Como disse Adélia Prado - "Aquilo que a memória amou já ficou eterno". E, embora, ela tenha curto prazo para algumas pessoas, o que ela seleciona torna imortal, mesmo que lembremos em detalhes de algumas passagens e de outras não!
Minha memória é bem povoada por lembranças de meus entes queridos, principalmente, de meus pais e de meu marido, que partiu há um ano. E prefiro recordar os bons momentos dos três, apenas! E, interessante, que com a falta do meu marido, passei a sentir mais falta de meus pais.
Eterna ficou para mim a lembrança do meu pai, "assobiando"... estatura mediana, mais para alto, rosto magro e vermelho, queimado do sol, olhos claros, sério, cabisbaixo, entoando uma das suas melodias que ele mais gostava; sempre, quando estava lavando as suas botinas, na bica d'água, geralmente, de manhãzinha, nos finais de semana, quando tirava um dia para cuidar dos calçados e da sua aparência - mesmo morando na fazenda, tirava um dia para o autocuidado - barbear, dar uma aparada e higienizada nas mãos e unhas duras, como pau, etc.
Meu pai era lavrador - homem do campo, da fazenda ou da roça, como queira, leitor, para mim tanto faz. Que cultivava a sua própria terra, praticamente, sozinho, sem explorar o que a natureza, ainda, tem ou tinha de mais bonito, para obter, apenas, o que necessitava para o sustento da sua família...
Tempo que ainda não existia nem o trator, tudo era feito no cabo da enxada, do enxadão ou do machado. Lembro- me bem que chegava com a camisa e a calça molhadas de suor, que podia torcer, pelo sol e calor do dia, e as mãos eram bem calejadas pelo trabalho braçal...
Contudo, aparentava feliz... os sonhos e as suas expectativas eram bem reais, nada fugia do controle e do seu pequeno mundo. Não tinha sonhos impossíveis de serem realizados e nem desejos do que o outro - seu irmão, seu amigo, seu vizinho tinham.
Vivia na terra e da terra. Trabalhava, literalmente, de sol a sol, por isso mesmo, o sol nunca o pegou, na cama, e quase sempre voltava para casa, depois do sol se pôr. Meu pai era muito honesto, sério, trabalhador e também nervoso, talvez, até pela vida que levou e levava ou pelo seu gênio forte.
Nunca leu nenhum livro que não fossem a Bíblia ou o Evangelho. Guimarães Rosa e José Saramago, nem no sonho, os leu, mas se os tivesse lido, com certeza, fazia coautoria com seus personagens.
Não preocupava com a política, nem com a Economia brasileira (com a economia da família, sim). Não preocupava em ficar rico. Pensava em ter o necessário para viver. O que não fosse o necessário era considerado surperfluo. Não preocupava com luxo, preocupava com o que era possível realizar.
Ficou eterna também a lembrança de minha querida mãe, mulher do Lar - de estatura baixa, bem clara, esperta, resignada, trabalhadeira - cozinheira, arrumadeira, lavadeira - mas, diferente de meu pai, era de sorriso fácil, tranquila, sem vaidade. Na vida, só aprendeu a trabalhar - era costureira, fazia com prazer as roupas da família, lembro- me bem de meu primeiro vestido de festa azul marinho de bolinhas brancas. Primeiro vestido longo que eu usei e que minha mãe fez para eu ir em uma festa com o Milton. Ela dizia ''nunca usei um vestido tão bonito assim". Ela se realizava em nós! Fazia muito pouco para ela. Mas era conformada, aceitava tudo, como se fosse normal.
O primeiro vestido longo dela foi o de noiva com 16 anos de idade, depois nunca mais. E, às vezes, enquanto tocava o pedal da máquina, sem mesmo olhar para os lados, dava ordens para as filhas irem aprendendo a cuidar da casa.
(Lembro que eu e a minha irmã, que tem quase a mesma idade que eu, começamos a cozinhar com oito/ nove anos de idade. İmagine...! Fogão a lenha dava um trabalho! O meu arroz era misterioso, gente! Era daqueles que queimava e não secava. Nunca descobri a causa. Imagino, hoje, que, talvez, seja porque o arroz era novo e praticamente integral, e certamente colocava muita água, virava papa e pregava no fundo da panela, por ser feito com muito fogo🔥, no fogão a lenha).
