Trazer o quê foi vivido por um pai / uma mãe; um avô / ou uma avó, através de sua árvore genealógica, de sua autobiografia ou biografia, de relatos de suas vidas, de fotografias, etc, é de fundamental importância para a formação da identidade do indivíduo.
Para responder a pergunta “quem sou eu?” é preciso saber de qual história faço parte: o que eu sou é, fundamentalmente, o que herdei, de um passado específico que está presente até certo ponto no meu presente. Descubro que faço parte de uma história e isso é o mesmo que dizer, em geral, quer eu goste ou não, quer eu reconheça ou não, que sou um dos portadores de uma tradição". (MACINTYRE, 2001, p. 372)
E isso é, a meu ver, altamente, considerável tanto para as gerações atuais quanto para as futuras, mesmo que muitas pessoas não se importam; pois, além de passar conhecimentos de ordem biológica, psicológica e hereditária (fenômenos em que os genes e as características dos pais são transmitidas aos seus descendentes), mostrar práticas de um tempo que ficou para trás.
Podemos conhecer também um pouco da vida dos nossos antepassados, nossos bisavós e avós, que aqui viveram, quando não existiam rodovias asfaltadas, luz elétrica, água encanada, planos de saúde, aposentadoria, telefone celular, e um "monte de coisas" que a tecnologia, a eletricidade e as TICs (são todos os meios técnicos usados para tratar a informação e auxiliar na comunicação, o que inclui o hardware de computadores, rede e telemóveis) que facilitaram a nossa vida.
Tempo de vida difícil, trabalho grosseiro, pesado, realizado sob o sol escaldante ou chuva, proveniente da falta de maquinários e eletrodomésticos, e por isso, as famílias tinham que preparar a terra com os próprios braços, plantar e colher tudo para tirar o sustento da sua própria família.
Famílias essas oriundas das classes menos privilegiadas de diversas partes do país. Que, embora vivessem de forma precária - muito sofrimento, muito trabalho, falta de acesso a quase tudo, viviam felizes, e, aínda, vivem e trazem registrado em suas memórias nítidas lembranças, até saudosas, por incrível que pareça, por cada passagem que aqui passou.
E... fazem questão de contribuir, e nos prestam de forma tão carinhosa e expressiva, estabelecendo, desse modo, uma relação importante de informação do passado, do jeito que vivia, às gerações que não conhecem.
E, muitas vezes, nem as narrativas nem as imagens podem nos revelar o quê, realmente, seus antecedentes passaram para sobreviver e sobressair a esse círculo que viviam de extrema pobreza, em residências paupérrimas e vestes surradas pela lida com a terra e com os animais... Revelando, desse modo, uma história de um povo sofrido, que vivia na terra e da terra ou do básico para sobreviver. Que ali enterrou o seu umbigo, no mourão da porteira, com a esperança de ser rico, e não sair dali jamais!!
Povo, que logo cedo, pedia aos pais, tios e avós as suas bênçãos, que respondiam" com um "Deus te abençoe". Que jogava o dente mole, no telhado, e dizia: que daria um dente podre para ganhar um são.
Que cobria o espelho em dias de chuva. Chuva que era verdadeira tempestade. Tantos trovões e relâmpagos! Não tinha esse "filho de Deus" que não pegava a sua Bíblia ou o seu Evangelho e orava até a chuva cessar. Lembro- me bem do meu pai pegar a bíblia e orar. E para ficar mais próximo de Deus, assim imagino, ele subia em um tamborete e orava em voz alta, pedindo que a chuva cessasse.... contudo, lá fora, a gente podia ouvir o barulho do vento quebrando árvores e destelhando casas.
Esse foi o meu povo, que podemos chamar de nosso! Povo simples e ordeiro, que trabalhava de sol a sol, carregando a enxada ou a foice sobre os ombros; plantando ou colhendo para o próprio gasto.
Mulheres que lavavam roupas nos córregos, com sabão de "bola" ou de diquada. Milton, sempre, relembrava das idas ao córrego, ajudar a sua mãe lavar roupas.
Que catava o feijão sujo lá da roça de "toco", para cozinhar no fogão a lenha que pegavam lá no meio do mato para cozinhar a comida, nas panelas pretinhas de carvão, que devido ao cheiro de fumaça deixava a comida defumada, e por sinal muito gostosa.
Povo que tinha os pés parecidos uns "cascos"... meu avô paterno não conhecia nem dinheiro... gostava muito de caçar, andava descalço pelo mato, e não se espetava seus pés com nada, que eu me lembro, não reclamava. A mão parecia mais uma lixa... lembro de meu pai e tios... mão grossa de calos da lida manual com as ferramentas.
Que fumava cigarro de palha, e não tinha medo de ficar doente, embora soubesse que podia causar tuberculose, doença que naquela época matava.
E muitos dos filhos desses conseguiram romper com a pobreza, estudando, indo a luta. Milton e seus irmãos foram uns desses.
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