De Marta Medeiros ao filósofo Contardo Calligaris ao Papa Francisco, Clóvis de Barros, Maria Homem e Edgar Allan Poe....
Lendo uma crônica de Marta Medeiros intitulada "O que será de nós" - a autora relembra a obra do saudoso escritor e psicanalista Contardo Calligaris, dizendo que a sua perda a deixou com um grande sentimento de orfandade, pelo fato do mesmo lhe ter sido, “como um farol, rumo à sua maturidade”.
E enquanto lia, fiquei a pensar e a fazer algumas analogias - pensando na sua dor, pensei também na minha, inclusive no meu percurso quanto à minha maturidade. Casei tão jovem, e foi através da convivência com o meu marido que me amadureci plenamente. Como disse o papa Francisco, " o matrimônio é um trabalho de ourivesaria que se constrói todos os dias ao longo da vida. O marido ajuda a esposa a amadurecer como mulher, e a esposa ajuda o marido a amadurecer como homem. Os dois crescem em humanidade e esta é a principal herança que deixam aos filhos", acrescenta.
E como um ourives, fomos sendo lapidados, um modelando o outro, até tornarmos estes dois seres que você, leitor, acabou de conhecer com esta biografia - de um lado o biografado e do outro lado quem a escreveu. É claro que para chegar a este resultado final, cada um teve que passar e usar de técnicas que foi aprendendo com o tempo, com a convivência a dois e com a vida; assim, como um pai e uma mãe quando estão educando os filhos — que, hoje, embora, ainda não tenham fórmulas prontas, existem mais informações do que antigamente. Então, naquele tempo, somente, com muito amor, sabedoria, resiliência, equilíbrio ao lidar com os obstáculos, com os ciúmes, com os mal entendidos, etc.
Não é muito comum encontrar ourives capacitados nesta arte do amadurecimento,que não dêem o seu testemunho de que só com a prática, que advém do tempo para terem a certeza de que o trabalho ficou ao gosto de cada pessoa. De cada família. Como eu disse, casamos muito jovens, construímos a nossa família também muito cedo, mudamos de cidade, fomos morar longe da família, e tudo isso contribuiu para o nosso sofrimento e também o desenvolvimento da nossa maturidade emocional, nos deixando, a cada dia, melhores, mais resignados, mais resilientes e menos ansiosos.
No final das contas, como disse o professor e filósofo Clóvis de Barros, citando Edgar Allan Poe: " nunca ter sofrido é nunca ter sido abençoado". "E ser abençoado é uma graça de Deus. E Deus é amor. E aquele que é abençoado, recebe ajuda, mudando o seu estado anterior para melhor. E, segundo o filósofo, Edgar Allan Poe afirma de pé junto, peito aberto, que o sofrimento é ou pode ser uma benção importante. Tão importante que sem ele as outras bençãos perdem o seu valor. Nunca ter sofrido, é nunca ter sido abençoado. A benção pressupõe algum sofrimento. O sofrimento nos permite crescer. Nos faz pensar que talvez seja condição, inerente a vida, e possamos alcançar por intermédio de caminhos difíceis, tenebrosos, que nunca vêm desgarradas de sofrimento. Portanto, embora, pareça estranho, "nunca ter sofrido é nunca ter sido abençoado".
E nessa matéria de sofrimento, posso dizer que sofremos bastante. Foi preciso que ambos estivessem preparados para lidar, mais do que nunca, com os defeitos do outro. Vida a dois é para quem ama mesmo!
E, com certeza, fomos abençoado por 42 anos juntos.Vivemos quase meio século juntos, dentro da mesma casa! Na mesma mesa do café da manhã, do almoço e do jantar, no mesmo sofá, na mesma cama! Na fazenda...na cidade...Do amanhecer ao anoitecer. De janeiro a dezembro. Muito raramente, viajávamos sem o outro. E isso foi uma verdadeira benção. Construímos uma família abençoada. Frutos do nosso amor.
Na verdade, a gente vive muito mais tempo com o marido ou com a esposa, ou com o (a) companheiro (a) do que vivemos com os nossos pais. Por isso, quando se perde um ente querido, a gente perde o rumo de viver. Como disse Fabrício Carpinejar: "Até você entender, aceitar o que aconteceu leva tempo. Você precisa de tempo para digerir, e um longo tempo! Porque nós somos apegados".
Morreu um ente querido... você pode tirar tudo que lembra dele, suas roupas, seu chapéu, seu carro; todas as suas fotos, todos os porta-retratos. Todos os seus livros, todos os seus discos. Mas a sua imagem vai estar "espalhada nos seus hábitos".
E é verdade! A lembrança daquela rotina nos traz de volta em tudo. No noticiário da manhã, no café quente após o almoço, na sesta no sofá da sala de TV, ouvindo os programas da TV Senado, ao ouvir um toque de violão no começo da noite... Tudo nos faz recordar. Até quando vemos um carro parecido com o que era dele na rua, quando encontramos casais. Quando temos um problema para resolver, decidir. Era ele que decidia quase tudo sobre os negócios, e agora não tê- lo mais, nos traz muita insegurança. Até quando viajamos, ele vai junto com a gente! A sua falta é constante. E a vida, para mim, a cada dia, vai tornando mais desinteressante.
