quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Namoro no tempo do vovô e da vovó - do cinema ao passeio na Avenida

Eu e o Milton já nos conhecíamos bem antes de começarmos a namorar. Ele era vizinho de minha avó materna, e por intermédio dela, que comprava no mercado de seu pai, me dizia que " ele era falante e atencioso com ela". Meu tio, irmão de minha mãe, pouco mais velho do que ele, me dizia que era o "cara" que eu deveria namorá- lo. 

Eu sempre o admirei, mas tinha um namorado. Todavia, me lembro de que, certa vez, fui ao cinema, e ele me pediu para reservar a poltrona para ele; (era costume, daquela época, os rapazes pedirem para as suas pretendentes reservarem a poltrona do cinema, que ficava ao lado delas), mas como ele saiu e demorou, achei que não voltaria, então, outro rapaz pediu para assentar comigo, deixei, e ele chegou... entregou algumas balas para minha irmã, e pediu para que ela me entregasse. 

Com o fim do meu namoro com o outro rapaz, eu e ele começamos a namorar, no dia 24 de outubro, feriado do Aniversário de Goiânia. Milton era um rapaz modesto, simples, mas muito sedutor. Via nele, desde bem jovem, "um rapaz de futuro", fazia faculdade, tocava violão, cantava, lia poesias, tinha cabelos compridos, como os jovens da época,  gostava de uma calça e de uma jaqueta Lee, que, com certeza, custou muito para comprá -las, além de muitos sonhos na cabeça. Tinha tudo que me seduzia. 
( Foto do Milton jovem)

Mas o nosso primeiro encontro foi mesmo ao cinema. Lembro- me bem, que depois que saímos do cinema, passeamos um pouco, pela avenida, de mãos dadas. Era também costume, daquela época, fazermos avenida.  Hábito de andar para cá e para lá pela Avenida Goiás de Jataí, para passear e avistar aquela pessoa que faria seu coração bater mais forte ou, ao menos, render um bate papo descontraído, numa época que não existia shoppings, lanchonetes, sorveterias e cafés de, hoje, e muito menos internet e celular. 
 
Namoramos três anos por cartas.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Depois que a gente perde alguém tão íntimo, quase todos os momentos servem para relembrá- lo. 

Hoje, saí com a minha filha para comer um hambúrguer, e olhando as pessoas que passavam para lá e para cá de carro, a pé...a tristeza me pegou... 

Onde quero chegar não sei, só sei que minha escrita só tem valor para mim se sair do pessoal, do autobiográfico em direção a um público que possa não ler meu escrito, mas se lê nele, caso contrário, como dizia Borges, o argentino, e Clarice, nossa diva, a arte não seria arte.


domingo, 23 de janeiro de 2022

Um dos seus maiores prazeres era criar gado

Milton, embora, não tivesse sido criado em fazenda, não tivesse tido a oportunidade de conviver e presenciar a rotina dos trabalhos com a lida com a pecuária bovina, quando criança e adolescente, gostava muito da criação de gado. 

Para ele era o maior prazer, sair para o campo com os companheiros da fazenda. E, apesar de ser alguém que fosse, só uma vez por semana e nos finais de semana, não reclamava dor no corpo dos galopes do cavalo. Era interessante ver o seu gosto. A sua disposição e o interesse também em aprender. 

No começo, não  sabia distinguir nem o bezerro macho de uma fêmea, e dizia ao meu cunhado João: " como vc sabe?" E a diferença está no umbigo cabeludo ou não, se visto de frente ou de lado. Mas perguntando um e outro amigo ou cunhados, lendo, se informando, foi aprendendo, e tornou deveras um criador de gado. 

Gostava do gado Gir e do Nelore. Sempre, colocava em pastos separados. Onde tinha Nelore, só Nelore. Todas brancas. Onde tinha gir, só as chifrudas, de pelagens:
  • vermelha 
  • vermelha chitada;
  • amarelo, em tonalidades típicas da raça;
  • amarela chitada;
  • chitada clara;
Tinha  essas cores. Certa vez, comprou umas vinte novilhas de um criador de gado Gir de Jataí, e pode começar por o seu gosto em prática.É um gado lindo! O leite e a carne são mais saborosos do que de outros bovinos. Inclusive, segundo estudos, o leite é o que tem menos lactose. 

Não gostava de misturas de gado nos pastos. E fazia o possível para separá- los por estágio, vamos assim dizer: gado solteiro, vacas paridas, bois carreiros, novilhas, todos separados. 
Gostava do gado Nelore pela facilidade de manejo, e por ser um gado, que não exigia tantos cuidados, como o gir. Sempre, comprava bois Nelore PO. Então, o seu gado foi melhorando, cada vez mais, geneticamente.

O único erro dele era não ter pastagem suficiente para todo o seu rebanho, e na seca, o gado sofria...e a gente também. Mas ele dizia..."em quase todos os lugares é assim... onde tem muito gado, não tem pasto", mas sempre tratava o seu rebanho com sal mineral e proteinado. Não deixava faltar, e o gado mantinha até forte. 

Hoje, quando vejo o gado no curral, lembro muito dele! Ficava super - animado e agradecido pelo que conseguiu adquirir. Eu ia, sempre, com ele para fazenda, e, hoje, tentamos seguir os seus passos. İnteressante isso. Ele não está mais aqui, mas ainda conseguimos seguir o caminho deixado por ele. 

Nosso filho também gosta da pelagem do gado gir, por ser um gado diferenciado, cada rés é diferente da outra, e apesar dos desafios de pastagens, valores de mercado, pretende continuar com o gosto do pai. 

sábado, 22 de janeiro de 2022

Momentos que ficaram eternos

Como disse Adélia Prado - "Aquilo que a memória amou já ficou eterno". E, embora, ela tenha curto prazo para algumas pessoas, o que ela seleciona torna imortal, mesmo que lembremos em detalhes de algumas passagens e de outras não!

Minha memória é bem povoada por lembranças de meus entes queridos, principalmente, de meus pais e de meu marido, que partiu há um ano. E prefiro recordar os bons momentos dos três, apenas! E, interessante, que com a falta do meu marido, passei a sentir mais falta de meus pais. 

 Eterna ficou para mim a lembrança do meu pai, "assobiando"...  estatura mediana, mais para alto, rosto magro e vermelho, queimado do sol, olhos claros, sério, cabisbaixo, entoando uma das suas melodias que ele mais gostava; sempre, quando estava lavando as suas botinas, na bica d'água, geralmente, de manhãzinha, nos finais de semana, quando tirava um dia para cuidar dos calçados e da sua aparência - mesmo morando na fazenda, tirava um dia para o autocuidado - barbear, dar uma aparada e higienizada nas mãos e unhas duras, como pau, etc. 

Meu pai era lavrador - homem do campo, da fazenda ou da roça, como queira, leitor, para mim tanto faz. Que cultivava a sua própria terra, praticamente, sozinho, sem explorar o que a natureza, ainda, tem ou tinha de mais bonito,  para obter, apenas, o que necessitava para o sustento da sua família... 

Tempo que ainda não existia nem o trator, tudo era feito no cabo da enxada, do enxadão ou do machado. Lembro- me bem que chegava com a camisa e a calça molhadas de suor, que podia torcer, pelo sol e calor do dia, e as mãos eram bem calejadas pelo trabalho braçal... 

Contudo, aparentava feliz... os sonhos e as suas expectativas eram bem reais, nada fugia do controle e do seu pequeno mundo. Não tinha sonhos impossíveis de serem realizados e nem desejos do que o outro - seu irmão, seu amigo, seu vizinho tinham. 

Vivia na terra e da terra. Trabalhava, literalmente, de sol a sol, por isso mesmo, o sol nunca o pegou, na cama, e quase sempre voltava para casa, depois do sol se pôr. Meu pai era muito honesto, sério, trabalhador e também nervoso, talvez, até pela vida que levou e levava ou pelo seu gênio forte. 

Nunca leu nenhum livro que não fossem a Bíblia ou o Evangelho. Guimarães Rosa e José Saramago, nem no sonho, os leu, mas se os tivesse lido, com certeza, fazia coautoria com seus personagens. 

Não preocupava com a política, nem com a Economia brasileira (com a economia da família, sim). Não preocupava em  ficar rico. Pensava em ter o necessário para viver. O que não fosse o necessário era considerado surperfluo. Não preocupava com luxo, preocupava com o que era possível realizar.

Ficou eterna também a lembrança de minha querida mãe, mulher do Lar - de estatura baixa, bem clara, esperta, resignada, trabalhadeira - cozinheira, arrumadeira, lavadeira - mas, diferente de meu pai, era de sorriso fácil, tranquila, sem vaidade. Na vida, só aprendeu a trabalhar - era costureira, fazia com prazer as roupas da família, lembro- me bem de meu primeiro vestido de festa azul marinho de bolinhas brancas. Primeiro vestido longo que eu usei e que minha mãe fez para eu ir em uma festa com o Milton. Ela dizia ''nunca usei um vestido tão bonito assim". Ela se realizava em nós! Fazia muito pouco para ela. Mas era conformada, aceitava tudo, como se fosse normal. 

O primeiro vestido longo dela foi o de noiva com 16 anos de idade, depois nunca mais. E, às vezes, enquanto tocava o pedal da máquina, sem mesmo olhar para os lados, dava ordens para as filhas irem aprendendo a cuidar da casa. 

(Lembro que eu e a minha irmã, que tem quase a mesma idade que eu, começamos a cozinhar com oito/ nove anos de idade. İmagine...! Fogão a lenha dava um trabalho! O meu arroz era misterioso, gente! Era daqueles que queimava e não secava. Nunca descobri a causa. Imagino, hoje, que, talvez, seja porque o arroz era novo e praticamente integral, e certamente colocava muita água, virava papa e pregava no fundo da panela, por ser feito com muito fogo🔥, no fogão a lenha).

Ficará eterna, também, a lembrança de meu saudoso marido, que embora não tenha sido o meu primeiro namorado, foi como se fosse. Já conhecíamos e já nos olhávamos, com certo interesse, bem antes de começarmos a namorar. Minha avó materna morava bem próxima do mercado do pai dele, e por intermédio dela, que comprava, sempre, lá, me dizia que " ele era falante e atencioso com ela", acredito que me incentivando a me encantar por ele.  Meu tio, irmão de minha mãe, pouco mais velho do que ele, me dizia que era o "cara" que eu deveria namorá- lo. 

Eu sempre o admirei, mas logo foi estudar em Goiânia, dificilmente, nos encontrávamos;  até que um dia...eu e a minha irmã fomos ao cinema, e ele passou por mim e me pediu para reservar a poltrona do meu lado para ele; (era costume, daquela época, os rapazes pedirem para as suas pretendentes reservarem a poltrona do cinema, que ficava ao lado delas), mas como ele saiu e demorou muito, achei que não voltaria mais... então, outro rapaz pediu- me para assentar comigo,  deixei, e ele chegou e eu já estava acompanhada... Ah... só me deu uma olhada, e entregou algumas balas para minha irmã, e pediu para que ela me entregasse. 

Com o fim do meu namoro com um outro rapaz, eu e ele começamos a namorar, no dia 24 de outubro de 1974, feriado do aniversário de Goiânia, nunca esqueci a data, e tinha que ser, no cinema. Lembro- me bem, que depois que saímos do cinema, passeamos um pouco, pela avenida, de mãos dadas. Como ele disse: "as pessoas precisam  ver que estamos namorando". 

Era costume, daquela época, "fazermos avenida".  Hábito de andar para cá e para lá pela Avenida Goiás de Jataí, para passear e avistar aquela pessoa que faria seu coração bater mais forte ou, ao menos, render um bate papo descontraído, numa época que não existia shoppings, lanchonetes, sorveterias e cafés de, hoje, e muito menos internet e celular.

