A palavra "conselho", sempre, me remete a uma música de Chico Buarque, que o Milton gostava de ouvir e também de cantar:
"Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança."
(Chico Buarque, quando escreveu a letra dessa música, o Brasil vivia o momento de Ditadura Militar, então, ele deu um conselho aos manifestantes, para não ficarem esperando de braços cruzados, porque aquela situação não ia passar, enquanto não lutassem e corressem atrás da mudança.)
E, hoje, com a tecnologia, embora, tenha facilitado bastante, as atividades cansam muito mais a nossa mente - sentimos como se fôssemos comandados pelas máquinas... nos dando a sensação de uma vida sem sentido, que só trabalhamos, e repetimos, incessantemente, o dia, a semana, o mês e o ano todo; tornando tudo enfadonho e entediante.
E, às vezes, mesmo que tudo, no ambiente que vivamos, pareça estar tudo bem, "a vida parece "muito cheia" do que nos cansa e nos estressa...e "vazia demais" de atividades que nos dão prazer. Muitas pessoas sofrem de abstinência por algo que as alegra e as faça feliz. E, por isso, estamos, sempre, correndo atrás de algo que nos preencha ou que nos deixe menos entediados e com mais apetite de viver.
Na maior parte das vezes, vamos em busca de algo para consumir de todas as formas. Como se aquilo fosse substituir o que nos falta. Muitas pessoas afogam, nas bebidas, outros até nas drogas, outras em doces, outras em viagens, outras consomem mais e mais, e muitas se envolvem, muitas vezes, também no trabalho.
E segundo estudos e teorias desenvolvidas por Freud e Lacan — "é que tais sujeitos enfrentam a “falta da falta”. Ou seja, não dispõem de algo que os impulsiona /que os entusiasme / que os anime, que mude a sintonia que estejam vivendo, no momento, em favor das suas verdadeiras aspirações.
Não é difícil de encontrar gente, assim, que está sempre em busca de algo que a sacie completamente. Embora, por um lado, seja "uma característica que está na origem do desenvolvimento da nossa espécie", segundo Eugenio Mussak, médico de formação, professor da FIA-USP e da Fundação Dom Cabral, nas áreas de liderança e gestão de pessoas, além de escritor e palestrante.
Mas para Mussak, "a insatisfação, na história da origem da humanidade, pode ser 'considerada positiva', pois possibilitou a evolução e fez o homem se movimentar para viver melhor. O problema é que o acesso às inúmeras facilidades do mundo atual, dos bens de consumo e serviços à informação, elevou muito os padrões de satisfação. “É difícil hoje ficarmos satisfeitos ou pelo menos satisfeitos por muito tempo”.
Mas para Mussak, "a insatisfação, na história da origem da humanidade, pode ser 'considerada positiva', pois possibilitou a evolução e fez o homem se movimentar para viver melhor. O problema é que o acesso às inúmeras facilidades do mundo atual, dos bens de consumo e serviços à informação, elevou muito os padrões de satisfação. “É difícil hoje ficarmos satisfeitos ou pelo menos satisfeitos por muito tempo”.
E, sempre, quando não estamos em busca de uma expectativa financeira, como bens materiais, buscamos pelo lado pessoal, mas físico. É como aquela pessoa que, embora, tenha sucesso e tenha a maioria dos objetos de desejos sonhados por muitas pessoas; mas, se esses bens não dialogarem com o que lhes faltam, que, às vezes, muitas pessoas não sabem, realmente, nem o que sejam de verdade, não resolvem. Muitas pessoas sofrem desse mal. Têm tudo, mas não têm o quê desejam.
E o Milton, como disse o seu irmão Welter, que trabalhava com ele: "Sempre tinha uma saída prá tudo". Ele dizia aos nossos filhos, quando os mesmos tinham algum problema: " Meu filho /minha filha, deixa eu te ajudar, passo o dia inteiro resolvendo problemas dos outros, posso ajudar você também". Aí, completava: "Para tudo na vida há uma saída. Só não inventaram uma solução, ainda, para a morte!" Às vezes, repetia brincando, algumas frases de uns de seus amigos da política; " o momento é de pausa", do outro "deixa eles" e de outro "calma, nada passa da hora".
Mas, ele mesmo, era uma pessoa que não gostava de comentar sobre aquilo que lhe foi prejudicial ou chateasse. Se algo desse errado em sua vida, principalmente; se alguém lhe tivesse feito algo que o desagradou, ele não gostava que a gente nem mensionasse o nome daquela pessoa ou tocasse no assunto daquilo que não deu certo. Ele evitava. "Não dava força aquilo que era prejudicial e negativo".
Era preocupadíssimo com os nossos filhos e netos! A política o deixava "falando sozinho" tbém, às vezes, gesticulava com a boca e até com as mãos. E, apesar de ser estranho ver alguém conversando sozinho, para a neuropsicóloga e psicopedagoga Adriana Fóz (2020), o hábito ajuda a desenvolver a imaginação, a linguagem, o raciocínio e a memória. "A fala faz com que a gente extravase também muito das nossas emoções, é algo que vem para o equilíbrio da mente", explicou.
E acredito que ele, certamente, por estar preocupado e tentando encontrar uma solução - fazia planos, "mexendo, literalmente, com as pedras. Segundo amigos, ele era um grande articulador político - aquele que tinha facilidade em "apagar incêndios", isto é, que sabia analisar, conversar com as pessoas e perceber alguma estratégia para conseguir montar o quebra - cabeça, ou seja, resolver os problemas de cada um.
Mas cansava... para descansar, íamos no final de semana prá fazenda, segundo ele, para poder brincar um pouco / relaxar. E certo dia, conversando pelo telefone com o seu irmão Zé Ferreira, que é médico - cirurgião pediatra, fazendeiro, conversa vai, conversa vem, resolveu lhe dar um grande conselho: "Zé...arrume um brinquedo prá vc levar a vida melhor até o fim". E continuou..." eu, se não tivesse as minhas fazendas para eu brincar de fazendeiro, de carreiro... não sei o que seria de mim, já teria morrido de tédio, ansioso como eu sou...".
E esse "conselho de brincar'', que ele falava, não se tratava de juntar os amigos e irem para fazenda para beber, jogar futebol, pescar, jogar baralho, jogar conversa fora; embora, seja uma forma, de alguns acabarem sendo mais atraídos.
Não! Não era esse o programa que ele indicava! Era se ocupar a mente com algo que poderia lhe dar um pouco mais de prazer", mesmo sendo seu próprio trabalho, e pudesse juntar o útil ao agradável. Tendo um estado mental mais positivo, que modificasse a sua postura interna.
Que pode ser conseguida com uma maior receptividade e aceitação da própria profissão que você escolheu. Como disse Confúcio: "Trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida.”
Muitas pessoas arrumam algo para preencher a sua vida em momentos de folga. Outros não! Não lêem, não escrevem, não tocam um instrumento, não pintam, não bordam, não fazem nada... Assim, a vida torna sem graça demais... Não achas?
Milton estava, sempre, ouvindo músicas, vendo um filme, assistindo algum documentário, uma série, que poderia ser sobre política ou cultura, quando não estava trabalhando. İsso o distraía bastante. Nunca ficava totalmente parado, sem fazer nada!! Só parava quando estava dormindo, e dormia muito. E... como dizia um de seus amigos: "para descansarmos, temos a vida eterna".
Nenhum comentário:
Postar um comentário