtos, como os da menina da bala Nilva, só existe um pouco da essência e do que a genética não deixa escapar.

Hoje, aquela menina do espelho conversa com a mulher de agora. 
E pergunta, onde ficou perdida a minha face, que antes era quase só alegria e agora tudo virou saudade.







17-Vidraças

Ao longo da nossa vida, eu e o Milton fomos transformando em pessoas mais pragmáticas, menos deslumbradas, nem muito pessimistas e nem muito otimistas; e que acreditávamos menos em soluções extraordinárias... 

Com o tempo...com tudo que foi nos acontecendo,  fomos tornando
mais realistas e resilientes. Tínhamos muito a comemorar, mas, também, a lamentar, é claro!  Quem não tem? É a vida! 

E, aos poucos, fomos adquirindo mais consciência e experiência de vida, e fomos aprendendo a agir mais pela razão do que pela emoção, e não nos deixarmos levar pelas "más línguas, pelos "falsos elogios" e pelo "jogo do inimigo", e começamos aprender "a colocar as pessoas do nosso lado" e nos seus devidos lugares.  

E isso só aprendemos convivendo, e  dando, literalmente, a cara a tapas, isto é, enfrentando a vida sem desistir - arriscando e sendo ousados! Mas não me refiro a nenhum sofrimento específico, mas a tudo, que com o passar do tempo foi nos ferindo,  pessoalmente, e nos ensinando.

E lembrei-me que o Milton, sempre, me dizia - "o político e a sua família são como vidraças". São vítimas da exposição, até meio que, inconscientemente, principalmente, no interior; e se foi um profissional que não era filho do lugar, e conseguiu vencer, na vida, isso piora, e as pedras vêm de todos os lados.

E, embora, as pedras tenham sido bastantes e feito muito barulho, pelo fato das vidraças serem bem resistentes - a cada pancada, ficávamos mais fortes e mais resignados. Era como se fosse um teste de fortaleza.

Todavia, não pense você, leitor/leitora, que não sofremos...sofremos muito... e nossos filhos também. E, hoje, fico pensando... quantos aprendizados, quantas experiências e quantas marcas ficaram... mas será que não teria sido melhor, se tivéssemos nos esquivados dos problemas? Talvez, teríamos sofrido menos. 

Mas o Milton era apaixonado por política. Gostava de estar no meio dos políticos e do povo. Trabalhava mais por prazer. Tinha paixão pelo que fazia. "E era essa paixão que lhe dava a energia necessária para suportar contratempos, ter persistência e a dedicação necessárias para alcançar um objetivo, mesmo quando todos à sua volta pareciam desistir ou não acreditar.(10 de dez. de 2006 PesquisaGoogle: https://administradores.com.br/artigos/reconheca-alguem-apaixonado-pelo-que-faz.)

Por isso, conseguia prosseguir, apesar de todos os obstáculos, não deixando se abater, "mantendo- se
de pé" todo o tempo, e não nos deixando perder pelo caminho, apesar de tudo. Mostrando, de certa forma, que não éramos edificados como a madeira, o feno e a palha, porque precisaríamos resistir ao "fogo cruzado", como o Milton dizia, assim, como o ouro, a prata e outras pedras preciosas.

E um dia, visitando uma casa que vendia semijoas com pedras coloridas em Gramado - RS, toquei numa peça para admirá-la, brasileiro tem que tocar para ver, e o pingente caiu; não tive a mínima culpa, mas tive que pagar pela peça quebrada. E pensei... a gente paga também pelo simples fato de ter gostado. 
















quarta-feira, 8 de setembro de 2021

A Florada das gabirobeiras e dos ipês - roxos

Repentinamente, de um dia para outro, e sem nenhuma técnica e nenhum recurso sofisticado, comecei a fotografar... e a registrar tudo que achava interessante pela frente, e, quando estava viajando ou indo para fazenda com o meu saudoso marido, as árvores - as derradeiras sobreviventes, deste meu país verde e amarelo... faziam parte do meu hobby,  sem distinção das mais esbeltas, raras ou não, para mim todas são belas - tanto as tortas quanto as secas, as baixas ou as que vão crescendo,  desordenamente... não sou muito exigente. 