Isso foi em um sábado, no domingo, ele já viajou para Goiânia, porque, na segunda - feira, teria que estar lá. E naquele tempo, as rodovias, ainda, não eram asfaltadas. E aí, você, leitor, que não viveu esse momento, não consegue nem imaginar o quanto era difícil, e o tempo que gastava viajando, além dos transtornos entre a poeira, estradas de chão esburacadas e ônibus velho, cheio, fedendo a gasolina e sem ar condicionado. Não era fácil! 

Milton era um rapaz, que, como a minha avó dizia, era falante, atencioso e carismático, isto é, interagia bem com todas as pessoas ao seu redor - conversando, rindo... com muita espontaneidade. E isso fazia com que as outras pessoas sentissem bem quando estavam na sua presença.

Transmitia confiança, alegria quando estava alegre, tristeza quando algo o chateasse, deslumbrado quando algo o encantava, etc. É, assim, que guardo a imagem dele. Via nele, desde bem jovem, "um rapaz de futuro", estudava fora, fazia faculdade, tocava violão, cantava, lia poesias, tinha cabelos compridos, como os jovens da época; gostava de uma calça e de uma jaqueta jeans, que, com certeza, custou muito caro para comprá -las, além de muitos sonhos na cabeça. Tinha tudo que seduzia uma moça daquela época. 
( Foto do Milton jovem)

Namoramos no tempo das cartas

Namoramos quase três anos por cartas! E guardo, ainda, até hoje, quase meio século depois, todas elas -  uma grande coleção de nossas tão românticas e bem elaboradas e dobradas cartas escritas, manualmente ou digitadas, nas antigas máquinas de escrever.

E por ser algo que foi muito importante, em nossa vida, é natural que eu não queira jogar fora, e valorize. É bem verdade, que sou bem apegada às minhas coisas. Não posso negar. Acredito que herdei esse apego pelas coisas, de minha avó materna - lembro- me dela nos mostrar a sua primeira paganzinha, e fiquei admirada, na época, por guardar algo por tanto tempo, e, ainda, estar, praticamente, intacta. 

Do mesmo modo, acredito que os meus netos ficariam... se eu lhes mostrasse a imensa sacola de cartas que guardo por 47 anos. Tenho certeza que eles me diriam: "Nossa, vó, a senhora guarda tudo isso...por tanto tempo... e estão perfeitinhas?!" O papel já está bem amarelado pelo tempo, mas pode perfeitamente, remontar a nossa história, se lidas pelos nossos filhos e netos. Os únicos que poderiam ter certa curiosidade de nos conhecerem melhor interiormente. 

Essa foi uma prática milenar dos enamorados, de  familiares e outros, que viviam a distância, por ser o único instrumento de trocar informações entre os mesmos; além de registro de fatos históricos e do cotidiano. İnspirando, inclusive, muitos escritores a escrever sobre as cartas de amor, que chamavam atenção pela linguagem delicada e muitas vezes poética, com caligrafia impecável. E as nossas não são diferentes. 

E lendo algumas de nossas cartas, no amontoado de centenas delas, relembrei do meu eterno namorado, do seu jeito de ser, de seu romantismo, de suas preocupações, e fiquei pensando que, no tempo das cartas, os namorados, embora, distantes, pareciam estar mais conectados, porque poderiam através do papel extravasar seus sentimentos,
suas expectativas, seus desejos e suas saudades e, muitas vezes, até o seu perfume. ( Às vezes, a gente jogava perfume, rsrsrsrrsr) Vantagem que o WhatsApp, Facebook e Instagram, ainda, não podem nos oferecer.

A primeira carta ele caprichou tanto, que tive que pegar um dicionário, rsrsrsrrsr. Lembro - me bem que minha irmã quis ler também 🤩. Ah foram tantas as cartas.

Lembro bem de seu andar ligeiro e desconfiado... quando ia em minha casa, e me dizia para esperá- lo no portão. Se eu estivesse com uma roupa que não lhe agradasse, falava. Um dia, vesti uma blusa, um pouco decotada, e ele me disse que era bonita, mas poderia vesti- la, apenas, no  dia que ele estivesse. Desobedeci, e ele apareceu sem me avisar - "não disse, minha querida, que não era para você usar esta blusa quando eu não estivesse? " Na minha ingenuidade acabei dizendo " não sabia que vc viria hoje". Poderia ter dito que havia intuído que ele ia chegar. Não!! Rsrsrsrrsr 

Era possessivo, ciumento e controlador. (Contudo, embora, procurasse fazer o que ele gostava, nunca o deixei me controlar o que eu vestia. Sempre, vesti do jeito que eu gostava! Principalmente, porque nunca pequei por excessos.)
Mas era também muito romântico. Um  dia, me levou uma rosa 🌹, chegou com as mãos para trás, e pediu - me para que eu adivinhasse o que tinha levado para mim. 

Ainda, guardo os primeiros presentes que ele me deu - o primeiro, era um pôster meu preto e branco, de quando tinha 18 anos, e que, ainda, decora, o nosso quarto; segundo, um anelzinho de ouro, com pérola bem delicado. Depois de casada, me deu de presentes uma aliança e um brinco de pérolas. Não era muito de escolher presentes. Às vezes, preferia me dar o dinheiro para eu comprar o que eu quisesse. Mas, sempre me dizia: que o meu melhor presente era ele. 

O tempo passa, as pessoas queridas  partem, mas as lembranças ficam eternizadas em nossa memória... Assim, aconteceu comigo. Hoje, tudo que o Milton fez e foi ficará registrado, através dos seus textos, de suas cartas, fotos, livros e objetos que ele gostava, instalados, na fazenda, como: seu engenho, seu carro de boi, tudo que ele valorizava, sua lembrança está. 

Para mim vale a pena guardar e conservar objetos que os entes queridos gostavam, desde que não geram desconforto pela falta de espaço e pelo dano do tempo. Ou espaço psicológico, segundo leituras, "uma vez que, para cada objeto que guardamos existe uma representação mental dele ocupando espaço na nossa mente". 
Não, não é este o meu caso de transtorno desse ou daquele, não é nada em excesso.  
 
Primeira serenata

A serenata, hoje, caiu em desuso, mas no final da década de setenta, quando eu e o Milton começamos a namorar, ele com 22 anos e eu com 18 anos, os jovens tinham o hábito de fazer serestas surpresas para as suas namoradas ou pretendentes, aos sábados, domingos e feriados, próximos a janela do quarto da homenageada depois que todos estivessem dormindo. 

Como as casas, geralmente, tqinham alpendres, uma espécie de varanda do lado de fora, então, facilitava ficar ali na porta da casa por alguns minutos com alguns amigos. Livrando da chuva, do sereno da noite ou de algum pai ciumento. (Meu pai era muito sistemático, e saiu a porta, com seu jeito severo e inabilidoso, nos causando grande tristeza e vergonha.)

Quem não sabia cantar ou tocar um instrumento, escolhia duas ou três músicas, geralmente, mais românticas de Roberto Carlos, principalmente, e gravavam em alguma fita cassete, e punham para"rodar a fita". Se aparecesse o pai, saia correndo e deixava o "toca fita".

Agora, quando sabiam tocar e cantar,  encantavam mil vezes mais. O Milton tocava, cantava e me encantava.

 Milton morava em Goiânia, mas sempre, quando vinha a Jataí me ver, fazia serenata para mim. E eu escutando, ficava maravilhada, fazendo inclusive análises das músicas. Eu não entendia  nada de análise do discurso, mas já fazia muito bem análise das letras que ele cantava para mim.

E a primeira serenata, a gente nunca esquece, e essa tinha, como seleção, estas duas  lindas canções cantadas e tocadas por ele. Lembro- me bem. Milton tinha uma linda voz. Estávamos muito apaixonados  - amor a primeira vista!

Boa noite!



Diga ao menos boa noite
Abra ao menos a janela
Pois eu cantei foi pra você

He...he...heê...he..he... heê

Boa Noite..

Durma, durma bem com os anjinhos
Para acordar amanhã cedinho
Eu cantei só prá vc!! 

He...he...heê...he..he... heê

Boa noite..

Diga ao menos boa noite...

Composição: Desconhecido e revisão: Bernardo Bicca

A segunda música foi esta, intitulada:

Será que eu pus um grilo na sua cebeça de Guilherme Lamounier.

Galo canta é de manhã
Nuvens espalhadas feitas algodão
e a terra cheira como bala de hortelã

Abro meu coração
Solto meus cabelos livres no ar
e não quero mais saber

Quero é dividir o meu amor com você

Olhe dentro dessa manhã
Olhe a natureza solta no chão
Veja aquele esquilo entre nozes e avelãs.

Namoramos três anos por cartas, ele morava em Goiânia, porque já fazia faculdade lá, e nos finais de semana e feriados, ele vinha me visitar em Jataí.

(Foto do envelope e de uma carta) 


 Não esqueço do dia do nosso casamento, considerado o dia mais feliz de toda mulher... ele me disse que se eu demorasse, ele iria embora... fazendo pressão para que eu não demorasse; 
Fotos do nosso casamento

*O dia da sua formatura - momento de aumento de nossas esperanças e expectativas de vencer na vida;
Fotos de sua formatura

* O nascimento de nossos filhos - presentes que Deus nos deu para amarmos mais do que a nós mesmos;
Fotos de nossos filhos

*A compra de nossa casa e o desejo de adquirir a nossa casa própria;
Foto de nossa casa - colocar o texto de nossa casa.

* O nosso primeiro pedaço de terra - a realização de um sonho dele de menino;
Fotos
* A formatura de nossos filhos e o primeiro emprego deles  -  a realização de um sonho não só deles, mas tbém nosso. O Milton, sempre, se empolgava com a realização pessoal de nossos filhos
Fotos
* O nascimento de nossos netos foram momentos marcantes em nossa vida. O vovô Milton amava tanto seus netinhos, achava inteligentes e bem educadinhos. Mas entristecia muito se algo não ia bem.

* Viajávamos pouco, não gostava, dizia que preferia viajar pela Netflix. Às vezes, enquanto via filmes, dizia: "tem coisa melhor do que viajar, assim, deitado no sofá de casa?"

* Nossos grandes momentos (que me levam a pensar, hoje, que tudo valeu a pena). P

“Valeu a pena eu haver vivido toda a minha vida... só para poder ter vivido esse momento. Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida”
 (Rubem Alves, “Do Universo à Jabuticaba”. (crônicas). São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010).

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Desde menino, sonhava em empreender


Como o menino, no meio da ponte, que conversava com outro menino do outro lado, da propaganda do Sebrae 50 anos, vovô Milton foi aquele menino sonhador, que tinha entre tantos sonhos, também, o desejo de empreender.

Com o seu engraxate, nas costas, caminhava... sujo de graxa, até o seu ponto, na Avenida Goiás, de Jataí, para engraxar os sapatos dos profissionais liberais, da época, para ganhar o seu próprio dinheiro. E olhando para as pessoas bem vestidas, passando para lá e para cá, em seus carros ou a pé...comprando, indo ao cinema; o seu desejo e o seu sonho de ser alguém na vida e ter recursos suficientes para adquirir o que lhe desejava já começava a desabrochar. E dizia para ele mesmo: "Eu irei vencer". 

A pobreza não o fez desistir de lutar, o fez forte, animado e convicto de que para "ter" algo; primeiro, teria que "ser". Ser estudioso - Desde criança já demostrou a sua facilidade com o conhecimento. Seu irmão mais velho, certa vez, me disse, que os professores se reuniam para ver em qual sala ficaria, aprendia muito rapidamente...
Ser trabalhador, ser persistente e ser econômico. Guardou todo o dinheiro que ganhava, desde pequeno, para ir para Capital estudar.

Ele foi a luta, apenas, "com a cara e a coragem". Fez cursinho. Estudou, dia e noite, para passar no primeiro Vestibular que fez, em uma Universidade Federal. Como ele mesmo dizia. "Eu tinha apenas uma oportunidade... formar em uma Universidade Federal e no meu estado. Não tinha recursos para tentar em outros lugares"! 