E quando perdemos o "interesse" pelas coisas, ou seja, pela vida, parece que tudo perde a graça, inclusive, até a esperança. Felicidade não existe. E em uma das passagens da cronista, ela relembra uma das frases mais conhecidas do psicanalista, que é: “Melhor do que ser feliz é ter uma vida interessante “.
E, eu fiquei a me perguntar: O que seria, na verdade, ter uma vida Interessante, que fosse melhor do que ser feliz? Você tem ideia, leitor (a), se todo mundo busca essa tal felicidade a qualquer preço, e já não tem prioridade nesse contexto?
Para melhor analisar essa questão, primeiramente, é preciso lembrar que ele usou a expressão "vida interessante" contrapondo com a ideia de " vida feliz". E fiquei a indagar...de que consistiria essa vida interessante? O que estaria vinculada a essa ideia? Que tipo de competência precisamos ter? Sucesso profissional?Recompensas econômicas? Aplausos? Status? Tenho certeza, leitor (a), que você deve ter pensado em outras hipóteses que lhe deixariam a sua vida também mais interessante...
Mas, para melhor significar e pormenorizar o vocábulo “interessante”, e poder trazer para você algo bem particular do termo usado - "por que uma vida interessante pode ser melhor do que ser feliz", resolvi recorrer ao dicionário Google, primeiramente, para depois ler a entrevista de Contardo Calligaris.
Vamos lá? Então, vejamos: “İnteressante vem do Latim INTERESSANS, de INTERESSE, “ser de importância, fazer diferença”, literalmente “estar entre”, de INTER, “entre”, mais ESSE, “ser, estar".
E algo 'interessante'significa: intrigante, legal, incomum, notável, raro, surpreendente, singular, agradável, cativante, encantador, adorável, atraente, fascinante, divertido, envolvente, afável”. Isto é, importante e diferente.
Uau! Logo pensei e concluí, que uma vida, assim, com esses adjetivos, é a ideal. É a perfeita! Com certeza, inconscientemente, ou não, deve ser a vida que a maioria das pessoas busca. Imagine comigo , leitor(a),ter uma vida, sempre, divertida, surpreendente, cativante, encantadora, atraente e envolvente? Pelos vocábulos, percebemos que é tudo que sonhamos - uma vida, assim, não iria cair na rotina, no desânimo, no tédio e tristeza nunca!
Todavia, leitor ( a), o próprio significado dicionarizado já não nos dá tantas “garantias de ser tão fácil”, uma vez que, a construção de uma vida interessante é algo “raro “, “diferente”, “incomum “, “estranho”, “esquisito”. E, segundo Martha Medeiros, Contardo defendia a vida “como a construção de uma trajetória individual autêntica, com experiências variadas, bem diferente da felicidade fabricada com fórmulas de obediência social".
E pensei… aí mora também um outro problema, porque, hoje em dia, até para ter "uma vida autêntica diferente da felicidade fabricada " está cada vez mais difícil; principalmente, por convivermos em uma sociedade intolerante às diferenças, “ao passo que deixar passar algo sem qualquer filtro, também possa ser desgastante e deselegante”. E, hoje, podemos perceber que a felicidade é fabricada. Segundo Contardo, é muito mais um ilusão mercadológica, uma vez que, ao mesmo tempo, que a satisfaz, satisfaz também um sistema econômico, o capitalismo moderno e o desejo das pessoas que não esgota nunca.
Por exemplo, alguém diz: o dia que você tiver aquela casa, aquele carro, aquela fazenda, aquele corpo, ter feito aquela viagem, você vai ser feliz. Você coloca essa crença em sua cabeça... mas depois que você conquista, percebe que foi puríssima ilusão.
Sempre, quando você conseguir algo, você vai desejar outra coisa, e aquela que você conseguiu já perde o seu valor. De tanto ver embaça os olhos. Como disse padre Antônio Vieira, basta que as coisas sejam experimentadas para que não sejam as mesmas, descobre os defeitos, os encantos, etc. Sempre assim.
E com isso, como disse um padre da minha cidade, na homilia de domingo, vamos perdendo a nossa essência, com fórmulas de obediência social ”, que o psicanalista fala, bem o modelo que estamos vivendo, hoje, infelizmente. Onde quase tudo é feito no coletivo e muito pouco no individual. Como diz: tudo de manada. Se alguém está fazendo isso, postou no Instagram ou Facebook, preciso fazer também. De olho, sempre, nas redes sociais, onde tem peso maior para muitas pessoas, por incrível que pareça, mais do que a opinião de alguém da família. Aumentando a percepção de comparação e de “vida idea1l” para jovens e adultos, e até para as crianças.