Acho que por isso sou mais feliz do que muitas pessoas. Pelo menos era... hoje, nem tanto.  Perdi o encanto...ando meio, aliás... bem desencantada. Sempre, via  beleza em quase tudo, até nos liquens das madeiras antigas que cercavam o quintal da nossa casa, na fazenda; ou aquelas simples plantinhas que  sobreviviam entre pedras ou nos lugares mais impossíveis, sem se queimarem.

Meu marido, sempre, valorizava o que eu fazia, isso era algo que me encantava; mesmo com a sua impaciência, que todos percebiam no seu ímpeto, parava na estrada da fazenda para eu fotografar ou filmar. Depois de mais velho, ficou bem mais tranquilo, mais sereno e menos ansioso.

E se fosse as floradas das gabirobas, não passavam desapercebidas, jamais; eram as suas preferidas. Sempre, na primavera, quando suas copas se enchem de pequenas flores brancas, lindas, delicadas, dando uma agradável e relaxante sensação de bem estar,  limpeza e claridade ao ambiente.
Mas me avisava, cuidado com as cobras, elas gostam desses lugares. Quando estava no tempo das frutas maduras, de sabor inconfundível, a gente parava para pegá- las. Sempre, enchia as minhas mãos delas, e dizia "tem marido bom". Rsrsrsrrsr. Gostava de justificar!

(Além das frutas, o picolé da gabiroba dos Frutos de Cerrado era o seu preferido. E eu sempre gostei muito do picolé de Cupuaçu, e ele me dizia: "Mas Nilva, em vez de gostar de uma fruta típica do nosso cerrado, vai gostar de uma fruta lá do Norte, não entendo". Queria mandar no meu próprio gosto!! Rsrsrsrrsr)

Um dia, me levou para ver um lugar lindo, no campo, onde tinha muitos pés de buritis e  babaçus, e tinha feito uma represa linda para os animais. Sempre, me encantei por lugares, assim, meio úmidos, sombrios, de solo arenoso, no qual nasce uma fileira de buritis, com seus cachos de flores e de frutos avermelhados, revestidos por escamas brilhantes, e o solo forrado de folhas secas, promovendo, literalmente, sombra, água fresca e alimentos para os animais daquele lugar. 

Se tivesse que descrever o paraíso, eu o descreveria assim: cercado de palmeiras, babaçus, buritis carregados de samambaias e orquídeas bem floridas, de todas as cores e tamanhos, em campos verdinhos, todas juntas, embora, sejam mais difíceis de encontrar...

Nesse lugar que fomos, fica nas nossas terras, bem próximo da Serra do Morro de Mesa, onde produz muitas mangabas. Ah, como eram deliciosas! Não tinha sabor igual. Mas tinha que subir o morro, se quisesse se deliciar.

Um dia, prometeu me levar num lugar que tinha muitos ipês roxos. Fomos!
Chegando lá...  as flores no chão...  tinham caído todas... Ué.... ele disse: " ontem estava todo florido...e hoje já não está", nos mostrando a brevidade das coisas. Às flores do ipê duram de  quatro a cinco dias, no máximo!

Era o mês de setembro, e logo deu uma chuvinha, com os primeiros trovões. Ah, que coisa boa, aquele ar fresquinho, aqueles pingos secos nas costas, depois de um sol de rachar, vendo o gado, umas novilhas bonitas a pastar... e nós voltávamos animados prá casa, sempre, com muita esperança, que cada dia mais, as coisas poderiam melhorar.

E, sempre, a tarde, quando não ia deitar no sofá de casa, para ver os noticiários da política brasileira, ia pescar, para eu preparar o seu melhor tira - gosto, caranha frita, e depois, ouvirmos suas músicas preferidas com o caseiro da fazenda ou algum vizinho, tomando uma, duas, três ou até quatro cervejas, e depois dormir, com a expectativa de, no outro dia, acordar.

Bons tempos!! E hoje estou aqui, com os pensamentos voltados para aquele tempo. Para o passado que não volta mais. Tempo que tudo fazia sentido. Agora, só tenho histórias para recordar e para vocês contar. 

Passagens, talvez,  insignificantes para você que me lê; mas, não, para alguém que perdeu um ente querido, para nunca mais voltar. Pense nisso!