Estudou com dificuldade, morando em repúblicas alugadas - geralmente, quartos dos fundos de alguma casa de morada, com uma cama, um "guarda- roupinha", uma "mesinha" para estudos, (o diminutivo aqui faz jus ao tamanho e a simplicidade) além de muitos sonhos na cabeça. Não tinha geladeira, não tinha televisão, não tinha celular e não tinha dinheiro. 

Vovô Milton dizia, que no começo, ele não tinha nem guarda- roupa, colocou uma corda, sobre  a sua cama, da cabeceira aos pés, para pôr as suas roupas... e essa corda, um dia, arrebentou e caiu, à noite, depois que ele estava dormindo, e lhe causou um  grande susto. 

(Conversando com a minha cunhada Maria, que morou uma época com ele para estudar em Goiânia, assim, relatou: "a nossa república era um quartinho, que cabia duas camas de solteiro, um guarda- roupinha que separava a minha cama da dele, uma mesinha e um rádio. Era essa a nossa casa. Não imaginem, vocês, que  ficávamos tristes! A gente tinha uma alegria, assim, genuína, espontânea mesmo. 
Quando a gente chegava à noite da escola, ela continuou...cada um tinha uma história para contar, e a gente cantava... a gente ria...; às vezes, até a dona da República ia lá para ver o que estava acontecendo, imaginava que fosse uma reunião de colegas, uma festa, mas, não, era, apenas, nós dois, e algum amigo de outro quarto, cantando, alegre, rindo! "

Assim.... "a gente driblava as dificuldades,  não deixava as mesmas atingirem o nosso emocional. Éramos alegres, muito positivos mesmo, levávamos tudo com muita leveza!

E isso, eu gostaria de ver, nos dias de hoje. A gente não vê isso.  A geração de, hoje, põe dificuldade em tudo. Não sei por quê ? Mas eu tenho essa lembrança, e gostaria que os nossos filhos, os nossos netos e os nossos sobrinhos pudessem ler e tirar algum proveito").

Só que o Milton contava e ria dessas peripécias, nunca com mágoa e revolta, mas com alegria de ter conseguido vencer, na vida, pelo seu próprio esforço.

Foi para Goiânia, com pouco recurso, o mínimo para sobreviver. Sua mãe, certa vez, me contou, que aos finais de semana, na hora do almoço ou do jantar, nem gostava de se alimentar, apenas chorava, porque sabia que seu filho estaria sem comer, porque o restaurante da Faculdade só fornecia comida durante a semana. Minha cunhada me disse, que, às vezes, eles faziam "vaquinha", nos finais de semana, com aqueles que ali também moravam, em outros quartos, compravam um frango assado ou dois, e, dessa forma, sentia muito bem servidos.

Mas logo começou a trabalhar de vender jornal - "Jornal O Popular", depois  trabalhou também em um escritório de Contabilidade... e as coisas foram melhorando . Mas foram muitas as vezes, que ele nos mostrou a distância que ele fazia caminhando a pé de um comércio ao outro para pegar blocos de notas para fazer contabilidade para os clientes; porque não queria gastar suas economias - comprar, nem que fosse uma bicicleta. Não! Guardava tudo para podermos casar, comprar móveis ou realizar algo que desejava.

Quando estava perto de formar, já tinha uma renda melhor, teve a ideia de levar seu irmão, que hoje é médico, para estudar em Goiânia também. Tratava - o como seu filho. Era bonito de se ver a união dos dois. Discutindo sobre músicas, filmes, livros, etc. Depois de formado, sempre, que podia, o Milton ajudava a sua mãe e seus irmãos mais novos. Sentia bem poder ajudá-los. Como ele dizia: "nunca pensei, apenas, em mim". E os ajudava com a maior satisfação. Nunca reclamava. 

Mas, sempre, com o desejo de fazer algo por nós, comprar a nossa casa própria e "um pedaço de terra" para passarmos os finais de semana. Aos poucos, foi comprando um pedaço aqui, outro ali, e foi formando o patrimônio que temos hoje. Mas tudo que ele conseguiu realizar, não foi construído de um dia para outro, durou quase quatro décadas. 

E empreender, como na historinha da propaganda, causa medo, preocupações, receio das coisas não darem certo, e para ele, não foi diferente. As pessoas, em geral, têm medo de se arriscar, enfrentar obstáculos, acreditar, seguir em frente. Nem sempre a realidade coincide com a nossa expectativa. 

Mas quando se quer realizar algo, só se jogando, principalmente, quando não pode contar com a ajuda de ninguém. E...‘por que será que a emoção de voar precisa começar com o medo de cair?’ Essa foi a pergunta de uma águia, em uma fábula, escrita por um autor desconhecido, que ao empurrar os seus filhotes num rochedo, lá do alto de uma montanha, pensava:  "Enquanto os filhotes não descobrissem suas asas, não haveria objetivos em suas vidas". 

Assim, somos nós, enquanto não arriscarmos, não nos jogarmos e não confiarmos em nossa capacidade, não conseguiremos realizar o que desejamos.

Por isso, vamos em frente, pois as lutas não param... e os desafios precisam ser superados com fé em Deus e confiança em nós mesmos! 

VAI que dá... deve ser o nosso lema! 








sábado, 15 de janeiro de 2022

Seu bom gosto musical

Milton, desde que o conheci, a música já fazia parte de sua vida, e foi com ele que desenvolvi o meu gosto também pelos grandes nomes da música brasileira - Bossa Nova e MPB e outros, como: (Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Clara Nunes, Milton Nascimento, Elis Regina,Toquinho, Roberto Carlos, Nara Leão,Djavan, Zé Ramalho, Marisa Mont, Almır Sater, The Beatles e outros), influenciando, assim, os seus irmãos e também os nossos dois filhos!

E era muito comum, quando estávamos viajando ou, na cidade, mesmo, passarmos os sábados e os domingos, o dia inteiro, ouvindo esses seletos músicos. Como ele gostava! E, nos últimos tempos, ouvia, repetidamente, as mesmas melodias, como se estivesse aproveitando pela última vez... 
E ele fazia questão que eu assentasse perto dele, para ouvirmos juntos; quando eu não estava, sempre, me chamava para ouvir um trecho, que ele dizia ser uma verdadeira poesia, assim, quando estava vendo algum documentário.  İnteressante, cada vez, que ouvíamos, mais queríamos ouvir, e, hoje, essa trilha sonoriza as minhas lembranças e a minha saudade. 

E além de gostar de ouvir música, gostava de tocar e de cantar. Foi um grande incentivador tanto de seus irmãos quanto de seus amigos e de nossos filhos. Em sua família, muitos tocam e cantam.

 O passado é o presente na lembrança 

Este violão, assim, escrevi, no meu status do Facebook, foi o primeiro instrumento musical do meu saudoso esposo. Ele já não o usava. Tinha outros. Mas este, com certeza, guarda as suas melhores lembranças de sua adolescência e também de seus irmãos.
 O violão era único para todos. Lembro da primeira e da última serenata, que fez para mim por volta de 1974/75. Recordo com saudade e muita tristeza! Hoje, decora as minhas lembranças e de todos aqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.

E conversando com a sua irmã, Maria das Graças, ela relembrou passagens que lhe deixaram tbém muitas saudades de sua juventude com o Milton. Ela disse..."meio a tantas dificuldades enfrentadas por nós, naquele tempo, éramos muito alegres e comunicativos. Nunca reclamávamos de nada. E, quando o Milton vinha de Goiânia para Jataí, e, às vezes, caia a energia, aqui na cidade, era muito comum, naquela época, então, nos reuníamos com os irmãos, mais velhos e os mais novos, e íamos cantar, tocar violão, contar histórias; e esperávamos, tranquilamente, pela volta da energia; demostrando a nossa capacidade de aceitar as dificuldades da vida e de reinventar. Às vezes, inventávamos de sair fazendo serenata, só os irmãos, e era só alegria").
  ( Foto do violão)

E, depois de ter postado esta foto e esta mensagem, a Luiza, sobrinha do Milton, assim, escreveu:

"Esta foto me toca de um jeito muito único, além de ser uma bela composição fotográfica - a montagem do violão com as flores, as cores estão lindas. É engraçado pensar que muito, provavelmente, por causa desse instrumento, e por causa do meu tio é que eu aprendi a tocar violão. 

E por que estou falando tudo isso?!
Bem, gostaria, primeiramente, mostrar esta foto tão bonita e  sensível . Segundo, gostaria de mostrar como você pode mudar a sua percepção sobre uma foto/ obra de arte com base no que você viveu ou vivencia. Se antes você achou essa foto bonita, mas não tinha informações sobre a história que envolve o violão, a fotografia, a pandemia , o amor e a família , sua visão pode ter mudado depois de saber sobre essa história.

Terceiro, ressaltar que muitas vezes nos encontramos na arte de uma outra pessoa, pois de alguma forma, parece que ela fala da gente e represa uma vivência ou um sentimento nosso também".
     
E assim completei: que      
Quando a gente passa a viver de saudade, além da imagem do ente querido nos acompanhar, o tempo todo, que é sentida pela presença da ausência, como disse a atriz Beth Goulart, falando de sua mãe, posso sentir a sua energia, através da percepção e da sensação. İsto é, consigo estar com ele em uma nova versão - pelas ações e imagens que viraram recordações... quando ouço o toque de algum violão, nos finais de tardes, ou o som de suas músicas que gostava de ouvir, dos programas favoritos - TV Senado, Pingos nos Is e outros. 

Da mesma forma, quando ouço a voz do antigo radialista Zé Bétio, lembro logo do meu pai, que levantava bem cedinho para tirar o leite das vacas, ao som de um rádio e das vacas mugindo no curral. E da minha mãe, quando ouço "Ave- Maria", do padre Zezinho, posso até vê-la a cantar, regando o terreiro da fazenda, com água da bica, pés molhados, sujos pelos respingos da água com a terra vermelha. Meu pai e minha mãe faziam do trabalho uma atividade para preencher também o tempo. Se sofriam, diziam que fazia parte. Agora, o tempo é outro! Não há tempo nenhum. E nem o que fazer... Só relembrá- los!! 

E é uma recordação que a gente carrega, em tudo -  que eles gostavam. Pode ser em uma música, em um prato ou em uma bebida que eles gostavam, ou em um ambiente... em tudo, eles estão! 

Depois, de mais de seis meses que o Milton havia partido, minha filha tirou férias do trabalho, então, me convidou para viajar com ela para Salvador, fomos descansar um pouco, e conhecemos o famoso Pelourinho. E... lá, por onde a gente andava, em cada esquina, tinha um músico tocando as músicas que o Milton gostava, e remexendo com a minha saudade. E, por mais que estivesse agradável a viagem, faltava algo... era estranho... uma sensação de vazio, como se a vida tivesse perdido todo o seu propósito. 

Mesmo viajando, carregamos aquele ser com a gente. İncrível!! 
Como se existisse um pano de fundo, que a sua imagem fica em minha frente... Sua voz...Seu jeito de ser... Seu olhar... em diferentes épocas. Em grandes e pequenos momentos. Bons e ruins! 

 E, citando- os, fico pensando... cada vez que perdemos alguém, vamos ficando menor. Primeiro, vão os nossos avós, alguns tios, depois os nossos pais e depois um de nós... e a gente fica como? sozinha, remoendo as lembranças, para mimar a saudade.

Só a saudade acompanha a gente tão de perto, mesmo distante. O que fazer?  Ver o tempo passar? O tempo ou a vida? "É preciso seguir em frente com o meu tempo. Mas qual é, onde está, em que lugar ficou... o meu tempo?" ( Lya Luft, 2006).