Ficará eterna, também, a lembrança de meu saudoso marido, que embora não tenha sido o meu primeiro namorado, foi como se fosse. Já conhecíamos e já nos olhávamos, com certo interesse, bem antes de começarmos a namorar. Minha avó materna morava bem próxima do mercado do pai dele, e por intermédio dela, que comprava, sempre, lá, me dizia que " ele era falante e atencioso com ela", acredito que me incentivando a me encantar por ele. Meu tio, irmão de minha mãe, pouco mais velho do que ele, me dizia que era o "cara" que eu deveria namorá- lo.
Eu sempre o admirei, mas logo foi estudar em Goiânia, dificilmente, nos encontrávamos; até que um dia...eu e a minha irmã fomos ao cinema, e ele passou por mim e me pediu para reservar a poltrona do meu lado para ele; (era costume, daquela época, os rapazes pedirem para as suas pretendentes reservarem a poltrona do cinema, que ficava ao lado delas), mas como ele saiu e demorou muito, achei que não voltaria mais... então, outro rapaz pediu- me para assentar comigo, deixei, e ele chegou e eu já estava acompanhada... Ah... só me deu uma olhada, e entregou algumas balas para minha irmã, e pediu para que ela me entregasse.
Com o fim do meu namoro com um outro rapaz, eu e ele começamos a namorar, no dia 24 de outubro de 1974, feriado do aniversário de Goiânia, nunca esqueci a data, e tinha que ser, no cinema. Lembro- me bem, que depois que saímos do cinema, passeamos um pouco, pela avenida, de mãos dadas. Como ele disse: "as pessoas precisam ver que estamos namorando".
Era costume, daquela época, "fazermos avenida". Hábito de andar para cá e para lá pela Avenida Goiás de Jataí, para passear e avistar aquela pessoa que faria seu coração bater mais forte ou, ao menos, render um bate papo descontraído, numa época que não existia shoppings, lanchonetes, sorveterias e cafés de, hoje, e muito menos internet e celular.
Isso foi em um sábado, no domingo, ele já viajou para Goiânia, porque, na segunda - feira, teria que estar lá. E naquele tempo, as rodovias, ainda, não eram asfaltadas. E aí, você, leitor, que não viveu esse momento, não consegue nem imaginar o quanto era difícil, e o tempo que gastava viajando, além dos transtornos entre a poeira, estradas de chão esburacadas e ônibus velho, cheio, fedendo a gasolina e sem ar condicionado. Não era fácil!
Milton era um rapaz, que, como a minha avó dizia, era falante, atencioso e carismático, isto é, interagia bem com todas as pessoas ao seu redor - conversando, rindo... com muita espontaneidade. E isso fazia com que as outras pessoas sentissem bem quando estavam na sua presença.
Transmitia confiança, alegria quando estava alegre, tristeza quando algo o chateasse, deslumbrado quando algo o encantava, etc. É, assim, que guardo a imagem dele. Via nele, desde bem jovem, "um rapaz de futuro", estudava fora, fazia faculdade, tocava violão, cantava, lia poesias, tinha cabelos compridos, como os jovens da época; gostava de uma calça e de uma jaqueta jeans, que, com certeza, custou muito caro para comprá -las, além de muitos sonhos na cabeça. Tinha tudo que seduzia uma moça daquela época.
( Foto do Milton jovem)
Namoramos no tempo das cartas
Namoramos quase três anos por cartas! E guardo, ainda, até hoje, quase meio século depois, todas elas - uma grande coleção de nossas tão românticas e bem elaboradas e dobradas cartas escritas, manualmente ou digitadas, nas antigas máquinas de escrever.
E por ser algo que foi muito importante, em nossa vida, é natural que eu não queira jogar fora, e valorize. É bem verdade, que sou bem apegada às minhas coisas. Não posso negar. Acredito que herdei esse apego pelas coisas, de minha avó materna - lembro- me dela nos mostrar a sua primeira paganzinha, e fiquei admirada, na época, por guardar algo por tanto tempo, e, ainda, estar, praticamente, intacta.