E, embora, a psicologia nos pregue a importância de nos arriscarmos mais, fazer as nossas próprias escolhas, ou seja, aventurarmos mais. etc; o psicanalista, durante uma entrevista, nos dá um exemplo dele próprio : "Eu, pessoalmente, fui mais por esse caminho. (caminho esse da aventura) Mas o preço foi muito alto". Ele relatou que como morava em outro país não pode chegar em tempo de ver seus entes queridos quando morreram e não teve tempo de ver o seu filho crescer. Assim, como o Milton dizia: "fazer o que quer também pode dar problemas".
E com isso, sinto que a cada dia, o estado de insatisfação das pessoas do meu convívio ou não, da maioria dos brasileiros, vem aumentando, assustadoramente; fazendo do Brasil o país mais insatisfeito do mundo, conforme leituras de pesquisas. Principalmente, num país com distâncias sociais tão grandes, com a felicidade, a autoestima e até a esperança fabricadas. Basta acessar as redes sociais como: Instagram, Facebook e outras para constatarmos a enxurrada de celebridades, influenciadores e outros.
Que sem pensar no mal que vêm nos causando, mostrando uma vida somente de prazeres e ostentação x desfavorecimento de muitos do outro lado da tela, com imagens de rostos e corpos também fabricados, enquanto a tristeza, os problemas, a desesperança,aqui e agora, do outro lado ou de ambos (muitas vezes, esse querer aparecer pode ser carência de algo por algum ângulo de suas vidas) e, desse modo, vêm contribuindo para o nosso enfastiamento e a perda do gosto por tudo. Depois da Pandemia, mais ainda, com a perda de centenas e centenas de pessoas.
Mas, voltando ao assunto de ter uma vida mais interessante do que feliz; para Contardo, "significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim."
E ele tem razão, a realidade é dura, e viver na ilusão de que felicidade é ausência de problemas é mesmo um tremendo desastre, porque uma vida assim não existe. Por isso, esta foi uma das suas respostas ao entrevistador, veja:
"Para ser feliz, enfim, o segredo é não buscar a felicidade?
Contardo Calligaris: Isso eu acho uma excelente ideia. A felicidade, em si, é realmente uma preocupação desnecessária. Se meu filho dissesse "quero ser feliz", eu me preocuparia seriamente.
Preferia que dissesse o quê?
Contardo Calligaris: Só gostaria que ele me dissesse: “Estou a fim de…" A partir disso, qualquer coisa é válida. O que angustia é ver falta de desejo nas pessoas, em particular nos jovens. Agora, se ele está a fim de algo, mesmo que isso pareça muito distante do campo do possível dentro da vida que leva, eu acho ótimo.
E a felicidade, a meu ver, uma simples professora, que de repente virou escritora, é um estado de espírito. Repetindo: A felicidade é um estado de espírito. Isto é, é uma característica. Uns a têm, outros não. Assim, como o bom humor, o sorriso, a sabedoria, a resiliência, a empatia, a desenvoltura para resolver as coisas, a liderança, etc. Você pode pensar diferente, mas eu penso assim, e a convivência com os meus alunos, familiares foi me certificando desse conceito. Nem todas as pessoas são felizes, podem ter momentos interessantes.
Continuando com a leitura da crônica, à medida que lia, fui fazendo também as minhas reflexões, fazendo uma coautoria também com a autora do texto, fui buscando outras informações. E me deparei com um diálogo publicado por Maria Homem, esposa do psicanalista que também é psicanalista, em que ela conta algumas conversas íntimas entre os dois ( o casal), de vários momentos diferentes do relacionamento deles; que ela falava brincando com o esposo, quando o mesmo ainda estava bem de saúde : "o que seria de mim sem você?" (Ou seja o que seria dela sem ele), e, segundo ela, ele respondia: " Vai ser o que você quiser".
E, depois que a doença o levou, a pergunta e a resposta ganhou um aspecto trágico e assombroso para ela. (E eu fiquei, uma simples professora aposentada a analisar o diálogo de dois psicanalistas renomados. Assim, como se dissesse para uma pessoa leiga e estranha até, a meu ver: Você será a dona de seu nariz . Da sua liberdade. De sua vida. A escolha é sua. O risco é seu. A responsabilidade é sua. Você que sabe!! Entregando a responsabilidade de sua própria vida para ela).
E é bem assim que acontece, quando perdemos um ente querido, que nos dava segurança emocional, não temos outra escolha, que não seja a de enfrentar a vida com muita ansiedade, medo e muita responsabilidade também! Não temos com quem contar, para, pelo menos, nos dizer "isso passa". Filhos, parentes não substituem. Acredito que ninguém poderá substituí-lo.
“E ser o que quiser ", de certa forma, embora, passe uma ideia de liberdade para muitas pessoas; para mim, no momento, não! Acredito que está em jogo, não só o que passa pela nossa cabeça, estão ali presas as crenças da educação que nossos pais nos projetaram, as pessoas com as quais convivemos, as nossas dependências físicas e emocionais , e até o nosso caráter.
Não é fácil! Eu pensei que com o tempo poderia sentir menos falta do meu saudoso esposo, mas parece que cada dia aumenta mais. Não vou negar para vocês para dar uma de forte, há dias, que penso que não vou resistir.