Mas....como continua dizendo Lya Luft, "A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada.”
- Lya Luft, em "O ponto cego".


sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Família festeira

"Minha família, sempre, foi muito festeira, e a pedido de minha mãe, ainda, não deixamos de comemorar juntos o Natal ou o final do ano, tempo de muita cantoria, discursos, risos, choro, comida farta e cerveja, que nos fazem, ainda, mais emotivos e saudosistas". Assim, Milton escreveu. 

E... como dizem...chamou...chamou... prá festa? A família já está a caminho. Sempre, rindo, brincando um com o outro, cantando... quase todos em alto astral mesmo! Bebendo pouco ou muito, ou nada. Cerveja ou vinho, suco ou água... Cada um com o seu gosto e o seu jeito. É fascinante ver a união de todos!!

E, embora haja personalidades, opiniões e particularidades diferentes, como em todas as famílias, não existem conflitos entre eles, aliás, entre nós. Também faço parte desta família! Desta família que me acolheu tão bem. E,cada dia que passa, a admiro, ainda mais! Admiro não pelo que eles têm, mas pelo que eles são. O Ser aqui tem um valor grande. E é por serem, a cada dia, mais resilientes, mais bem humorados e respeitadores das diferenças, com o desejo de estarmos mais próximos e bem com todos, que fazem de cada um, um componente afinado, dessa orquestra tão bem tocada, que faz toda a diferença.

E, acredito, que todo esse entusiasmo, esse brilho, os filhos herdaram tanto do meu sogro quanto da minha sogra. Convivi pouco tempo com o meu sogro; logo, ele faleceu, mas acredito que essa disposição para as festas a família herdou dele. É claro que a Dona Luiza, sábia como era, fez de  tudo para manter a família unida, em qualquer circunstância - na alegria ou na tristeza - e com muita fineza, além de ter um coração gigante e muita oração, conseguiu manter a casa de pé, mesmo quando perdeu um de seus esteios.  Mas, sempre, foi uma pessoa de muita fé. Quantas vezes, a vi orando, assentada em sua cama, com o rosário na mão. 

E a família que cresce unida, permanece unida - eis o ditado popular.  Além de se encontrar no Natal ou Ano Novo, sempre, que pode, reúne em outros eventos, como: formaturas, casamentos, aniversários e outros! E não esqueço de um evento que o Milton disse a sua mãe que não poderia participar. Gostava de estar junto com a família, mas antes de viajar, criava alguns contratempos. 

E, sua mãe queria que todos estivessem presentes, não discutia, mas também não conformava: Ela ligou de véspera, e lhe disse: "Meu filho, vou ficar te esperando para irmos juntos em tal evento". Não me lembro mais, mas parece que era um almoço em outro local. Fomos... saímos de Caiapônia, rumo a Goiânia, chegamos um pouco atrasados para o almoço, mas lá ela estava em sua casa nos esperando. Não foi mais cedo com nenhum dos outros filhos!! 

Diferente de minha mãe, sem querer fazer comparação, que embora, com certeza, ficasse, extremamente, aborrecida com a falta de um filho em um evento, mas acabava aceitando a sua ausência e até a sua desculpa. 

Dona Luiza foi uma  grande batalhadora! Vida difícil!  Sofreu muito para criar os filhos. Mas teve muita sorte. Todos só lhe deram alegrias. Mas, sempre, foi  muito verdadeira e empática! Sabia como ninguém a arte de bem receber as pessoas em sua casa. Sempre, com um sorriso no rosto, farta comida e pudins de sobremesa. Além de vários tipos de quitandas que eram feitas por ela com antecedência,  Inventava outros pratos, como disse as minhas cunhadas Maria e Divina ao lerem a postagem de seu irmão Zé, fritando pamonha de manhã, no grupo da família:
Maria: "Minha mãe, sempre, fazia pamonha frita! Era uma delícia! ". E Divina completou:  "Que saudade daquele tempo que nossa mãe fazia pamonha frita no fogão a lenha. As de doce eram as melhores. As de hoje tem gosto de saudade.😔😔".

Não esqueço que sua casa estava sempre cheia de visitas - filhos, noras, netos, parentes, amigas dela e amigos dos filhos e dos netos. Quase todos os netos mais velhos moraram com ela para estudar, inclusive nossos filhos,  e ela sempre preparava o prato que cada um mais gostava.  Deixava todos muito à vontade. Não achava nada difícil.  Arrumava várias camas, sempre, com aquela expressão receptiva para todos.

Lembro- me de que quando éramos mais jovens e nos reuníamos, cunhadas e concunhadas, em Goiânia, na casa dela, não pensávamos duas vezes, e deixávamos os netos todos com ela e com os nossos maridos, que ficavam por ali, jogando baralho, tomando ali uma cervejinha e algum tiragosto feito por ela, que poderia ser uma paçoca de carne ou lambaris fritos, enquanto as crianças brincavam com os primos, e nós saíamos para as compras, sem nos preocuparmos com nada, nem em ajudá-la, e sempre quando chegávamos estava com a fisionomia alegre e feliz. 

E as festas organizadas por ela, quase sempre, eram e continuam sendo de três dias ou mais... Muito raro ser só um almoço ou só um jantar. Que é muito bem programado e organizado, atualmente, pelos anfitriões de sempre, os filhos.

É um momento, que, segundo a Shirley, irmã do Milton, essencial para encontrarmos, matarmos a saudade e revermos todos, inclusive, acompanhar o crescimento dos sobrinhos menores, e tornarmos mais próximos!!


Meu neto está chegando

Caiapônia, 10/08/2009

Meu primeiro neto está programado para nascer, nos próximos dias, justamente no mesmo mês em que nasceu meu filho, no ano de 1978, em Goiânia- GO.

Quando nasceu meu primeiro filho, minha esposa tinha 22 anos e eu tinha 26 anos e estava cursando o último ano da faculdade de Direito. Fui ao hospital à noitinha, quando meu filho acabara de nascer. Olhei no berço e vi uma criança branquinha, tão frágil, e neste momento, parece, que era eu quem estava naquele berçário.

Nesta época, eu e minha esposa éramos muito jovens, pobres e cheios de sonhos. Com a chegada do Virgilio, senti, ainda, mais o peso da responsabilidade, pois, agora, tinha uma criança para manter, educar e encaminhá-la na vida.

Meu filho cresceu, formou e não voltou para a minha casa, casou e continuou residindo na cidade de Marília- SP, terra de sua esposa.

Meu filho tem tradição caipira. O seu umbigo foi enterrado no pé do mourão da porteira, no curral da fazenda Córrego do Arroz do seu avô Zé Modesto, em Jataí, cumprindo, assim, uma tradição centenária das famílias que habitavam os sertões de Goiás e de Minas.

 Espero que mesmo sendo um jovem moderno, médico competente, que reside, no Estado de São Paulo, não se esqueça de sua origem caipira. 

Agora, depois de quase 31 anos, estou prestes a ser avô. Fico imaginando como será o meu netinho, sei que é do sexo masculino. Será loiro como pai ou moreno como a mãe, lindo como a minha esposa e minha filha e esforçado e inteligente como o pai???
Herdará as qualidades ou os defeitos do avô? Só o tempo dirá.

Meu neto terá o nome de profeta e espero que seja guerreiro e nobre como foi o Daniel narrado pela Bíblia. Que seja puro, otimista, esperto e saiba vencer as armadilhas da vida. Que seja estudioso como seu pai. Que seja uma criança sadia, linda e corra, alegremente, pela vida afora. 

Que seja um adolescente curioso e um jovem namorador, responsável, amante da leitura, da música, que tenha prazer em viver; que seja um adulto bem resolvido, sábio e cativante. Que seja um vencedor.

Meu neto foi gestado longe de mim e, certamente, também crescerá longe dos avós, por circunstâncias impostas pela sobrevivência de cada um de nós. Mas a distância não nos impedirá de adorá- lo, sentir saudade, dar conselhos, oferecer doces. Contar- lhe velhas estórias que ouvi quando criança e que pela correria da vida, não pude ou não tive tempo de contar para os meus filhos. Colocá-lo na garupa do meu cavalo e tanger o gado pelos campos da Fazenda Morro de Mesa, e viajar comigo no meu carro de boi. 

Que ao chegar à minha casa, meu neto possa, realmente, sentir em casa de avô, onde tudo é permitido, inclusive, brincar de gente grande.

Daniel, seja bem vindo! Seus avós, Milton e Nilva,  sua tia Nalygia, sua bisavó Esmeralda, seu tataravô Antônio Ramiro, seus tios avós e seus primos esperam por você e saúdam com alegria a sua chegada. 
Que Deus o proteja....
                

Antecedentes dos meus filhos

 Meus Antecedentes

Eu sou filho de Manuel Luiz da Silva, nascido em Morrinhos- GO, no ano de 1922, falecido em Goiânia em 1979, e sepultado na cidade de Jataí. Meu pai era filho de Vicente Luiz da Silva e Dinizila Rosa de Jesus ( neto materno de Pedro Nolasco a Ana Rosa, ele nascido em Morrinhos em 1860 e falecido na cidade de São Luís de Montes Belos- GO, em 1965, com 105 anos de idade). 

Minha mãe é Luiza Ferreira da Cunha, nascida no município de Morrinhos, em 01.05.1922, falecida em Goiânia, em 11.02.2006, e sepultada em Jataí. Filha de João Quirino Ferreira da Cunha e Izabel Naves da Cunha, naturais da região da cidade de Patrocínio- MG. Os pais de minha mãe mudaram para Goiás, mais ou menos entre 1918 e 1920, e foram trabalhar como agregados para um fazendeiro no município de Morrinhos.

Meu pai tinha quatro irmãos: 
1-Sebastião Luiz da Silva 
2- Clarinda Luiz da Silva
3- Francisco Luiz da Silva
4- José Luiz da Silva c/c Rosa.

Minha mãe tinha oito irmãos: 
1-Cândida Ferreira da Cunha
2- Maria Ferreira da Cunha
3-Sebastiao Quirino Ferreira da Cunha
4- José Quirino Ferreira da Cunha
5- Levindo Quirino Ferreira da Cunha
6- Albertina Ferreira da Cunha
7- Josias Quirino Ferreira da Cunha
8-Benedita Ferreira da Cunha.


História da família de minha esposa e o povoamento do Sudoeste Goiano

Não sou escritor,  sou um simples advogado, militante nesta região, há mais de trinta anos; metido a fazendeiro, criador de gado Gir, Nelore, e ainda metido a intelectual e a pesquisador. E pesquisando, pude sintetizar um pouco da história da minha família e também da minha esposa, narrando fatos acontecidos, envolvendo as pessoas, o lugar e a tragetória dos ancestrais dos meus filhos por parte de sua mãe.

O início da história da família de minha esposa e, concomitantemente, de meus filhos e netos começa por uma senhora chamada Francisca Maria Ferreira de Menezes - a İaiá, viúva, que, juntamente, com os seus filhos vieram para o Sudoeste Goiano, precisamente para a Vila Paraíso, hoje, Jataí, mais ou menos, nos idos de 1850, certamente, atraídos pela grande vastidão do Sertão Goiano e pela facilidade em adquirir terras.

İsso em meados do século XlX, quando ela e os filhos venderam o pouco que tinham, lá no Triângulo Mineiro e rumaram para o Sertão de Goiás - região de Jataí, sem estradas, máquinas e pontes, enfrentando Índios, onça e a malária. 
Quando o governo imperial, através da Lei nº 11, de 05.09.1838, incentivava as pessoas virem para esta região, oferecendo terras e isenção de impostos, com intuito de povoar o sertão de Goiás.

Esses aventureiros, chegando ao Sudoeste Goiano ( Rio Verde , Jataí e Caiapônia), compravam por preço insignificante grande extensão de terras, ou faziam o Registro Paroquial, junto a Igreja Católica de determinada área, que ainda não tinha sido registrada, geralmente, demarcando suas divisas, através de veio d'água , ou seja,de um Córrego ou de um Rio ao outro, com área média de três a dez mil alqueires de terra. 