Do mesmo modo, acredito que os meus netos ficariam... se eu lhes mostrasse a imensa sacola de cartas que guardo por 47 anos. Tenho certeza que eles me diriam: "Nossa, vó, a senhora guarda tudo isso...por tanto tempo... e estão perfeitinhas?!" O papel já está bem amarelado pelo tempo, mas pode perfeitamente, remontar a nossa história, se lidas pelos nossos filhos e netos. Os únicos que poderiam ter certa curiosidade de nos conhecerem melhor interiormente.
Essa foi uma prática milenar dos enamorados, de familiares e outros, que viviam a distância, por ser o único instrumento de trocar informações entre os mesmos; além de registro de fatos históricos e do cotidiano. İnspirando, inclusive, muitos escritores a escrever sobre as cartas de amor, que chamavam atenção pela linguagem delicada e muitas vezes poética, com caligrafia impecável. E as nossas não são diferentes.
E lendo algumas de nossas cartas, no amontoado de centenas delas, relembrei do meu eterno namorado, do seu jeito de ser, de seu romantismo, de suas preocupações, e fiquei pensando que, no tempo das cartas, os namorados, embora, distantes, pareciam estar mais conectados, porque poderiam através do papel extravasar seus sentimentos,
suas expectativas, seus desejos e suas saudades e, muitas vezes, até o seu perfume. ( Às vezes, a gente jogava perfume, rsrsrsrrsr) Vantagem que o WhatsApp, Facebook e Instagram, ainda, não podem nos oferecer.
A primeira carta ele caprichou tanto, que tive que pegar um dicionário, rsrsrsrrsr. Lembro - me bem que minha irmã quis ler também 🤩. Ah foram tantas as cartas.
Lembro bem de seu andar ligeiro e desconfiado... quando ia em minha casa, e me dizia para esperá- lo no portão. Se eu estivesse com uma roupa que não lhe agradasse, falava. Um dia, vesti uma blusa, um pouco decotada, e ele me disse que era bonita, mas poderia vesti- la, apenas, no dia que ele estivesse. Desobedeci, e ele apareceu sem me avisar - "não disse, minha querida, que não era para você usar esta blusa quando eu não estivesse? " Na minha ingenuidade acabei dizendo " não sabia que vc viria hoje". Poderia ter dito que havia intuído que ele ia chegar. Não!! Rsrsrsrrsr
Era possessivo, ciumento e controlador. (Contudo, embora, procurasse fazer o que ele gostava, nunca o deixei me controlar o que eu vestia. Sempre, vesti do jeito que eu gostava! Principalmente, porque nunca pequei por excessos.)
Mas era também muito romântico. Um dia, me levou uma rosa 🌹, chegou com as mãos para trás, e pediu - me para que eu adivinhasse o que tinha levado para mim.
Ainda, guardo os primeiros presentes que ele me deu - o primeiro, era um pôster meu preto e branco, de quando tinha 18 anos, e que, ainda, decora, o nosso quarto; segundo, um anelzinho de ouro, com pérola bem delicado. Depois de casada, me deu de presentes uma aliança e um brinco de pérolas. Não era muito de escolher presentes. Às vezes, preferia me dar o dinheiro para eu comprar o que eu quisesse. Mas, sempre me dizia: que o meu melhor presente era ele.
O tempo passa, as pessoas queridas partem, mas as lembranças ficam eternizadas em nossa memória... Assim, aconteceu comigo. Hoje, tudo que o Milton fez e foi ficará registrado, através dos seus textos, de suas cartas, fotos, livros e objetos que ele gostava, instalados, na fazenda, como: seu engenho, seu carro de boi, tudo que ele valorizava, sua lembrança está.
Para mim vale a pena guardar e conservar objetos que os entes queridos gostavam, desde que não geram desconforto pela falta de espaço e pelo dano do tempo. Ou espaço psicológico, segundo leituras, "uma vez que, para cada objeto que guardamos existe uma representação mental dele ocupando espaço na nossa mente".
Não, não é este o meu caso de transtorno desse ou daquele, não é nada em excesso.
Primeira serenata
A serenata, hoje, caiu em desuso, mas no final da década de setenta, quando eu e o Milton começamos a namorar, ele com 22 anos e eu com 18 anos, os jovens tinham o hábito de fazer serestas surpresas para as suas namoradas ou pretendentes, aos sábados, domingos e feriados, próximos a janela do quarto da homenageada depois que todos estivessem dormindo.
