E Caiapônia não ficou para trás, e muitos donos de terras arrendaram as suas fazendas, com o objetivo de ter uma renda razoável ou muito boa (isto é, depende da quantidade de terras), sem muito trabalho. Mas o Milton nunca viu com bons olhos o arrendamento de nossas terras, por isso, conseguiu ficar por algum tempo sem arrendar, dizia que depois que as terras são arrendadas, nunca mais seremos mais donos delas.
Segundo ele, é um caminho sem volta, porque ficamos acomodados com aquela renda todos anos. Dizia até que era um investimento para preguiçosos.
E, por um lado, ele tinha mesmo razão. Embora, o arrendador seja dono, não tem o domínio daquele patrimônio, talvez, nunca mais. Milton preferia criar o seu gado nelore e gir, mas ter o poder / o controle sobre os seus bens.
Seu sobrinho, Max Paulo, até nos lembrou de uma das suas tiradas: Tio Milton me disse que, certa vez, alguém lhe perguntou: " Dr Milton, porque não planta soja? Ele respondeu: "porque gosto de vacas"! A pessoa questionou: " mas soja dá mais dinheiro". E ele: "mas gosto mais de vaca do que de dinheiro!!!" Rsrsrsrsr.
Ele, sempre, me dizia isso também. Tinha o costume de ir para uma mesa, geralmente, aos sábados ou domingos à tarde, que temos, na varanda, pegava um caderninho, e ia "fazer contas", fazer planejamento das receitas e das despesas. Às vezes, me dizia: "não aguento uma despesa desse tamanho, Nilva", outras vezes, ligava para um ou dois amigos perguntando o que eles achavam de arrendamento das terras, e a primeira impressão era de que era um negócio muito bom, e tal, até ele ficava meio entusiasmado, mas cheio de dúvidas.
Então, chegava para mim, perguntando, "e aí eu arrendo a fazenda?". Às vezes, eu lhe perguntava: "quais seriam as vantagens do arrendamento e da criação de gado?". Ficávamos conversando por alguns minutos sobre isso. Mas ele nunca achou que soja daria mais renda do que o gado para o arrendador, é claro; mesmo que gastasse bastante com sal mineral e proteinado para o seu rebanho, segundo ele, o resultado, a curto prazo, do gado, não pensando na valorização do imóvel, era melhor.
A última das nossas terras, que ele arrendou para plantar soja, a princípio, não foi muito de seu agrado, arrendou mais pelo fato de um vizinho ter arrendado, e tê-lo incentivado, e eu dizer que seria melhor, pelo fato de nossas pastagens estarem muito degradadas.
Assim, fez, então, logo que ele arrendou, chamou o funcionário da fazenda para dar uma volta pelo campo. E o interessante, que foi, como alguém que saía a procura de algo que havia perdido... Logo que chegou, me disse, meio desesperado, como quem não tinha encontrado o que procurava: "esta fazenda perdeu toda a graça para mim, não é minha mais. Não vou poder cavalgar mais nela".
E eu lhe disse, mesmo compreendendo bem o que estava sentindo, pensando em reanimá- lo: "Mas Milton, ainda, sobrou tanto espaço, como não é mais sua? Quantas pessoas têm menos do que sobrou aqui, e estão felizes, e você não está!? Temos a outra fazenda que está intacta!" Ele, apenas, balançou a cabeça, dando sinal que "não" e disse: "acabou, não é mais minha". Mas depois de alguns dias, conformou- se com a ideia, e já estava até bem contente.
Era um ser que pensava muito antes de fazer algum negócio. Era uma pessoa cautelosa e prudente. Tinha muito medo de perder os seus bens, que foram construídos com muito trabalho. Ele não preocupava muito com o trabalho que aquela atividade ia lhe causar. Preocupava com o prazer aliado ao lucro que aquele negócio poderia lhe dar.
Por isso, gostava da criação de gado, acredito que por ser algo que o tirava da zona de conforto, e tinha, sempre, algo para fazer, que lhe dava prazer - dizia aos amigos mais íntimos que "brincava de fazendeiro".
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