Chegando aos confins de Goiás, onde pretendiam construir suas fazendas para criação de gado bovino, aproveitando a facilidade de adquirir terras, para deixar aos seus herdeiros, milhares de alqueires, que até hoje, parte delas, ainda, estão nas mãos
dos seus descendentes.

A partir de 1850, através da Lei nº 601, de 18.09.1850, o Governo İmperial torna obrigatório o registro das terras pelos proprietários, junto a İgreja Católica - chamado Registro Paroquial, o que atraiu ainda mais, mineiros e paulistas a virem para o Sudoeste Goiano, em busca de terras férteis e campos limpos, próprios para a criação de gado.

Antecedentes de minha esposa

Minha esposa é filha de José Joaquim de Moraes, nascido em 05.06...., falecido e sepultado em Jataí - GO em........... Filho de Joaquim Ferreira de Moraes (que era filho de Modesto Ferreira de Moraes e Maria Abadia Gouveia de Moraes, que eram primos em quarto grau), e de Josefa Rosa de Moraes,  conhecida por Zefinha, nascida em mais ou menos 1908 e falecida em 1983, (filha de Joaquim Rosa de Moraes e Maria Ferreira de Moraes).

Sua mãe é Esmeralda Silveira Moraes, nascida em 1/05/1939, e falecida e sepultada em Jataí- GO; filha de Antônio da Silveira Neto ( conhecido por Antônio Ramiro), nascido em 14/05/1917,( filho de Ramiro da Silveira Moraes e Cecília de Sousa Moraes). Antônio da Silveira Neto viveu até os 93 anos, quando morreu ainda estava bem lúcido. A mãe de dona Esmeralda era Elizena Maria de Rezende, nascida em 30/03/1922 e falecida em 29/06/1998, que era filha de Antônio Gomes Sobrinho ( conhecido por Antônio Norato), nascido em 1897 e falecido em 1969. Sua mãe era Olegária Carolina de Rezende, nascida em 1899 e falecida em 1945, era filha de Zeferino Martins Ferreira, falecido em 1933, e Joaquina Carolina de Rezende, falecida em 1939. 

A maioria dos parentes de minha                     esposa era fazendeiros

Antônio Gomes Sobrinho, tataravô materno de Virgílio e Nalygia era grande proprietário de terras. Era dono da fazenda Boa Vista da Lagoa - Rio Claro, município de Jataí, uma fazenda com mais de 1.600 alqueires goianos de terras, deixados integralmente para seus herdeiros. A sede dessa fazenda estava localizada à margem direita do Rio Claro, em frente a fazenda Córrego do Arroz, localizada a margem esquerda do Rio Claro, e que pertencia ao meu sogro, avô materno de meus filhos. Hoje, pertence ao meu cunhado.

Modesto Ferreira de Moraes, bisavô de Nilva, avô de seu pai, era também proprietário de grande extensão de terras - Fazenda São Domingos, no município de Jataí- GO.

A maioria dos Moraes era fazendeiros, e criadores de gado, não foram agricultores e nem mineradores. Os Moraes, ascendentes dos meus filhos, foram pessoas simples, e tinham na criação do gado, o único meio de subsistência e também de prazer. 
Viveram modestamente, sem qualquer ostentação, deixando para seus descendentes as terras que herdavam dos pais. 

Casamentos

Observamos, durante a pesquisa, que houve um grande número de casamentos realizados entre parentes dos ancestrais dos meus filhos. Isto acontecia porque a grande maioria das pessoas morava na zona rural, e o convívio dos jovens, daquela época, era quase que, exclusivamente, com os vizinhos, que também eram seus parentes. 

Filhos

E pudemos observar que o número de filhos dos casais, ao longo do tempo, caiu bastante. Antigamente, a média era de onze, dez, oito, sete, seis, e hoje, três, dois ou apenas um.

Nomes homônimos

Encontramos também vários homônimos, pois, antigamente, era tradição entre as famílias, dar aos filhos os nomes dos bisavós, dos avós, dos tios, dos primos e até mesmo dos pais, mantendo, assim, preservado o pré, nome, e o nome dos familiares.

Interessante observar, que a assinatura Moraes está presente em todos os ascendentes dos meus netos, desde  Joaquim Antônio de Moraes ( nascido em 1773) até meu netinho Lucas C. Moraes Ferreira ( nascido em 2015). 

Hoje, depois de mais de 170 anos, podemos afirmar que os Moraes que deixaram a terra Natal em busca do desconhecido até encontrar a terra prometida são vitoriosos, venceram obstáculos, desbravaram e povoaram o Sertão, e ajudaram a fazer desta região, uma das mais prósperas e ricas do Estado de Goiás.

Estou orgulhoso por meus filhos e meus netos partencerem a essa família, e ao mesmo tempo, poder contar um pouco da história dos seus antepassados, e sobre o povoamento do Sudoeste Goiano.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

8 -FECAPOC ( Colocar depois do Período de adaptação....

FECAPOC
Caiapônia, há 160 anos, era Torres do Rio Bonito; depois, Rio Bonito, e, agora, apenas Caiapônia. Que nasceu em meados, do século 19, pela coragem de um grupo de intrépidos aventureiros, vindo do Triângulo Mineiro, que embrenharam pelos sertões de Goiás e fundaram a nossa cidade.

A história do FECAPOC se confunde com a própria história da nossa cidade. Também nasceu, há mais de trinta anos, pela coragem de jovens cauaponienses, embalados pelos movimentos que revolucionaram a música e a cultura em nosso país; seguindo a mesma linha dos festivais feitos pela TV Record em São Paulo, e por todos os festivais existentes em quase todas as cidades.

Dos jovens cabeludos e rebeldes, com suas guitarras estridentes, e sua música contestatória, falando de política, amor e esperança, que aportavam em Caiapônia, no mês de julho dos anos setenta, resta pouca coisa; pois os jovens de, agora, são mais comedidos / comportados; suas músicas são mais românticas, mas suas letras continuam falando de amor e esperança, somente a emoção é a mesma.

Poucos são os festivais que sobreviveram. A vida moderna - a luta pela sobrevivência tirou da juventude a rebeldia, a vontade de expressar, através dos movimentos culturais, sobretudo, através da música; uma vez que, o local mais adequado para essas manifestações, sempre, foi o palco dos festivais.
O nosso tradicional FECAPOC conseguiu romper a barreira do terceiro milênio, com a mesma característica, com o mesmo dinamismo, e com a mesma força jovem de sempre.

Salve, Sidney Zambeline, o fundador do FECAPOC. Salve a todos os organizadores e colaboradores de todos os tempos do FECAPOC. Salve os participantes do festival. Salve a juventude caiaponiense. Salve o prefeito Lary, que, definitivamente, resgatou a realização do FECAPOC para satisfação de todos nós. 
Caiapônia, 30/07/04.

Milton, sempre, gostou de música, e por isso, participar desses movimentos musicais era um grande prazer. Lembro-me, até hoje, que logo depois que o festival terminava, naquela noite, (geralmente, durava muitos dias, desculpe - me, não me lembro mais), alguns amigos iam fazer serenata em nossa casa. E, quase sempre, o Milton saía à porta para agradecê-los.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

22-Tempo de jabuticabas....que tal fazer um licor?



A jabuticaba é uma das frutas que o Milton mais gostava e eu também! Então, gostávamos de aproveitar bem da safra, e, segundo pesquisas,
"sua polpa possui poucas calorias e carboidratos, e grandes quantidades de vitamina C e outras vitaminas como a vitamina E, o ácido fólico, Niacina, Tiamina e Riboflavina. Possui ainda minerais como potássio, cálcio, magnésio, ferro, fósforo, cobre, manganês e zinco.

Um grande diferencial são as propriedades da sua casca, pois ela é rica em antocianidina, ou vitamina R, que dizem ser 50 vezes mais potente que a vitamina E e 20 vezes mais potente que a vitamina C." 

Pensando nisso, resolvemos fazer o licor. O licor caseiro é coisa de antigamente, de casa de avó ou de bisavó. Minha avó fazia de várias frutas, dentre elas, o de jabuticaba.

E, licor, como o Milton dizia, não é bebida que se bebe em grande quantidade, mas, sim, em doses pequenas. Não é bebida para tomar todo dia, mas, sim, para encerrar refeições especiais.

Licores de frutas têm tudo a ver com preservação de uma tradição, têm a ver com as grandes propriedades, e com o aproveitar a colheita das frutas ao máximo. Por isso, vale tanto a pena. Se é pra servir um licor, que seja um feito em casa e preparado com frutas nossas da época. É outra coisa, outra emoção! Eles não precisam ser doces, nem fortes demais, podem ser doces na medida certa e suaves, deliciosos mesmo!!

Como lá na fazenda tinha umas duas jabuticabeiras... jabuticabeiras ou pés de jabuticabas? Prefiro pés de jabuticabas. Foi como ouvi falar a vida inteira. Então, resolvemos fazer para aproveitar as frutas. Muitas pessoas fazem sem a pinga de engenho, minha avó já usava a pinga. O Milton foi pesquisar para ver se encontrava uma boa receita... já não tenho a minha avó e nem o meu avô para nos passar a receita. Encontrou várias receitas. Optou por esta... que pedia para deixar as frutas esmagadas num pote com cachaça, por 10 dias, depois peneirar, coar, misturar uma calda de açúcar, engarrafar, e só servir o licor depois de 30 dias. Fizemos três litros. 

Mas... depois da degustação do primeiro licor, o Milton achou que tinha ficado muito doce e um pouco forte na pinga, então resolvemos fazer outro; desta vez, colhemos as jabuticabas lá na fazenda da minha irmã e do meu cunhado. Fizemos, então, com menos açúcar e menos cachaça. Está em fase de descanso por 10 dias com as frutas e a cachaça, depois coloca a calda, fica um mês descansando, sem fazer absolutamente nada durante esse tempo, além de sonhar com o primeiro gole, e balançar o vidro lentamente...

"Dá pra servir em temperatura ambiente, gelado, puro ou até como “kir royale” bem brasileiro, só colocar uma dose do licor numa tacinha e completar com um espumante, muito bom", segundo pesquisas. "

Preparo

O processo leva quarenta dias, mas não dá trabalho algum, é muito simples.

Separe um vidro médio, lave e seque bem, assim também com as frutas. Depois de esmagadas Acrescente meio litro de pinga de engenho e deixe descansar por 10 dias. 

Depois de dez dias, passe num coador de pano para ficar só o líquido mesmo. Reserve.  Leve ao fogo meio quilo de açúcar e um litro de água para ferver. Espere esfriar, e junte ao líquido das jabuticabas. 

Engarrafe, e deixe descansar, sem abrir.
Coloque as garrafas num armário, pois devem ficar no escuro, segundo pesquisas, e deixe tudo descansar, sem mexer, por um mês.

(Obs.: Como o clima por aqui está muito quente, preferimos engarrafar e colocar na geladeira descansando por um mês!! ). Vamos servir para os familiares no Natal!!

Morte de Íris Rezende

Foi com pesar que recebi a notícia do falecimento de Íris Rezende Machado, grande político, que o Milton conheceu bem no início de sua militância política por Caiapônia, com 31 anos de idade, ao lado do ex- prefeito Joaquim Moraes dos Santos e outros companheiros!  

Íris era bem jovem, ainda, deveria ter seus 49 /50 anos de idade.  Lembro-me bem de sua simpatia, de seu carisma, sempre com um sorriso no rosto e muito atencioso. 

Num dia desses, eu e o Milton o recebemos em nossa casa, juntamente com os políticos locais da época. 

A mais triste constatação é que muitos destes que estão nestas fotos já partiram! São eles: Mauro Bento, Sr Joaquim Moraes, Adão Nazir, Milton, íris Rezende, Maguito Vilela, Décio Rodrigues.