Como as casas, geralmente, tqinham alpendres, uma espécie de varanda do lado de fora, então, facilitava ficar ali na porta da casa por alguns minutos com alguns amigos. Livrando da chuva, do sereno da noite ou de algum pai ciumento. (Meu pai era muito sistemático, e saiu a porta, com seu jeito severo e inabilidoso, nos causando grande tristeza e vergonha.)
Quem não sabia cantar ou tocar um instrumento, escolhia duas ou três músicas, geralmente, mais românticas de Roberto Carlos, principalmente, e gravavam em alguma fita cassete, e punham para"rodar a fita". Se aparecesse o pai, saia correndo e deixava o "toca fita".
Agora, quando sabiam tocar e cantar, encantavam mil vezes mais. O Milton tocava, cantava e me encantava.
Milton morava em Goiânia, mas sempre, quando vinha a Jataí me ver, fazia serenata para mim. E eu escutando, ficava maravilhada, fazendo inclusive análises das músicas. Eu não entendia nada de análise do discurso, mas já fazia muito bem análise das letras que ele cantava para mim.
E a primeira serenata, a gente nunca esquece, e essa tinha, como seleção, estas duas lindas canções cantadas e tocadas por ele. Lembro- me bem. Milton tinha uma linda voz. Estávamos muito apaixonados - amor a primeira vista!
Boa noite!
Diga ao menos boa noite
Abra ao menos a janela
Pois eu cantei foi pra você
He...he...heê...he..he... heê
Boa Noite..
Durma, durma bem com os anjinhos
Para acordar amanhã cedinho
Eu cantei só prá vc!!
He...he...heê...he..he... heê
Boa noite..
Diga ao menos boa noite...
Composição: Desconhecido e revisão: Bernardo Bicca
A segunda música foi esta, intitulada:
Será que eu pus um grilo na sua cebeça de Guilherme Lamounier.
Galo canta é de manhã
Nuvens espalhadas feitas algodão
e a terra cheira como bala de hortelã
Abro meu coração
Solto meus cabelos livres no ar
e não quero mais saber
Quero é dividir o meu amor com você
Olhe dentro dessa manhã
Olhe a natureza solta no chão
Veja aquele esquilo entre nozes e avelãs.
Namoramos três anos por cartas, ele morava em Goiânia, porque já fazia faculdade lá, e nos finais de semana e feriados, ele vinha me visitar em Jataí.
(Foto do envelope e de uma carta)
Não esqueço do dia do nosso casamento, considerado o dia mais feliz de toda mulher... ele me disse que se eu demorasse, ele iria embora... fazendo pressão para que eu não demorasse;
Fotos do nosso casamento
*O dia da sua formatura - momento de aumento de nossas esperanças e expectativas de vencer na vida;
Fotos de sua formatura
* O nascimento de nossos filhos - presentes que Deus nos deu para amarmos mais do que a nós mesmos;
Fotos de nossos filhos
*A compra de nossa casa e o desejo de adquirir a nossa casa própria;
Foto de nossa casa - colocar o texto de nossa casa.
* O nosso primeiro pedaço de terra - a realização de um sonho dele de menino;
Fotos
* A formatura de nossos filhos e o primeiro emprego deles - a realização de um sonho não só deles, mas tbém nosso. O Milton, sempre, se empolgava com a realização pessoal de nossos filhos
Fotos
* O nascimento de nossos netos foram momentos marcantes em nossa vida. O vovô Milton amava tanto seus netinhos, achava inteligentes e bem educadinhos. Mas entristecia muito se algo não ia bem.
* Viajávamos pouco, não gostava, dizia que preferia viajar pela Netflix. Às vezes, enquanto via filmes, dizia: "tem coisa melhor do que viajar, assim, deitado no sofá de casa?"
* Nossos grandes momentos (que me levam a pensar, hoje, que tudo valeu a pena). P
“Valeu a pena eu haver vivido toda a minha vida... só para poder ter vivido esse momento. Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida”
(Rubem Alves, “Do Universo à Jabuticaba”. (crônicas). São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010).