6 -A beleza não tem que ter utilidade




O Milton, sempre, teve uma conexão muito grande com o passado, seja no interesse pela história dos povos, dos antepassados quanto pela história da política, da música, pelos filmes, antigos documentários, etc.

Tinha um grande apreço pelos objetos antigos, principalmente os rurais. E esse gosto o motivou a tê-los não só como peças decorativas, mas que poderiam ser usados para relembrar os afazeres do passado. E com isso fui me interessando também. Uma vez que, para mim, os mesmos eram como  relíquias carregadas de histórias e lembranças que vivi e que meus antepassados viveram, passando de geração a geração.  

E para o Milton, preservá- Los era uma forma de manter viva a memória e de levar costumes antigos às próximas gerações por meio das minhas tradições familiares, e, ainda, por ter marcado também a sua infância, através de momentos, relações e sentimentos de quando passeava nos quintais velhos das fazendas que visitava com a sua mãe e quando andava nos carros de bois pelas ruas de Serranópolis com a meninada da sua idade. 

Como disse Carla Bastos Dias, em um especial para a Gazeta do Povo ( 2020): "Não é a coisa que carrega o afeto, mas ela é o instrumento que permite reviver aquele afeto." semprefamília.com.br https:/www.semprefamilia.com.br. E foi na nossa fazenda denominada Morro de Mesa que, embora, tivesse como atividade principal a criação de gado, na época, Milton a escolheu para fazer daquele lugar - um ambiente com "alma fazendeira",como ele mesmo dizia. 

Para ele, uma fazenda, ao seu gosto, teria  que ter benfeitorias como: um engenho para fazer garapa, melado e rapadura para os netos e visitantes; um monjolo para socar café do dia a dia, e milho para canjica; um rego d'água e bica com água corrente; um carro de boi; um curral de lasca, porcos no chiqueiro e no mangueirão, vacas parideiras nos pastos para cria e para tirar um leite, galinhas poedeiras no terreiro.

 Teria que ter também fogão a lenha e alimentos para serem servidos , no dia a dia, como: lombos cheios de carne bovina (carne de lata recheada), linguiça suína caipira, biscoitos de polvilho, requeijão
 ( ele me ajudava a fazer requeijão, segurando a panela), queijo fresco, pamonha e café torrado e moído na hora. Tudo isso, ele conseguiu vivenciar várias vezes, pois, sempre, gostei de fazer essas coisas. Somente, o uso do fogão a lenha não foi possível, embora tivesse na minha cozinha da fazenda, achava que esquentava muito, e fosse prejudicial para a minha saúde.

Além  de gostar dessas iguarias caipiras. Ele se sentia bem quando fazíamos uma pamonhada na fazenda -  por gostar daquele movimento -corta o milho, tira a palha, tira os cabelos, rala, coa, tempera, faz os copinhos com a própria palha, coloca a massa do milho, queijo fresco, linguiça frita, amarra e coloca na água para cozinhar. 

Algumas vezes, chamávamos os vizinhos para irem comer pamonha em casa. Sempre, fazíamos quando reuníamos os nossos filhos e netos também. E ele ficava muito contente. Como disse Mário Sérgio Cortella, "As famílias precisam voltar a fazer pamonha. Não se faz pamonha para comer pamonha, mas para passar o dia inteiro juntos.” 

E era assim que o Milton via esses momentos. Era para ele como se fosse um evento. Gostava de fartura. Preferia mais as pamonhas de sal com queijo e linguiça suína frita. As doces, gostava delas fritas, como a sua mãe fazia. 

Assim era a sua memória fazendeira. Gostava de tudo que pertenceu e pertence ao mundo rural. Diferente de muitas pessoas que dizem: Para que servem tantos objetos que não usam ?" Ainda, completam..."Não servem para nada.  Só para pegarem poeira e apodrecerem". 

Fazer pamonha? Muito melhor comprar, cada um come uma / duas e, como dizem "não tem trabalheira". Em casa, não, o Milton preferia as feitas em casa. 


Existem pessoas que gostam só do que dão lucro...flores não plantam..."Para que servem flores? Só para dar trabalho!?".

Mas...como disse o padre Fábio de Melo, " a beleza não tem de ter utilidade.  Ela é supérflua.  Ela é o que sobra sem poder faltar. 

É o elemento que revela o sentido das coisas. Deixa grande, dilata e assombra com seu poder de encantamento. Mas não é útil.  É apenas necessária.  

Ele continua...
Gosto de observar a beleza dos objetos que já foram alforriados de suas utilidades.  Quadros e esculturas libertados da obsessão utilitarista de seus donos. 

Os museus são lugares que proporcionam o descontentamento das coisas belas. Distantes das equívocas atribuições a que foram submetidas,  finalmente, descansam em paz."

Fotos do carro de boi, do monjolo, do engenho e de outros
Como olhar
Um lugar assim
Sem se encantar

Viver perto da natureza
E ser feliz com as coisas
Mais belas que na terra há  

Podendo ver o pôr do sol 
E os pássaros a cantar
Voando para lá e para cá
Além dos répteis a coaxar

Aqui posso reinventar
Sem me preocupar
Aqui tudo é simples
Tudo muito natural!!


6-Você está em tudo...

Eu sou um pouco de tudo que você deixou em mim. Além de marido, você me fez mulher, me fez mãe e me ensinou a viver. 

Um pouco de tudo que sei. De tudo que li… de tudo que ouvi… de literatura … de música…de poesia… de cultura… de política… aprendi com você. 

Um pedaço do seu eu está em mim.
Está em nossos filhos 
Está em nossos netos 
Está em todos os lugares 
Por onde andamos 

Você está em tudo 
Que está em minha volta
Você partiu para o além
Mas habita em mim…

Namoro no tempo das cartas

Acredito que há, com certeza, "n" possibilidades de lembranças de entes queridos guardadas pelas pessoas, de acordo com o gosto pessoal de cada um. Há quem não guarda nada, mas muitos, guardam, afinal, apegar-se a algo que foi importante, afetivamente, em nossa vida é natural do ser humano.

Eu herdei esse apego pelas coisas, acredito que da minha avó materna - lembro- me dela nos mostrar a sua primeira paganzinha, e fiquei admirada, na época, por guardar algo por tanto tempo, e, ainda, estar, praticamente, intacta.

Eu e o Milton namoramos quase três anos por cartas! E guardo, ainda, até hoje, quase meio século depois, todas elas -  uma grande coleção de nossas tão românticas e bem elaboradas e dobradas cartas escritas, manualmente ou digitadas, nas antigas máquinas de escrever.
 
O papel já está bem amarelado pelo tempo, mas pode perfeitamente, remontar a nossa história, se lidas pelos nossos filhos e netos. Os únicos que poderiam ter certa curiosidade de nos conhecer mais interiormente. 

Essa foi uma prática milenar dos enamorados,  familiares e outros, que viviam a distância, por ser o único instrumento de trocar informações históricas e registrar fatos do cotidiano. İnspirando, inclusive, muitos escritores a escrever sobre as cartas de amor, que chamavam atenção pela linguagem delicada e muitas vezes poética, com caligrafia impecável.

E lendo algumas de nossas cartas, no amontoado de centenas delas, relembrei seu jeito de ser, suas preocupações, e fiquei pensando que, no tempo das cartas, os namorados, embora, distantes, pareciam estar mais próximos, porque poderiam através do papel extravasar seus sentimentos, suas expectativas, seus desejos e suas saudades e, muitas vezes, até o seu perfume. Vantagem que o WhatsApp, Facebook e Instagram, ainda, não podem nos oferecer.

O tempo passa, as pessoas queridas  partem, mas as lembranças ficam eternizadas em nossa memória... Assim, aconteceu comigo. Hoje, tudo que o Milton fez e foi ficará registrado, através dos seus escritos, cartas, fotos, livros e objetos que ele gostava, instalados, na fazenda, como: seu engenho, seu carro de boi, tudo que ele valorizava, sua lembrança está. 

Para mim vale a pena guardar e conservar objetos que os entes queridos gostavam, desde que não geram desconforto pela falta de espaço e pelo dano do tempo. Ou espaço psicológico, segundo leituras, "uma vez que, para cada objeto que guardamos existe uma representação mental dele ocupando espaço na nossa mente". 
Não, não é este o meu caso de transtorno desse ou daquele, não é nada em excesso.  
 











segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

17 -Vidraças



Ao longo da nossa vida, eu e o Milton fomos transformando em pessoas mais pragmáticas, menos deslumbradas, nem muito pessimistas e nem muito otimistas; e que acreditávamos menos em soluções extraordinárias... 

Com o tempo...com tudo que foi nos acontecendo,  fomos tornando
mais realistas e resilientes. Tínhamos muito a comemorar, mas, também, a lamentar, é claro!  Quem não tem? É a vida! 

E, aos poucos, fomos adquirindo mais consciência e experiência de vida, e fomos aprendendo a agir mais pela razão do que pela emoção, e não nos deixarmos levar pelas "más línguas, pelos "falsos elogios" e pelo "jogo do inimigo", e começamos aprender "a colocar as pessoas do nosso lado" e nos seus devidos lugares.  

E isso só aprendemos convivendo, e  dando, literalmente, a cara a tapas, isto é, enfrentando a vida sem desistir - arriscando e sendo ousados! Mas não me refiro a nenhum sofrimento específico, mas a tudo, que com o passar do tempo foi nos ferindo,  pessoalmente, e nos ensinando.

E lembrei-me que o Milton, sempre, me dizia - "o político e a sua família são como vidraças". São vítimas da exposição, até meio que, inconscientemente, principalmente, no interior; e se foi um profissional que não era filho do lugar, e conseguiu vencer, na vida, isso piora, e as pedras vêm de todos os lados.

E, embora, as pedras tenham sido bastantes e feito muito barulho, pelo fato das vidraças serem bem resistentes - a cada pancada, ficávamos mais fortes e mais resignados. Era como se fosse um teste de fortaleza.

Todavia, não pense você, leitor/leitora, que não sofremos...sofremos muito... e nossos filhos também. E, hoje, fico pensando... quantos aprendizados, quantas experiências e quantas marcas ficaram... mas será que não teria sido melhor, se tivéssemos nos esquivados dos problemas? Talvez, teríamos sofrido menos.

Mas o Milton era apaixonado por política. Gostava de estar no meio dos políticos e do povo. Trabalhava mais por prazer. Tinha paixão pelo que fazia. "E era essa paixão que lhe dava a energia necessária para suportar contratempos, ter persistência e a dedicação necessárias para alcançar um objetivo, mesmo quando todos à sua volta pareciam desistir ou não acreditar.10 de dez. de 2006 

Por isso, conseguia prosseguir, apesar de todos os obstáculos, não deixando se abater, "mantendo- se
de pé" todo o tempo, e não nos deixando perder pelo caminho, apesar de tudo. Mostrando, de certa forma, que não éramos edificados como a madeira, o feno e a palha, porque precisaríamos resistir ao "fogo cruzado", como o Milton dizia, assim, como o ouro, a prata e outras pedras preciosas.

domingo, 2 de janeiro de 2022

13-Desejo de ser fazendeiro

Não pretendo ser advogado e político a vida toda. Após a formatura dos meus filhos, desejo ser fazendeiro. Não quero ser fazendeiro moderno, informatizado e tecnificado. Ser fazendeiro é trabalhar de sol a sol, é morar numa casa simples, se possível antiga, com grandes portas e janelas, no estilo das velhas fazendas, e poder ouvir o barulho das botas e o tilintar das esporas provocadas pelo pisar das pessoas pisando pela casa.

Quintal grande com pomar, rego d'água, bicona cheia, o terreiro repleto de galinhas. Porcos gruindo no mangueirão, brigando por uma espiga de milho ou por uma fruta caída de uma mangueira ou de uma goiabeira.

Minhas noites serão de luar, carne assada, viola e violão, cantorias, sonhos e mais sonhos, e ao deitar, poder dormir ouvindo o som do monjolo preguiçoso, pilando milho para canjica. Acordar de madrugada despertado pelo cantar insistente dos galos músicos, e minhas manhãs serão frescas, abrirei a janela do meu quarto para ver o sol nascer e ouvir o canto dos pássaros na moita de bambu.

(Foto na janela)

No pasto da porta, umas poucas vacas leiteiras, e no piquete, éguas com os seus filhotes desfrutando o sol da manhã.

Nas invernadas, haverá o gado nelore, baio por excelência, de onde pretendo retirar o sustento da minha família.
( Gostava do gado nelore e gir. O nelore todo baio, e as girolandas de pelagem vermelha com manchas brancas.)

(Colocar fotos do gado nelore e gir)

Nas tardes quentes de verão, irei pescar lambari e piaus no Córrego Joaquinzinho e banhar no poção, logo abaixo da ponte dos buritis. 

(Foto pescando)

E ao chegar em casa, poder encontrar minha querida esposa varrendo o terreiro ou fazendo doces, assando biscoitos em forno de barro construído na casinha da bica, e apesar de tanto tempo juntos, ainda, poder observá- la com carinho.

Nos finais de semana, visitar os vizinhos ou recebê-los em minha casa. Uma vez por mês, ir à cidade para arrumar os negócios, rever os amigos e ir à igreja Matriz participar da missa. ( Milton não tinha religião. Mas gostava da simbologia da igreja católica. Gostava de conversar com os padres).

Nas férias ou nos feriados, receber os filhos, os netos, meus irmãos, sobrinhos e amigos. Fazer pamonhas, contar causos, jogar truco, e poder sentir, ainda, mais forte o sentimento familiar. 

É, assim, que pretendo viver daqui a alguns anos, e espero que estes sonhos se concretizem. 
      (Caiapônia, 30 de maio de 2002)
              ..........sfm......

Milton dizia que não queria advogar e nem ser político a vida toda, mas não conseguiu. Não conseguia ficar quieto. Era muito trabalhador. Era advogado e um político nato. Era um ser atuante. 

Tinha um sonho de morar, na fazenda, logo que os nossos filhos formassem, também não se concretizou. Mas nos últimos quatro anos, antes de sua morte, íamos bastante prá fazenda, e ele, embora, não tivesse tempo e nem sossego de ficar parado, aproveitou bastante a fazenda.

Milton gostava muito de fazenda, mas se não tivesse o que fazer de uma fazenda para outra, com a lida do gado, preferia voltar para a cidade. 

Se a energia acabasse, ficava incomodado, gostava de ouvir suas músicas, seus filmes, seus programas na TV, quando não estava fazendo nada, principalmente, à noite.

Caso a energia não chegasse, me chamava para irmos embora. Dizia, sem TV, vou perder o sono. (Certa vez, ele me disse que, quando era solteiro, pensava... "Vou casar, e, quando perder o sono, vou ter com quem conversar... Mas, não, quando perco o sono, a Nilva está dormindo", e, como, também, tenho muita insônia, às vezes, para não me acordar, ele ia deitar, no sofá, para ver TV ou ouvir rádio). Amava um rádio!!

Sempre, me contava seus sonhos quando acordava. Tinha constante sonhos com fazendas e casas antigas. Amava assistir aqueles documentários de fazendas antigas. Era uma pessoa saudosista, muito caseira. Não gostava de ficar só em casa, mas não gostava de visitas com muita gente. Dizia que preferia a companhia de poucas pessoas para conseguir dar atenção para todos. 

15 -Pela estrada da vida

Pela Estrada Da Vida

( Nilva Moraes Ferreira)


Pela estrada da vida

Seguiu o pobre menino a galopar

Assumindo bem cedo as rédeas

Sem medo de se arriscar...


Seu lema, sempre, foi ousar

   Correr atrás dos sonhos

            Sem fugir do real..

                 Enfrentando o mesmo querer 

                          E o não querer

                       Sem confirmar ou negar.


Aprendeu com a dureza da vida

               İr à luta ....de qualquer jeito

Com a cara e a coragem

         Que não vinha da sua força física

Mas de um sentimento mais nobre

           Que o seu forte caráter 

Não o deixava abandonar


Sua tarefa de viver

Fê- lo, assim

        Na fazenda

                  Na advocacia

        Na política

Ousado ... forte... Argucioso

Destemido

Em qualquer lugar...


sábado, 1 de janeiro de 2022

6-As ruas da cidade falam por si

As ruas da cidade, assim, como a nossa casa, falam por si e pelos seus habitantes, transportando toda a sua pequenês aos olhos de quem chegam ou toda a sua vitalidade. Causando uma boa impressão ou não -  de alegria ou de tristeza, de (anti) - progressista. De bem ou mal cuidada. É fácil fazer essa avaliação, logo que adentramos em um lugar.

 Quando chegamos em Caiapônia, precisamente, em 1979, tudo era muito simples e harmonioso, como a maioria dos lugares, e com seus moradores e também com os chegantes.

Um povo muito hospitaleiro, logo foi nos dando "o ar de sua graça", sabendo muito bem receber seus visitantes ou seus ficantes, nos dando as boas vindas, oferecendo ajuda e nos desejando boa sorte. 

E nós, jovens casados, o Milton recém - formado, com o nosso primogênito, nos braços, de dez meses, carregados, apenas, de muitas esperanças e de positividade,  abraçávamos a causa que o destino para nós começava a planejar.

E foi aceitando aquela fase, tal como ela mesma nos apresentava, procurando ver esperança em, praticamente, tudo, mesmo quando sentíamos que algo não estivesse indo tão bem. Mas tínhamos duas grandes aliadas, que não nos deixavam sozinhos e nem nos abalar pelas dificuldades - a coragem e a persistência.

A persistência e a coragem nos ajudaram  resistir a tudo. E foi não cedendo às dificuldades que tornei professora e o Milton advogado, político e fazendeiro. Foi aqui que aprendemos a viver e a conviver com as pessoas, e, também, nos conhecermos melhor e tbém o outro, como ser humano. Foi aqui que nossos dois filhos cresceram, foram alfabetizados e fizeram o Ensino Fundamental.

Foi aqui que construímos vários amigos e conhecidos. E enquanto uns iam colorindo a nossa vida, outros iam descolorindo, assim, como a confecção das antigas colchas de retalhos - nem sempre de tecidos bonitos, nem sempre alegres, nem sempre resistentes, nem sempre duráveis. 

Embora, alguns fossem bem floridos, outros eram cinzas, outros bem desbotados foram dando o tom típico daquele lugar. Entre esses existiam e existem as sedas, retalhos mais nobres, que estarão para sempre em nossas lembranças.

Assim: Cada um, que foi passando por nossa vida, foi costurando algo em nossa existência. Nenhum foi igual. Mas em cada contato, fomos ficando cada vez maior, no sentido de conhecermos mais pessoas, e ficando mais resilientes. Cada pessoa chegou com seu jeito... com a sua grandeza ou com a sua pequenês. 

Cada uma deixava o seu exemplo de vida... sua experiência... sua empatia... sua história. Quase todos deixaram algo importante em nossa memória, e que não queremos esquecer jamais.. Mas existiu quem entrou e que não fazemos nenhuma questão, se a nossa memória, um dia,  por completo deletar.

Só temos a agradecer as pessoas que entraram em nossas vidas para nos fazer o bem. Nosso ❤️, sempre, estará aberto para elas. 
_____________________________________
Mas...como todas as cidades interioranas, tudo aqui era muito rotineiro... tudo andava bem devagar, assim, como disse Carlos Drummond de Andrade em: CIDADEZINHA QUALQUER

Casas entre bananeiras / mulheres entre laranjeiras / pomar amor cantar.

Um homem vai devagar / Um cachorro vai devagar / Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida.... meu Deus.

...….......................................................

E lembrei- me do comércio de outrora - das lojas de tecidos do Sr Geraldo, do Sr Adalberto Bonfim, do Nazir e do Kalide Azank e de outros  libaneses. Também da frutaria do Sr Orestes - onde vendia bananas da Terra, mandioca e tomates. 

Ainda, me lembro dos armazéns que vendiam o básico - arroz, feijão, açúcar, café, macarrão e extrato de tomate elefante, bolachas, suspiros e rapaduras, ao céu aberto, não esqueço, que além de alimentarem as crianças, as formiguinhas doceiras também. Faziam estradas entre uma prateleira e outra... Mas não incomodava ninguém...era assim que usava...

Lembro- me da Dona Maria do Mel, uma fazendeira, que logo me cativou, tornando minha amiga e fonte de inspiração... por estar sempre disposta mesmo com a idade que tem. Dona Maria  saía vendendo quase de tudo, de casa em casa, que trazia da sua fazenda - frutas ( laranja, bananas, jabuticabas e outras que a minha memória não relembra mais). Folhas e cheiro verde, abobrinha, e tudo de hortaliças, além de queijo, doces requeijões e ovos Caipira. Tudo fresquinho, além do mel das abelhas Europa.  Tudo orgânico.

Lembro- me da panificadora do Sr Edinho e de dona Derly, primeiros donos da Panificadora Universo, que até hoje mantém o nome, pelos outros proprietários. Sr Edinho e dona Derly já não estão mais aqui, já viajaram para o lado de lá; sempre, nos convidavam para passar o Natal com eles e os seus funcionários, tendo como prato principal, além de um agradabilíssimo papo, leitoa assada, mandioca, arroz branco e uma gostosa maionese. E, sempre, íamos com o maior prazer. Eram pessoas muito simpáticas e queridas por todos nós.

Ah, lembro também da galinhada da Dona Percília! Fomos algumas vezes jantar lá com alguns políticos! Ah, como tinha vontade de aprender fazer aquela galinhada! Por mais que eu tentasse, e que encontrasse alguém que a fizesse muito bem, o sabor da dela era inigualável, com aquele molho incrível!! Às vezes, fico me perguntando... será que não deixou a sua receita para as filhas e netas?

E por falar em aprender... Caiapônia foi um dos meus maiores celeiros de aprendizagem. Como cheguei aqui muito nova, sabia muito pouco tanto da culinária quanto da vida. E muito do que eu sei, aprendi aqui. 

Quando chegamos aqui, o transporte do lixo da cidade, ainda, era feito de carroça, e a entrega do leite também. "Oh, o leite", o leiteiro gritava..., e a gente ia correndo pegar o litro do dia. E o cavalo saia galopando pelas ruas de pedras, puchando a carroça e o seu carroceiro, deixando em nossa memória o barulho dos cascos do cavalo correndo pela rua. Lembro até hoje!

Ah, o município dos melhores cerrados  para o pequi.  Não esquecerei, jamais, das crianças que vendiam pequi. "Olhe o pequi"...e lá ia eu comprar, um dos melhores pratos de Goiás. Que fui conhecer mesmo em Caiapônia. Em Jataí, não sei se pela falta de hábito da época por aqui, na casa da minha mãe e do meu pai, o pequi não fazia parte do cardápio.
Mas é um prato mesmo especial. E quando tem frango, 
vou te falar...primeiro, se come com o olfato, depois  com o paladar. E lembrei- me de que o Milton sempre dizia: "pequi não tem gosto, só cheiro". E para quem saboreia um bom pequi e sabe o gosto que tem, não discutia. 

Inesquecível.... Inconfundível
Se você comer, não esquecerá jamais.
Ficará sempre, na sua memória, este poderoso energético e afrodisíaco dos cerrados de Caiapônia - Goiás.

Mas, hoje, quanta coisa mudou, é muito raro ver crianças vendendo pequi. Temos, hoje, a Rua do Comércio. A casa do pequeno e do (a) grande empresário (a), do (a) produtor (a) do campo e também da cidade. Lugar que tem de tudo, não é a toa que chama rua do Comércio. Onde vende desde as roupas e calçados importadas da China... às grandes marcas da Colcci, da Cantão e outras.

É lá também que fica o Boticário, a pequena farmácia de outrora, que, hoje, dá lugar à maior rede de Perfumaria e Cosmética do Mundo. E Caiapônia tbém não ficou para trás. A Loja dos presentes dos amigos, dos colegas, dos pais, das mães, do Natal e, principalmente, do amigo secreto.

Lá onde as palmeiras imperiais têm o destaque que, realmente merecem, fazendo jus ao nome - altaneiras...e belas...quase encostam no céu, plantadas na administração do ex-prefeito Lary, entre as luminárias de um lado e de outro colocadas pelo ex-prefeito Edinho. E vale lembrar que foi "a primeira palmeira plantada, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, pelo príncipe regente Don  João Vl em 1809".  

Mas, não, que as outras ruas da cidade não possuam a sua beleza com as suas belas sibipirunas, plantadas na administração do ex- prefeito Joaquim Moraes dos Santos.  E lembrei- me da rua da İgreja Católica, onde fica a primeira casa que aqui moramos. Onde o Milton recorda, citando o sino que tocava de hora em hora.

Logo, bem próximo, tem a praça, onde todos lembram, com saudade, do jardim, com suas árvores decoradas - topiaria - a arte que começou na Europa, que molda as plantas através de podas, criando formas geométricas ou artísticas. Não tive o prazer de conhecer esse jardim de outrora, só conheci por fotos.

 E por último, da rua da minha casa, que morei, por tanto tempo,  com o meu saudoso esposo, e hoje não moro mais; que fica perto das duas escolas que trabalhei, Escola Estadual Elias Nasser e Colégio Estadual Nossa Senhora do Montesserrate, e da última morada de muitos mortos. 

Milton não foi sepultado em Caiapônia. Preferi que a sua última morada fosse Jataí, para onde mudei, logo que ele partiu. İnteressante, para mim, naquele momento inesquecível e triste, tomei a decisão de enterrá- lo aqui, na minha cidade Natal, assim, ele ficaria mais próximo de nós! 

20-Visita ao amigo e colega Martiniano

Visita ao amigo e colega Martiniano

Terminei de ler o livro, Conflito de limites Goiás - Mato Grosso - Defesa Goiana - escrito  por Martiniano J. Silva. Recebi o mesmo do próprio escritor, em ocasião de uma visita, que fiz ao meu amigo e colega Martiniano, no dia 31/05/83.

Homem sereno, simples e manso no seu falar, demonstrando, claramente, a sua característica de sertanejo, qualidade que ele faz questão de ostentar.

Escritor preocupado com a história de sua cidade. A meu ver, foi o primeiro  Goiano a se preocupar e escrever tão, corajosamente, sobre a discriminação social - em defesa do negro, tão humilhado e tão desrespeitado nesta terra de Cabral.

É bom conversar com pessoas como Martiniano, e saber que apesar de tantas dificuldades, ainda, resta esperança. Cpa, 03/06/83.

5--Uma visita à querida Serranópolis


Estive em Serranópolis no dia 31/05/83, em companhia do amigo Dr Amirto, ocasião que visitamos alguns irmãos maçons, inclusive, o venerável.

Confesso que fiquei um pouco emocionado com a visita. Durante a viagem de Jataí até a minha velha Serra do Café, procurava, constantemente, na paisagem mutilada a amplidão dos chapadões; onde antigamente, bandos de emas e veados pastavam, tranquilamente, no agreste interminável.

Procurei encontrar os cerrados rasteiros e bonitos da região,.mas tudo em vão; só apenas o capim brachiaria de um lado e de outro da rodovia, e no lugar de árvores tortas do cerrado, o progresso trouxe e plantou Eucalipto, transformando a paisagem bucólica do meu sertão em paisagem homogênea do Sul do país.

Chegando à cidade, fiquei assustado com tanta mudança. A cidade que era encostada dentro do mato, agora vive em céu aberto. Tudo que era mato transformou - se em capim.

A velha igreja, onde tantas vezes, brinquei com os meninos do meu tempo,  pelas ruas irregulares, agora, estão calçadas. As casas humildes de pau a pique, cobertas de capim, foram substituídas por casas até luxuosas.

As pessoas me olhavam, fingindo não me conhecerem, e exibindo um ar de grandeza, demonstrando que a cidade progrediu.

Conversei, rapidamente, com alguns conhecidos, uma moça que foi minha colega no "pré", no velho Grupo Escolar, não teve vergonha em reconhecer- me.

Não deixei de ver o córrego da minha infância, "córrego moranga", de tantos banhos, de tantas pescas e de tantas emoções. 

Suas águas, agora, diminuídas, poluídas e com mau cheiro, não se comparam com a naturalidade de antigamente.

Tudo transformado, tudo....!
Será isso o progresso? Pobres seres humanos terrestres, perdidos no meio de tanta metamorfose. Cpa, 11/06/83.


10-Concepções sobre a morte

Meu velho pai está morrendo

Acabo de receber a notícia de que o meu pai está muito mal. A cirurgia que lhe foi submetido, para concertar uma veia, não correu muito bem.
Aqui estou, longe de todos os meus familiares, não sei se triste com a notícia ou assustado com a possibilidade da morte de meu velho pai.
Viveu trabalhando, sonhando, e morrer de uma doença, produto do seu esforço e de sua luta para firmar no cenário da vida.
Nunca, me passou pela cabeça que o meu pai viesse a falecer. Não posso imaginar qual será a minha reação.
Espero que o meu velho recupere logo.
Mesmo sabendo que a morte é certa, eu prefiro sempre adiá- la para outra ocasião.
Hoje, vou ficar com o pensamento voltado para ele. Vou lembrar de tantas coisas vividas juntos. İnfância, passeios, concelhos, atritos...
Eu tenho toda uma existência para lembrar dele. 
Caiapônia, 21/09/79.

Quando estamos alegres, tudo nos lembra alegria - músicas, passado, coisas em fim, alegres. Mas quando estamos tristes, é o contrário. 

Hoje, estou triste, para completar estou ameaçado de uma gripe. O meu pai está sendo operado do coração. Está passando mal. Não está recebendo visitas. 

Fui à Goiânia para vê-lo, e voltei muito desanimado. Encontrei muito debilitado. A sua respiração ofegante. Vi aquele homem imóvel, inconsciente, não era meu velho pai dinâmico e animado.
Era o rosto de uma pessoa vivendo seu último suspiro. O meu pensamento, nestes dias, está voltado, somente, para a sua imagem naquele hospital e pessoa que foi. Cpa, 26/09/79


A morte do meu pai

Hoje, estou vivendo uma experiência única. Meu pai morreu e o corpo, ainda, não chegou. Na casa do meu irmão mais velho, muitas pessoas amigas esperam a chegada do velho amigo - "Sr. Mané Capado". 

Meus irmãos, alguns choram, outros ficam firmes. A morte é uma experiência sem preparação. Eu não sei como me comportei, foi a primeira vez que perdi um ente querido, e só se perde um pai uma vez na vida. Eu não chorei e nem fiquei muito triste. Aceito a morte como aceito a vida. 

Mas, o momento é de muita emoção. Choro, tristeza, consolo de amigos. 
Minha família, agora, ficou, aínda, menor. Perdeu um de seus troncos. 

O meu pai viveu, envelheceu, mas não perdeu o seu heroísmo, seu modo de viver: herói e bandido. Pai. Amigo. İrmão e estranho.

Sigo, agora, para vê-lo. Há mais de dois meses não o via, vejo agora, sereno e rígido em seu leito derradeiro. Que Deus o receba como um justo.
                    Jataí, 01/10/1979

31/05/79- Morte do tio Levindo

Ontem, faleceu o meu único tio materno que eu tinha.
Nasceu, viveu e morreu pobre.
Trabalhar foi o seu lazer, seu passeio, sua vida.
O velório foi o mesmo de tantos que morreram nas mesmas condições. Casa simples, simplicidade nas pessoas amigas e parentes. Muito choro, muitas reclamações e lamentações.
Hoje, às onze horas foi o enterro. Cemitério, local onde as pessoas de todos os tipos, diferenças de cor, e de posses. Debaixo do chão tornam todas iguais.
A sua sepultura será igual a todas que ali existe. Com pedrinhas por cima, e uma cruz pintada a cal, onde ficará escrito o seu nome, data do nascimento e falecimento.
Seu nome ficará entre aquela multidão de desaparecidos anônimos. Anônimos em vida e na morte. 
Não fiquei triste, não chorei... apenas, fiquei a refletir, e fiquei sem resposta sobre o mistério da morte.
     Continuo a viver.....
                        Goiânia, 01/06/79

A morte de um amigo de infância

Ontem recebi por telefone, a notícia dada por minha mãe, sobre a morte do meu amigo de criança e juventude, conhecido por Oripinho. 

Oripinho era um moço pobre, mas muito inteligente. Por isso, saiu muito bem nos estudos.

Infelizmente, tão logo começou a trabalhar, iniciou também suas atividades boêmias. Bebia muito e perambulava de emprego em emprego; no entanto, nunca abandonou seus pais. 
Meu amigo morreu tão jovem, com pouco mais de quarenta anos. Às vezes, lembro- me dele, como um personagem do Jorge Amado, boêmio e fanfarrão.

Há quanto tempo não o via! Mas a grande verdade, é que não o conheci depois de adulto. Há mais ou menos, uns três anos, ele me ligou pedindo que lhe mandasse determinada quantia em dinheiro, pois precisava pagar aluguel, alegando que estava com a perna quebrada e sem emprego. 

Mandei- lhe o dinheiro pedido, e nunca mais falei com o meu amigo. Recentemente, fui informado que estava com câncer na garganta e logo faleceu.
Com a notícia da sua morte, vieram também várias lembranças do meu amigo, e da minha adolescência vivida em Jataí. Da praça do Lambari. Circo, muitas peladas nos campinhos de ponta de rua. As primeiras namoradas e os nossos primeiros segredos.
Agora, está morto meu amigo, senti saudades do meu passado perdido na imensidão dos meus problemas, referentes às minhas atividades políticas, negócios e profissão.

Meu amigo viveu pouco, mas viveu do jeito que quis, sem problemas, e parecia feliz, apesar de sua pobreza.
( 22/10/1999)

Homenagem a Moisés Manoel

Recebi, hoje, um novo disco de Orfeu e Menestrel, o terceiro disco gravado, que consta, em sua maioria, as letras do compositor Moisés Manuel, que foi tragicamente assassinado.

Às vezes, eu fico pensando naquele rapaz, que foi um rebelde, e muitas pessoas não aceitaram a sua maneira de viver. . Apaixonou- se, brigou, namorou, mesmo depois de casado, e não aceitou ser, simplesmente, convencional. 

As suas letras mostram, claramente, a sua maneira de ver a vida. Muitos dos que o criticavam, e não aceitaram a sua visão de mundo, chamando- o de louco e de irresponsável, agora, que ele está morto, acha que ele viveu corretamente. 

Por tudo isto, eu imagino e penso... como é difícil viver em harmonia com a sociedade e com nós mesmos. É um eterno conflito de sobrevivência entre o ser e o ter. 

Hoje, ele está em outra dimensão. Não sei como está vivendo, e o que está achando do planeta que deixou de habitar.  Eu sei que muitas letras que fariam lindas músicas ficarão sem composição, pois morreu o compositor e o poeta. 

Poeta na sua visão de mundo. No seu bucolismo, cantando as tradições e as mutações que estão acontecendo com o nosso sertão.

O sangue sertanejo dos seus antepassados ressurge  em suas músicas, que cantou como ninguém, a natureza e o sertão, mutilada pelo progresso, sem fibras e seus autênticos sertanejos.

Eu nunca cheguei a conversar com esse moço, mas o entendi melhor que muitos daqueles que viveram ao seu redor. Compreendi suas angústias e suas atitudes.